LANCE!
29/09/2017
08:30

Colunista e blogueiro do LANCE!, João Carlos Assumpção participou da cobertura de seis Copas do Mundo e de três Jogos Olímpicos. Escritor e cineasta ele ganhou em 2015 a missão de um produtora de pesquisar sobre o dia a dia dos atletas de um esporte pouco divulgado para um documentário. Mal poderia imaginar que aquele projeto mudaria de vez a sua vida. Conheceu e se encantou pelo Muay Thai e, principalmente, pelo drama dos lutadores que se dedicam ao esporte com o objetivo de mudarem suas vidas. Passou a orientar e virou uma espécie de "mentor" de vários desses lutadores. Uma história que vai virar um livro, com o provável título de "Vozes da Periferia", a ser lançado no Brasil e em Portugal, além de outros países europeus.

- Mergulhei no universo dos lutadores de Thai em 2015, quando fui fazer uma pesquisa para uma produtora de cinema interessada em conhecer o dia a dia dos atletas de um esporte marginal, marginal no sentido de não ser olímpico e não ter apoio nenhum no Brasil. Pelo menos não os atletas, que chegam a lutar de graça ou muitas vezes por bolsas ínfimas, que não costumam passar dos 500 reais. Alguns mal têm recursos para bancar suplementação e dieta e vivem de bicos, usando o pouco dinheiro que têm para treinar e lutar. E dão a cara pra bater sem ter sequer plano de saúde... A luta pra eles é uma forma de se destacarem na comunidade em que vivem, ganharem status, um senso de família na academia, uma sensação de pertencimento, enfim... Para entender a realidade deles passei a frequentar os mesmos locais que eles, eventos de lutas, morros, bailes funks, vilas, comunidades e comecei a entender a visão de mundo de uma galera cuja voz não é ouvida no Brasil - disse Janca.

O jornalista vê no aspecto educacional o grande mérito deste trabalho e revela o que teve que superar para conseguir chegar junto dos lutadores.

- Faço um trabalho educativo e voluntário com os atletas, ajudando eles a planejarem a vida e a carreira. Dou suporte emocional. E há até atleta que deixou de lutar para se dedicar a aulas de thai e voltar a estudar. Uma parte vive em situação de vulnerabilidade social. Viraram muitos amigos meus. Passei também a ajudar lutadores, foram 17 de 2015 pra cá, mas três em especial. O primeiro de São Vicente, o segundo de Osasco e o terceiro de Porto Alegre. Viraram grandes amigos meus. Mergulhei a fundo num mundo que não era o meu. Saí da minha zona de conforto e vivi histórias incríveis que vou contar uma a uma no livro. Como um cara dos Jardins (bairro nobre de São Paulo) e cheio de traumas e neuroses passa a conviver num outro universo, o universo da maioria dos brasileiros, num país tão injusto e desigual em que somos menos de dez milhões de incluídos. Estou entre eles, mas comecei a viver entre os excluídos e passei a entender melhor a visão de mundo que eles têm. Ensinei muita coisa aos lutadores, que têm uma carência enorme e que não é só financeira, não, precisam de escuta e acolhimento como todos nós, mas aprendi demais com cada um deles. Demais mesmo. Lições que vou levar pro resto da vida sobre amizade, companheirismo, respeito, disciplina, conflitos, tristeza, alegria, derrotas, vitórias... Histórias de vida, enfim. Modéstia à parte será um baita livro-reportagem fruto de três anos de pesquisa. E, mais do que pesquisa, vivência - disse Janca.

Semelhanças com o futebol

Acostumado a lidar com o cotidiano do futebol, João Carlos Assumpção vê semelhanças entre o Muay Thai e o esporte mais popular do Brasil.

- A semelhança entre futebol e Thai é que ambos envolvem um sonho. No caso do futebol, esporte mais popular do Brasil e do mundo, toda criança quer ser uma estrela e sonha com o que a modalidade pode proporcionar. Mas proporciona para um ou outro, não é todo mundo que vai para um Barcelona, um Corinthians ou um Flamengo. No caso do Thai o sonho é ir para a Tailândia, onde a luta é popular como o futebol aqui no Brasil. Alguns conseguem ir, mas normalmente se desfazem do pouco que têm para viver um sonho que dura três, quatro, no máximo seis meses. Daí se machucam, não têm como pagar as contas e voltam com uma mão na frente e outra atrás. Uma realidade dura pacas - disse ele.

O título "Vozes da Periferia" é visto por Janca como bem adequado.

- O livro ainda não tem um nome, o provisório é "Vozes da Periferia". Porque é uma forma de dar vozes aqueles que não são ouvidos. Mas existem. E precisam falar. Mesmo que a sociedade aja como se fossem fantasmas. Quando não são. Por trás de cada lutador tem um ser humano. E muitas vezes um ser humano incrível, que enfrenta e supera dificuldades inimagináveis tanto que a obra parece ficção... - disse Janca.

Além do livro, a realidade dos lutadores de Muay Thai será tratado nas telas.

- O curta-metragem é sobre um lutador que conheci em 2015, que apoiei financeira e emocionalmente e com quem tive muitos conflitos. Até porque muitas vezes eu tinha sonhos pra ele diferentes dos que ele próprio tinha. Virei uma espécie de mentor, mas um mentor bem atrapalhado. Dava palpites em tudo. Até em treinos, estilo de lutar, planejamento de carreira, tudo, tudo, tudo, enfim... Depois que passei a apoiar um outro lutador, que hoje faz sucesso na Tailândia, ficamos um bom tempo sem nos falar, mas voltamos a ser bons amigos. É um rapaz especial, um atleta polêmico, mas de muito coração, cuja história merece ser retratada. História tocante de uma família disfuncional, como a minha de origem também foi, e como é a de tanta gente no Brasil. História de quedas, redenções e lutas... Muitas, muitas lutas - concluiu Janca.