Wilson Baldini Jr.
08/03/2016
08:00
São Paulo (SP)

São muitas as “lutas do século” no boxe. Um duelo que está sempre em qualquer lista dos melhores é o primeiro entre Muhammad Ali e Joe Frazier, em 8 de março de 1971. Com Frank Sinatra como fotógrafo da revista Life, juntamente com 20.748 espectadores, que deixaram US$ 1.053.688,00 nas bilheterias, o lendário ginásio do Madison Square Garden pegou fogo, apesar do intenso frio do lado de fora nas ruas de Nova York.

Os dois pugilistas estavam em grande forma. Invictos. Frazier, o campeão, somava 26 vitórias, com 23 nocautes, aos 27 anos. Ali, com 29 anos, tinha 31 triunfos, com 25 nocautes. Para cada um, uma bolsa recorde: US$ 2,5 milhões. Para muitos críticos, a luta estava três anos atrasada. Tempo em que Ali ficou de fora dos ringues por ter se negado a integrar o exército norte-americano na Guerra do Vietnã. Mas Frazier e Ali se superaram. Colocaram em prática o que havia de melhor na técnica e no físico.

Resultado: 45 minutos de um combate intenso, honesto, sem agarrões ou golpes irregulares. O atarracado Frazier, de 1,82 metro e 93 quilos, não deu um passo para trás durante todo o tempo. Com cruzados de esquerda violentíssimos e muito bem direcionados, acertou por dezenas de vezes o lado esquerdo do queixo de Ali. Ao contrário do campeão, o desafiante, de 1,90 metro e 97 quilos, que buscava a reconquista do título pela primeira vez, lutou quase que o tempo todo encostado nas cordas. Nos contra-ataques e com uma esquiva abusada. Ali utilizou o jab de esquerda amplamente e acertou de forma cirúrgica o rosto de Frazier, que inchava a cada round. O direto de direita também explodiu por inúmeras vezes.

O ritmo da luta era alucinante, mas sem agarrões, o que transformou o lendário juiz Arthur Mercante em um espectador privilegiado. Ele só foi requisitado nos finais dos rounds para separar os pugilistas, que insistiam em trocar socos.

"Todas as vezes que em lutar com ele, irei vencer", afirmou Frazier na época

A cada golpe o público festejou como se fosse um gol. E o principal momento ocorreu no 14.º round, quando o cruzado de esquerda de Frazier acertou em cheio o queixo de Ali, que foi à lona. Determinado, levantou, sofreu castigo, mas se manteve em pé para perder por pontos, em decisão unânime dos jurados, que determinavam o vencedor de cada round: 9 a 6, 11 a 4 e 8 a 6 (com um empate) deixaram Frazier com o cinturão de campeão.

Ele teve o braço levantado por Mercante, mas, com problemas de hipertensão e infecção renal, passou vários dias internado no hospital. Ali também teve de se submeter a um raio X no queixo, mas nada de mais grave foi constatado. “Eu venci a luta. Quero revanche”, disse Ali, sempre falastrão. “Todas as vezes que em lutar com ele, irei vencer”, devolveu Frazier, que seguiu campeão até 1973, quando foi massacrado por George Foreman.

Os dois voltaram a lutar mais duas vezes. Em 1974, em uma eliminatória, Ali venceu por pontos e se credenciou para encarar Foreman. Em 1975, em Manila, em um duelo memorável (para muitos o maior da história), Ali voltou a vencer, desta vez por nocaute técnico no 14º assalto.

Frazier, depois de Foreman, nunca mais voltou a ser campeão. Fez sua última luta em 1981. Mesmo ano de Ali, que se sagrou campeão mais duas vezes. Em 1974, diante de Foreman, no Zaire, e em 1978, ao bater Leon Spinks.