Luis Fernando Coutinho
26/11/2015
12:15
Rio de Janeiro (RJ)

Anunciado como novo presidente do UFC no Brasil em março, Giovani Decker só assumiu o posto oficialmente em abril deste ano. Após passar pelo 'meio do furacão', como o mesmo define o início de trabalho durante a barulhenta polêmica onde Anderson Silva, maior nome da franquia no país, se envolveu em casos de doping, o gaúcho agora desfruta a valorização de uma nova fase organização em solo nacional.

Com o lema de menos (porém melhores) eventos no Brasil em seu comando, o dirigente apresenta um perfil curioso para a posição que exerce. Com Dana White, principal mandatário da franquia cada vez menos presente em solo brasileiro, Decker assume a "cara" da franquia no país e adota um perfil que trabalha desde amizade com lutadores até a interação com fãs da modalidade via redes sociais.

- O Brasil é o país da luta, definitivamente. Acho que o fã daqui entende mais de luta. O fã sabe quando um card é bom ou não é, quando um lutador é bom ou não. Aqui não tem mais ou menos, não dá para querer enganar o fã. A mobilização das lutas nas mídias sociais no Brasil é impressionante. O fã entende mesmo de luta. Acho que aqui é o pais da luta. Nossos três cinturões podem virar cinco ou seis muito em breve - afirmou o mandatário, projetando mais sucesso além dos campeões José Aldo (peso pena), Rafael Dos Anjos (peso leve) e Fabricio Werdum (peso pesado), brasileiros detentores de cinturão na organização atualmente.

Nesta entrevista ao Lance!, Giovani Decker faz um balanço do início de trabalho à frente do UFC no Brasil, projeta novas realizações e mais. 

Giovani Decker é o presidente do UFC no Brasil (FOTO: Inovafoto/Divulgação)
        Decker ao lado de Jacaré e Aldo (FOTO: Inovafoto/Divulgação)



Confira um bate-papo com Giovani Decker, presidente do UFC no Brasil
Antes de chegar ao UFC você passou pela Olympikus e pela Asics, marcas esportivas fora do ramo de lutas. Qual era a sua relação com o MMA?
Fui um grande fã na época em que o UFC ainda estava no início.Na época da fita cassete ainda, do Royce Gracie, depois do Marco Ruas, o início do Vitor Belfort... Depois disso confesso que dei uma parada e acompanhei mais os eventos que começaram a passar na TV aberta. Acompanhava ocasionalmente. Não era um fã, mas obviamente quando fui procurado pelo UFC, em algumas das diversas vezes que isso aconteceu, pontuei isso. Quando cheguei fiz um trabalho de imersão completo. Estou completamente apaixonado pelo mundo da luta, imerso. Inclusive estou lutando também agora. Comecei no muay thai. Claro que nunca serei um "casca-grossa", mas faz parte e é importante conhecer e aprender mais, conhecer melhor o lado do lutador que vive isso todos os dias.

Qual balanço você faz desse início de gestão?
Sou bastante perfeccionista com meu trabalho e quanto ao que eu quero e com o que me envolvo. Vejo que o UFC tem milhões de coisas para fazer e melhorar, mas olho como um balanço positivo. Conseguimos nesse pouco tempo um respeito grande com os atletas. Prezo pelo respeito ao atleta, acho bom estar no dia do atleta e entender melhor as dificuldades deles para treinar, ver o quanto é duro. Já avançamos bem. Na questão dos eventos, já crescemos muito também. Não é só dentro do octógono, mas hoje o fã tem uma experiência maior, além do evento, com ativações, entretenimento mesmo, área VIP e tudo mais. Não é só o que acontece no octógono. Conseguimos trabalhar conceitos que vamos sustentar e trabalhar a percepção do fã a longo prazo. Eventos com um misto de lendas com grandes promessas, que despertam interesso do publico. Temos de fazer essa mistura e trazer caras locais para movimentar o MMA local, ajuda a encher a arena. Esses fatores são importantes e de sucesso. Esse é o caminho. A taxa de retorno está grande. É um caminho que achamos que é sustentável. Para sete meses é até mais otimista do que eu achava

Como foi começar o trabalho com o UFC em um ano recheado de polêmicas com casos de doping?
Entrei no meio do furacão, polêmica do Anderson começando... Estou nesse ramo há 23 anos praticamente. Muita pessoas próximas me questionaram: por quê? Isso me motivou mais. A questão do Anderson foi ruim, claro. A marca não gosta de lidar com isso, mas é uma oportunidade de reconstruir a coisa. O UFC como empresa abraçou a causa de limpar o esporte, contratou o Jeff Novitzky, referência mundial contra o doping. Ele é o cara que caçou o Lance Armstrong (astro do ciclismo). Eu sabia do desafio, mas estava tranquilo porque sabia que a empresa tinha abraçado a causa.

Quando anunciado o programa antidoping falou-se também de uma clínica de orientação para lutadores prevenirem e se recuperarem de lesões, que tanto atordoam o esporte... Isso vai acontecer no Brasil?
Queremos montar clínicas, fazer trabalho de conscientização para lutadores. Temos muitos planos locais. Tem a questão da cultura e da língua, barreiras que atrapalham. Ter um escritório local nos ajuda. A primeira barreira de relacionamento já foi quebrada, agora é intensificar com a confiança já feita e com essa ponte construída. Queremos começar programas que podem ser feitos pra melhorar a performance do atleta. Quero campeões aqui. Nunca sabemos se ele (o atleta) vai chegar lá, mas quero ajudar a ter em cada categoria cinco ou seis nomes nas cabeças. Isso ajuda a divulgar o esporte e ter mais fãs.

Como é a sua relação com o Dana White?
A relação com o Dana é a melhor possível. Ele é o líder da companhia, é um cara inteligentíssimo, tem um humor refinado e no fundo ele que fez tudo isso. Não fosse ele e o Lorenzo Fertitta não estaríamos nem aqui. Claro que nem sempre 100% das opiniões são iguais, mas nos damos bem, respeito ele. Não nos falamos muito por telefone, é mais por mensagem. Muitas vezes no meio de uma luta ele passa mensagem, elogia algum lutador. O relacionamento com eles é bom. Já passei uma lista de lutadores para ficarem de olho. É uma relação muito salutar.

Giovani Decker ao lado de Dana White (FOTO: Divulgação)
Giovani Decker em foto ao lado de Dana White (FOTO: Divulgação)


O Minotauro (Rodrigo, ex-campeão e atual embaixador do UFC) revelou que você trabalha com uma planilha com informações de todos os atletas brasileiros do UFC. É verdade?

Quando entrei sabia que tinha de começar de alguma forma. Botei numa planilha tudo o que tinha do UFC. Nomes, carreira, idade de todo mundo, equipe, popularidade... Precisava entender quem é quem. Temos de ter algo para organizar tudo. Coisa básica de empresa. Depois fiz outra planilha de caras performando em outros show para puxar para nossa companhia. Vim de outros esportes, joguei tênis, quase fui jogador de futebol... Quando o cara chuta uma bola, sei dizer se ele é bom ou não. Quando bate bola no tênis eu sei. No MMA não tenho essa habilidade. Então coloquei numa planilha isso tudo e precisava de um cara como o Minotauro para me ajudar. Precisava de um braço direito que eu confiasse e gostasse. No fim é um grande estudo que fiz com observações, opiniões.