Pioneira, Mônica treina paraibano Extremos na LDB. Time disputa Série Prata da competição (foto: Divulgação/LDB)

Pioneira, Mônica treina paraibano Extremos na LDB. Time disputa Série Prata da competição (foto: Divulgação/LDB)

Olga Bagatini
09/09/2016
07:00
São Paulo (SP)

Quando o Extremos, time da Paraíba, entra em quadra na Liga de Desenvolvimento de Basquete (LBD), um fato curioso chama a atenção: no comando está Mônica dos Anjos, única mulher a treinar um time profissional de basquete masculino no Brasil. A pernambucana de 49 anos diz estar habituada aos olhares de estranheza e garante nunca ter sofrido discriminação por ser mulher.

– Atletas, técnicos e o pessoal envolvido com a Liga já estão acostumados comigo, é meu quarto ano na LDB. Mas noto que os repórteres e a plateia sempre estranham muito, ainda mais quando estou de cabelo solto. Trabalho com homens há dez anos e já tive até que separar briga em jogo, mas nunca fui desrespeitada – contou Mônica ao LANCE!

A técnica iniciou sua carreira no esporte da bola laranja ainda na infância. Ganhou destaque como atleta, defendendo times como a base do Náutico e a seleção de Pernambuco, mas decidiu “abandonar” as quadras para virar treinadora aos 17 anos. Ingressou na faculdade de Educação Física e logo foi convidada por um professor para auxiliar nas categorias de base do colégio Santa Emília, onde estudou. Aceitou.

No início, treinava apenas meninas, mas a demanda por equipes masculinas a levou a trabalhar também com equipes de rapazes.

– Comecei com as escolinhas, eles foram ficando mais velhos e subindo de categoria. Foi bem natural. Pude acompanhar de perto o desenvolvimento dos atletas – explicou.

A convivência com as peças do elenco levou Mônica a estreitar laços com seus atletas. Ela diz que, além de treinadora, também exerce papel de psicóloga para os jovens jogadores.

– Eles demoraram para se abrir comigo, mas agora a intimidade é tanta que a gente até tira onda da cara um do outro. Nas horas vagas, pedem conselho amoroso, desabafam sobre situações familiares... E homem, se sofre, não joga. Por isso ajudo a resolver, senão perco o jogador.

A técnica está na LDB desde 2012. Passou dois anos no Náutico e, em 2015, aceitou o convite do projeto da Paraíba. Inicialmente chamado de Pequeninos Rhema, o Extremos faz sua segunda participação no torneio e obriga Mônica a percorrer o trajeto de 1h30 entre Recife e João Pessoa toda semana. Por conta dos filhos e do time do colégio, onde permanece até hoje, a técnica optou por não mudar de cidade.

– Deixo toda a programação preparada com meus auxiliares e vou para lá aos fins de semana, quando o treino é mais puxado e posso introduzir minha filosofia de jogo aos meninos. Gosto de velocidade, jogo agressivo, defesa forte – disse Mônica, que, a despeito dos olhares, mostra que lugar de mulher também é na beira da quadra.

Bate-bola com Mônica dos Anjos, treinadora do Extremos
'Sou uma técnica muito exigente'

Quais as maiores dificuldades de treinar um time masculino?
A gente tem que ter alguns cuidados. Por exemplo, Bernardinho diz que a primeira barreira que teve no feminino é que, com os homens, ele metia a porta na mão do vestiário e entrava. No feminino não podia. São esses detalhes. Em relação a respeito e respaldo, nunca tive problema. Só uma vez, que me esqueceram (risos).

Como foi essa história?
Uma vez, no Brasileiro, a organização esqueceu que a técnica era mulher. Todos os outros técnicos eram homens e dividiriam quartos, mas não tinha lugar para mim. Aí foi um desespero, mas me colocaram em um hotel e resolveram o problema.

E como é sua relação com o time?
Eu vi a maioria dos meninos crescer, então criamos amizade. Uns brincam e me chamam de "tia Mônica", e eu respondo que não sou tia de marmanjo. Como técnica, sou muito chata, no sentido de exigente, mas eles gostam de atividades puxadas.