Elias Brown
02/09/2016
16:39
São Paulo (SP) 

Lutar por oportunidades dentro do esporte brasileiro não tem sido uma tarefa fácil. Na maior parte das modalidades, os atletas sofrem com as dificuldades para seguir carreira naquilo em que mostram aptidão, pois carecem de apoio para se sustentar. Há quem desista e há quem lute para se manter dentro na base do amor.

No segundo caso está Gerardo Carvalho, 89 anos, grande parte deles dedicados a praticar e estudar as modalidades de lutas. Atleta na mais completa definição da palavra, não tem na idade um empecilho para competir. A sua última façanha foi vencer, em uma disputa casada, um adversário mais novo e mais graduado (mestre Bobadilha, faixa coral), por 12 pontos a 0, conquistando a medalha de ouro, depois de quase quatro décadas longe dos esportes. Para se ter ideia do tamanho do feito, a faixa preta veio para seu Gerardo há menos de quatro anos, a faixa coral do mestre Bobadilha só pode ser entregue a alguém com no mínimo 31 anos de faixa preta.

O reencontro com sua vocação se deu de forma inusitada.

- Fiquei muitos anos sem lutar até que certo dia, por ironia do destino, conheci numa estação de metrô um jovem rapaz que estava indo para a Academia Barbosa de Jiu-Jitsu. Depois de batermos um papo sobre artes marciais, ele acabou me convidando para conhecê-la – afirmou.

Alguns dias depois desse episódio, seu Gerardo, como é chamado nos tatames, tomou coragem e foi visitar o local. De forma tímida, apresentou-se ao fundador da academia Marco Barbosa, que, após saber de sua história de vida, fez questão de acolhê-lo e incentivá-lo nos treinos. Foram dois anos de dedicação e incentivo dos companheiros até que seu Gerardo, agora faixa preta, decidiu participar do Campeonato Paulista de jiu-jítsu que aconteceu em junho deste ano.

- Apesar de todo o meu conhecimento, os ensinamentos do mestre Barbosa foram cruciais para a decisão final.

Um de seus parceiros de treino, Rogério Coelho, o 'Mineiro' afirmou em entrevista ao L! que os treinos com Seu Gerardo são bem puxados.

- Ele é um excelente passador, apesar da idade, sabe fazer pressão como ninguém e tem a força de um garoto. Assisti ao vídeo da luta depois e ele lutou como se estivesse em um treino, os movimentos foram perfeitos e muito bem calculados - declarou.

Mas não é de hoje que seu Gerardo enfrenta desafios no mundo das artes marciais. Tudo começou em 1949, quando, incentivado por um amigo, decidiu fazer uma vista à Academia Bandeirantes de Pugilismo, que ficava localizada na região do Parque Dom Pedro II. Lá, teve o seu primeiro contato com a luta livre e deu seus primeiros passos, instruído pelo professor Carlos Auríkio. Foi com ele que treinou para competir no primeiro Campeonato Paulista de Freestyle, em novembro do mesmo ano. Embora tivesse poucos meses de treino, foi campeão da categoria meio-médio até 70 kg e levou sua academia ao vice-campeonato paulista de luta livre.

- As expectativas eram muito grandes, afinal era o primeiro Campeonato Paulista e ali estariam competidores de grandes academias como Esporte Clube Pinheiros, Academia Guaraní, Academia Bandeirantes entre outras – relembra.

E não parou por aí. Com o passar dos anos, participou de diversas competições internas, foi professor em grandes escolas, além de ter sido o técnico de lutas do Batalhão de Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, a ROTA, que com seus ensinamentos ganhou o campeonato paulista de luta livre de 1953.

O sucesso foi tão grande que Gerardo chegou a ser técnico da equipe brasileira de lutas que competiu nos Jogos Pan-Americanos de 1963, em São Paulo. Embora não tenham conquistado medalha, capacidade nunca faltou. Ele destaca que o motivo do baixo desempenho dos atletas foi a falta de apoio da Federação Paulista de Pugilismo, que já os tinha decepcionado antes mesmo do evento.

- Deixaram-nos sem qualquer amparo em uma viagem de preparação que fizermos à Argentina. Hospedaram-nos em um hotel simplório, sem verbas para as refeições e sem oportunidade de conhecer os grandes ginásios olímpicos daquela região. Não houve chances de nos prepararmos e ainda tivemos que nos custear. Isso é uma amostra do que são estes dirigentes brasileiros que até hoje não dão o valor merecido aos esportes e acham que conseguem formar atletas para competir em Olimpíada em apenas dois anos, como é o caso atual, isso é vergonhoso – esbraveja.

Assim como acontece nos dias atuais, muitos dos competidores não dispunham de condições financeiras favoráveis e sofriam pela escassez de campeonatos por parte da federação. Dessa forma, buscavam alternativas para o complemento da renda e aperfeiçoamento da luta.

- Alguns atletas que iriam competir nesse campeonato eram humildes, de família pobre e para complementar a renda eles faziam lutas-espetáculos em circos no centro de São Paulo. Isso atraiu muito a atenção do público que lotou o evento e fez do campeonato um verdadeiro sucesso - conta seu Gerardo, relembrando seu período de fama.

E para quem acha que esse período ficou lá no passado, seu Gerardo avisa:

- Enquanto eu tiver condições físicas, quero permanecer treinando, lutando e, se Deus assim permitir, ganhando mais lutas e recebendo mais medalhas.

Atualmente, o "vovô dos tatames" está escrevendo uma autobiografia e em busca do título de lutador mais antigo do mundo ainda em atividade.