Peyton Manning em Coletiva

A última frase dita por Peyton Manning em sua despedida foi épica: "Omaha" (Foto: Doug Pensinger/AFP)

Felipe Domingues
07/03/2016
20:27
São Paulo (SP)

Por 18 anos, os fãs de futebol americano se acostumaram a ouvir os gritos de "Omaha" na linha de scrimmage. A cada orientação, mudança de posições e citações à cidade de Nebraska (EUA), havia uma certeza: algo de bom iria sair das mãos de Peyton Manning. Nessas 18 temporadas, o camisa 18 do Indianapolis Colts e do Denver Broncos revolucionou o esporte e modificou o pensamento de como um quarterback deveria se portar e atuar. Nesta segunda-feira, pela última vez, ouvimos essa expressão.

Os fãs do Colts já tiveram essa sensação antes, em 2011, quando em uma entrevista coletiva, o dono da franquia, Jim Irsay, e Manning anunciaram que o jogador não atuaria mais em Indiana. Mesmo assim, nos cinco anos seguintes, os torcedores continuaram apoiando seu ídolo e, mesmo em embates contra ele, jamais comemoraram um tropeço do camisa 18.

Dessa vez, não apenas os fãs do Denver Broncos sentiram a dor de se despedir de Peyton, mas toda a comunidade da NFL. Por dois dias, técnicos, jogadores, dirigentes e até rivais se curvaram ao quarterback, prestando homenagens e demonstrando respeito àquele que não apenas entrava em campo para competir, mas para provar a si e aos outros algo que já era visto por muitos: aquele número 18 era diferente.

Com sua aposentadoria, o debate sobre sua posição entre os melhores já está em curso. A seu favor, a liderança nos principais recordes que um quarterback pode ter, como vitórias (200), passes para touchdown (579), jardas de passe (79.279) e prêmios de melhor da temporada (cinco).

Contra, pesam as falhas em playoffs, com "apenas" dois títulos - em 2007, sobre o Chicago Bears, e 2016, em cima do Carolina Panthers - e dois vices - em 2010, contra o New Orleans Saints, e 2014, contra o Seattle Seahawks.

Em termos de recordes é indiscutível a supremacia de Manning. Em relação ao quanto ele mudou o modo de jogar, idem. Em disputas de playoffs, ironicamente, ele fica atrás do "arqui-inimigo" Tom Brady, do New England Patriots, contra quem possui vantagem em duelos diretos, porém (3 a 2), e outros, como Joe Montana, Terry Bradshaw e Troy Aikman.

Assim como nos outros esportes, cada fã possui seus critérios para definir seus atletas favoritos, ou até mesmo os melhores. Você pode pensar, como já dito, em números, recordes, vitórias, títulos... A lista, talvez, nunca possua uma resposta exata e, certamente, jamais poderá ser considerada como definitiva.

Jogadores vêm e vão, lendas surgem e saem de cena, atletas começam a jogar todos os dias, enquanto outros se aposentam na mesma frequência. Mas, em meio a tantas perguntas sem respostas, talvez uma delas possamos atingir um consenso e uma conclusão: jamais, na história do esporte, haverá alguém como Peyton Manning.

Em seu discurso de despedida, o camisa 18 fez algo difícil de ver em sua carreira: se emocionou. Seus agradecimentos foram dirigidos a todos aqueles que, ao menos por um minuto, fizeram parte de sua história. Seus treinadores, amigos, colegas de time, rivais, ídolos, família...

As últimas frases de Manning falam por si e, portanto, não há mais que possa complementar o discurso carregado pelo sotaque sulista do jogador. Sendo assim, veja como o "quase quarentão" e, agora, ex-atleta, encerrou sua coletiva:

"Aprendi com meus erros, tropeços e derrotas no futebol, eu também aprendi que esse jogo é uma plataforma para que minha voz pudesse ecoar muito além dele. O futebol me ensinou a não ser derrubado por obstruções e obstáculos, mas ser levado por sonhos.

Estou convencido que o fim da minha carreira é apenas o início de algo que eu ainda não descobri o que é. A vida não está encolhendo para mim, e sim se tornando um grande cenário de possibilidades.

Cada momento, cada gota de suor, cada vez que a minha visão embaçou em uma preparação, cada anotação que fiz ou vídeo que assisti foram por uma coisa: reverência à esse jogo. Olhando para trás em minha carreira da NFL, eu vejo que dei tudo que tinha para ajudar meu time a vencer. Haviam jogadores melhores que eu, mas nunca mais preparados.

Por isso, não tenho arrependimentos.

Há um versículo de Timóteo, 4:7 que diz: Combati o bom combate, completei a corrida, perseverei na fé. Bom, eu lutei uma boa luta, eu terminei minha corrida no futebol e, após 18 anos, chegou a hora. Deus abençoe todos vocês. E Deus abençoe o futebol".

Você tem toda a razão, Peyton Manning. Sua luta foi boa e duradoura. Nesse momento, a única e última coisa que resta a dizer é: obrigado por 18 anos de dedicação. Os fãs ao redor do mundo agradecerão pelos próximos 18, 36, 54 anos. E o esporte? Nunca mais será o mesmo.