Ricardo Leyser acompanhou de perto toda a preparação do Rio de Janeiro para a Olimpíada

Ricardo Leyser acompanhou de perto toda a fase de organização da Rio 2016  (foto: Roberto Castro/ME)

Marcelo Laguna
24/07/2016
08:00
Enviado especial ao Rio de Janeiro (RJ)

Faltavam alguns minutos para o início da cerimônia de inauguração dos aros olímpicos na praia de Copacabana, na última quinta-feira, quando um homem interrompeu a entrevista que Ricardo Leyser, ex-secretário de Alto Rendimento e ex-ministro do Esporte do governo Dilma Rousseff dava ao LANCE!.

- O senhor é da prefeitura? Então, tem uma praça ali perto do Leme que está em estado deplorável, cheio de buracos, está estragando a imagem da cidade. Será que o senhor teria como fazer algo sobre isso?

- Com certeza, me deixa o seu telefone e o endereço do local... - respondeu Leyser, pacientemente, pegando uma folha do bloco de anotações do repórter para anotar os contatos do morador.

O ex-homem forte do esporte brasileiro está desde o último mês de maio na Empresa Olímpica Municipal (EOM), ocupando a vice-presidência do órgão e ajudando nos preparativos finais na organização da Rio-2016. O inusitado pedido que recebeu em plena praia de Copacabana foi um dos raros momentos em que Leyser não precisou pensar em Jogos Olímpicos nos últimos tempos. E o que ele tem mais escutado recentemente são notícias negativas a respeito da Olimpíada, o que o deixa revoltado.

- Vejo muita deturpação no noticiário da imprensa internacional, não a especializada em esporte, tratando como se tivéssemos uma realidade de caos que não existe. Mas esse clima negativo é normal, aconteceu em Atenas 2004, Pequim 2008 e até em Londres 2012 - disse Leyser.

Em entrevista exclusiva ao LANCE!, ele fala sobre a questão do legado olímpico que os Jogos deixarão para o Rio de Janeiro, a  expectativa para a participação dos atletas brasileiros nos Jogos e a frustração de não integrar o governo federal na reta final da Rio-2016, após ter participado ativamente na preparação tanto dos atletas quanto da cidade-sede da primeira Olimpíada na América do Sul.

L! - Nesta reta final para os Jogos Rio-2016, como você vê essa onda de críticas negativas em relação ao evento? Até onde elas são justas ou trata-se apenas de exagero?
Ricardo Leyser – Eu vejo muita desinformação, especialmente na imprensa internacional geral, não apenas a especializada em esportes. Não se esqueça que o Brasil tirou os Jogos de 2016 de Estados Unidos, Espanha e Japão e as reações negativas partem muito de lados que seriam beneficiados com a Olimpíada. Mas isso não me surpreende porque outras edições olímpicas também tiveram uma fase de críticas muito fortes na véspera do evento.

Quais são as críticas que você considera injustas?
Por exemplo, vi uma reportagem falando a respeito de favelas e pobreza. Mas isso sempre existiu no Brasil, ninguém disse que ela acabaria com a Olimpíada. O que ninguém fala é que a condição de vida de muitas pessoas melhorou bastante com os Jogos. Por que só os países ricos, que costumam sediar os grandes eventos como as Olimpíadas, podem se beneficiar deste desenvolvimento?

Mas você acha que não houve falhas em todas as esferas do governo durante a fase de organização dos Jogos Olímpicos?
Sim, cometemos centenas de erros, como também acertos. A decisão de construir o metrô para a Barra da Tijuca foi muito boa, embora com erros no processo e na questão dos prazos. Já a questão da despoluição da Baia de Guanabara foi um grande erro, pois não cumprimos com a meta prometida. Outro grande erro nosso, a meu ver, foi não investir corretamente em comunicação, para mostrarmos os nossos acertos. Acredito que somente ao final dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos é que vamos ter condições de fazer uma avaliação real do significado para o Rio de Janeiro. Mas tenho certeza que o legado para a cidade será muito maior do que os Jogos de 2012 representaram para Londres.

Poderia dar algum exemplo?
Só em relação a transporte público foram investidos mais de R$ 20 bilhões nos últimos quatro anos. Isso será uma revolução para a população da cidade. O problema é que a crise política no país acaba afetando a visibilidade e como há um clima de insatisfação geral na população, tudo parece estar ruim.

Mas alguns investimentos poderiam ter sido repensados, como o campo de golfe. A cidade possuí dois bons campos e ainda assim investiu-se na construção de uma instalação de um esporte que está longe de ser popular. O próprio prefeito Eduardo Paes disse que por ele não teria construído…
Sim, concordo com ele. Mas ocorreu uma recuperação de uma área degradada na região do campo de golfe, onde existia uma fábrica de pré-moldados nos anos 80. Toda esta área foi recuperada, não houve uma depredação de reserva ambiental como foi dito.

O impacto das obras olímpicas, especialmente de algumas arenas ao longo da cidade, também vem causando uma repercussão negativa em parte da população, não acha?
Talvez o ideal é que os Jogos ficassem concentrados apenas na área da Barra da Tijuca, mas avaliamos que foi positivo levar parte da competição para Deodoro, uma área que necessitava de investimento e assim aproximar os equipamentos olímpicos de uma área que costuma formar atletas de alto rendimento. Agora, é claro que instalar a arena de vôlei de praia em Copacabana causa um impacto ruim para a cidade, mas que trará benefícios em termos de imagem, pois tínhamos que vender a paisagem do Rio para o mundo, levar os Jogos para a rua, e isso teria que afetar a cidade também.

Após ter acompanhado de perto a preparação dos atletas brasileiros para a Rio-2016, acredita que foi realmente a melhor que eles poderiam ter?
Sim, conseguimos ter sucesso nisso, os resultados estão aí para provar. Jamais os atletas brasileiros tiveram uma preparação como essa, com grandes resultados internacionais. Acho que a única coisa que acabou faltando, em relação ao meu trabalho, foi fazer uma avaliação dos resultados que serão obtidos e um ajuste para o próximo ciclo olímpico de Tóquio 2020.

Há o temor em vários atletas que a redução de investimentos no esporte olímpico possa trazer prejuízo a muitas modalidades e o novo ministro do esporte já sinalizou que isso irá acontecer…
O Brasil precisa fazer o esporte desenvolver. Nosso esporte ainda depende 98% de dinheiro federal e de investimentos pessoais dos atletas. Existe um erro, no meu modo de ver, do próprio mercado publicitário brasileiro, de não investir por longo tempo nestes atletas. Só espero que não ocorra um retrocesso grande no investimento do esporte como tenho visto em muitas áreas sociais.

Os Jogos vão pegar no Rio?
Com certeza, não tenho dúvida disso, as Olimpíadas serão um sucesso. A chave vai virar no dia 5.