Cairo Santos (direita) acertou dois extra points no jogo do último domingo contra o Oakland Raiders (Foto: AFP)

Cairo Santos (direita) acertou dois extra points no jogo do último domingo contra o Oakland Raiders (Foto: AFP)

Rafael Valesi
06/01/2016
05:05
São Paulo (SP)

Em 2014, Cairo Santos entrou para a história do esporte brasileiro ao ser o primeiro atleta do país a atuar na NFL, a maior liga de futebol americano do planeta. E neste sábado, o kicker paulistano de 24 anos quebrará um novo tabu nacional nos Estados Unidos.

Às 19h30 (de Brasília), Cairo estará em campo pelo Kansas City Chiefs para fazer sua estreia em playoffs, contra o Houston Texans, em partida a ser disputada no estádio do time adversário.

Na NFL, os playoffs são considerados um campeonato à parte da temporada regular. Afinal, nos mata-matas, em jogo único, é praticamente proibido errar. Uma falha pode custar a vitória e o sonho da conquista do Super Bowl.

Para evitar a pressão e cair em uma armadilha mental, Cairo encara seu primeiro jogo eliminatório como um outro qualquer.

– Para mim o jogo será o mesmo. A bola é a mesma, a trave terá sempre a mesma medida, o campo sempre será do mesmo tamanho – falou o brasileiro, em entrevista ao LANCE! nesta terça-feira, por telefone.

Confira a seguir o bate-papo com o atleta, que analisou sua temporada até aqui e a grande virada do Chiefs na temporada, que se classificou após perder cinco dos seus seis jogos iniciais, e venceu os dez restantes na sequência.

LANCE!: Como está a expectativa para sua estreia nos playoff da NFL?
Cairo Santos: Todo ano você tem o objetivo de chegar aos playoffs e ao Super Bowl. Em 2014 ficamos bem perto. E neste ano, conseguimos essa virada após um começo frio, com uma vitória e cinco derrotas. Conquistamos dez vitórias seguidas. A energia do time está muito legal. Foi uma virada nunca vista antes na NFL. A equipe tem potencial. É um momento legal na carreira de qualquer jogador.

E o fato de você ser o primeiro brasileiro a disputar uma partida nos playoffs da NFL, o que isso representa para você?
Fico muito feliz, é gratificante. Lembro que tive este sentimento no ano passado, em minha estreia na NFL. Fiquei muito feliz em ser o primeiro brasileiro na liga, e ainda mais agora, em uma fase decisiva, em que você tem a chance de brilhar (nos playoffs). Estou feliz com a oportunidade, e honrado em representar o país que eu amo.

Como você trabalha seu psicológico e seu emocional para os playoffs, em que é praticamente proibido errar?
Para mim o jogo será o mesmo. A bola é a mesma, a trave terá sempre a mesma medida, o campo sempre será o mesmo. O jogo (contra o Houston Texans) será em um estádio coberto, não terá vento, e isso me dá uma tranquilidade maior para o jogo. Sobre a pressão, se você ficar pensando nestes elementos, aí sim você pode sentir. Penso só em seguir em frente, no próximo chute, no treino de hoje, e levo a vida assim. Com certeza vou sentir a energia, o estádio vai estar lotado, o pessoal estará gritando, o jogo será fora de casa. Você tenta se acalmar ainda mais, e atacar com confiança.

Como você analisa seu desempenho na temporada regular, depois de conseguir acertar mais field goals do que no ano passado, mas com um pior aproveitamento?
Eu tive mais tentativas do que no ano passado (veja abaixo), e mais erros também. Mas quando penso nos erros, tive três chutes em que eu não tive chances de acertar. Em um, fui bloqueado. Outro chute foi de 66 jardas, distância nunca alcançada na história da NFL. No terceiro, estava chovendo, caindo um toró, e chutei a bola no chão, ela não estava em pé. Tirando esses erros, tive quatro falhas na temporada, o que me daria um aproveitamento de 89%, um número excelente. Fico feliz pelas chances que tive para chutar, e fui bem naqueles em que tive uma boa situação. Sobre os kickoffs, consegui um número maior de touchbacks, fiquei feliz com a melhora.

O Chiefs chega nos playoffs com a maior sequência de vitórias na liga, com dez. O que isso ajuda na disputa dos mata-matas? Como o time alcançou essa consistência?
A gente não descobriu de onde estavam vindo as derrotas no começo. Entregamos a vitória em um dos jogos contra o Denver Broncos, e também contra o Chicago Bears. Estávamos ganhando e levamos a virada. Foram erros nossos. Contra Minnesota Vikings e Cincinnati Bengals nós perdemos, e o Green Bay Packers realmente nos venceu, jogamos mal e demos chances. Para conseguir a virada, percebemos que não era essa a nossa personalidade. Cada um malhou um pouco mais pesado, trabalhou mais um pouco. Você não pode esperar outro resultado se fizer as mesmas coisas de antes. Todo mundo mudou, a energia dos técnicos puxou o time. Foi legal essa virada.

Como tem sido o retorno da comissão técnica sobre o seu trabalho nas últimas semanas?
Vejo que eles confiam mais em mim. Estão me colocando para fazer chutes mais longos do que no ano passado. A confiança vem do treino. Fiz treinos muito bons durante a temporada inteira. É legal ver isso entre os técnicos. Recebi o prêmio de melhor jogador da semana entre os membros dos times especiais mais de uma vez. Fico feliz com isso. O técnico Andy Reid tem um plano conservador de jogo. E o fato de eu arriscar chutes mais longos esse ano vem da confiança por parte dele.


A performance de Cairo Santos na temporada
Field goals
Na atual temporada, Cairo Santos acertou 30 field goals em 37 tentados, um aproveitamento de 81,1%. No ano de estreia, o brasileiro obteve sucesso em 25 de seus 30 chutes, um aproveitamento um pouco melhor: 83,3%

Ranking
Cairo Santos foi o quinto melhor kicker em field goals convertidos, mas só o 31 em aproveitamento. Nos extra points, o jogador terminou em sétimo lugar em jogadas bem sucedidas (39), mas o 20 em aproveitamento (95%). Foram dois erros.

Outras marcas
Em partida contra o Cincinnati Bengals, Cairo anotou sete field goals, recorde na história do Kansas City Chiefs. O field goal mais longo acertado por Cairo Santos em 2015 foi de 53 jardas, mesma distância obtida em seu ano de estreia.