Felippe Rocha e Rafael Bortoloti
13/09/2017
07:00
Rio de Janeiro (RJ)

Carioca de 30 anos, Bruno Cortês, ou apenas Cortez, ganhou visibilidade pelo bom trabalho que fez no Botafogo no Brasileirão de 2011. O lateral-esquerdo caiu nas graças da torcida alvinegra e, pela sua dedicação em campo e humildade, que o levaram para a Seleção, deixou o Botafogo em nono no Campeonato Brasileiro, com 56 pontos.

A uma semana do Natal daquela temporada, foi negociado com o São Paulo. Rodou, parou no Japão, retornou ao país de origem no Criciúma e agora defende o Grêmio, adversário do Glorioso desta quarta-feira, na Libertadores.

Em entrevista ao LANCE!, ele não se cansou de rasgar elogios ao ex-clube, exaltou o trabalho de Jair Ventura e confessou que vê o Botafogo forte na competição continental. Mas avisou: o Grêmio também tem as suas forças.

Como você define o seu momento no Grêmio?
Estou muito feliz aqui no Grêmio, porque o time abriu as portas para mim. E por ter me dado essa oportunidade de retomar o meu futebol aqui no Brasil. Estou em alto nível, ajudando a equipe e aproveitando o meu melhor momento na carreira.

Este seu momento é melhor que o da época que você jogou no Botafogo?
Acho que sim, pois estou conseguindo tanto defender quanto atacar bem. No Botafogo, eu também tive um momento maravilhoso, mas estava começando, me lançando para o futebol. O Botafogo foi o time que abriu as portas para mim, enquanto no Grêmio estou um pouco mais experiente, mais malandro, sabendo o momento certo de atacar e de defender. É o melhor momento da minha carreira.

Quando você surgiu no Nova Iguaçu, no Estadual de 2011, apontavam que o seu ponto fraco era a defesa. Quando você acha que aprendeu este fundamento?
Eu já sabia marcar, mas não com tanta eficiência. Meu forte era atacar e não defendia como devia. Era a minha primeira vez num clube grande, disputando um Campeonato Brasileiro pela primeira vez. Era tudo novo e mesmo assim ganhei o prêmio de melhor lateral-esquerdo do Brasileirão. Eu me destaquei, fui para a Seleção, para o São Paulo.... Também fui eleito o melhor lateral do Campeonato Paulista de 2012, campeão da Sul-Americana no mesmo ano. Depois, fui para o Benfica e aprendi muito com o professor Jorge Jesus. Fui campeão português. Depois, voltei para o Brasil e fui jogar no Criciúma. Passei dois anos no Japão aprendendo com aquele futebol de correria. Lá, a gente tinha que marcar primeiro para depois sair jogando. Amadureci bastante. Eles trabalham muito com pontas, que só atacam.

E você já atuou como ponta?
Não. Todos os times sempre joguei lá atrás, como lateral, defendendo.

Em 2011, você foi convocado para a disputa do Superclássico das Américas. No segundo jogo, você atuou, se destacou e até saiu aplaudido do Mangueirão após a vitória de 2 a 0 sobre a Argentina. Qual foi a sensação?
Foi uma sensação de gratidão a Deus, gratidão por tudo e pela oportunidade de estar defendendo o meu país. Só o fato de estar naquele grupo da Seleção com craques como Oscar, Fred, Lucas já era motivo de festa. Ainda mais vestindo a camisa da Seleção. Quando você recebe o carinho de todos, fica mais fácil mostrar seu potencial e passo por isso aqui no Grêmio.

Ficou com alguma decepção por não ter continuado na Seleção?
Não. Sou muito grato a tudo o que acontece na minha vida. Nada acontece sem a permissão de Deus. E ainda temos que destacar que temos muitos jogadores de alto nível disputando vaga na Seleção. Não fui convocado outras vezes porque o meu time não estava em um bom momento. O meu dever dentro de campo é trabalhar.

Você pensa em nova convocação?
Não. Meu foco no momento é ajudar o Grêmio a fazer um ótimo Campeonato Brasileiro, uma boa Libertadores e terminar a temporada com chave de ouro.

Você teve uma passagem pelo Paysandu no Sub-20. Como foi?
Passei. O pessoal de lá me tratou super bem e só tenho que agradecer a Deus. Onde eu passei sempre fui muito bem recebido.

Então você já tinha jogado no Mangueirão?
Não. Já tinha jogado na Curuzu, mas no Mangueirão, não.

Você começou a carreira em 2007, no Al-Shahaniya, time do Catar. Depois, voltou e disputou divisões inferiores no Rio de Janeiro, até parar no Nova Iguaçu. Como foi essa experiência no Oriente Médio e como subiu tanto na carreira?
Foi uma experiência nova que eu tive no Catar. Conheci o Felipe, agora ex-jogador, o Sheik. Pude aprender muito, mas infelizmente os meus representantes não conseguiram entrar em acordo com os dirigentes do clube. E voltei. Voltei trabalhando. Na minha vida, nada foi fácil. Tudo foi muito difícil.

"O Botafogo é uma casa maravilhosa. Sou eternamente grato ao clube por tudo o que vivi lá. Desde o presidente até o faxineiro, sempre tive o respeito de todos lá"

Quando você esteve no Botafogo, o seu jeito simples de ser te caracterizou e você inclusive tem uma história muito curiosa: o casamento numa filial da rede de fast-food Habibs. Conte-nos isso.
O Botafogo é uma casa maravilhosa. Sou eternamente grato ao clube por tudo o que vivi lá. Desde o presidente até o faxineiro, sempre tive o respeito de todos lá. Eu casei com a minha esposa pouco antes de um clássico com o Vasco e eu queria me manter focado. Falei isso pra ela e ela entendeu. A gente foi pro cartório com os padrinhos e lá me perguntaram: ' Cortez, não vai ter nada não?'. Eu disse que não. Só que um amigo meu falou "não, não", chegou para o cara do Habibs e ele falou pra gente e pros convidados ficarem à vontade e comer o que quisesse. Tudo de graça. Por isso que te falo que temos que ser gratos a Deus.

O Grêmio é o favorito na Libertadores?
Não. Não tem favorito. O Botafogo está jogando muito bonito, fazendo um excelente campeonato. Não só no Brasileiro, mas na Libertadores também. Eles tiraram várias equipes grandes e renomadas da competição. O professor Jair tem muitos méritos. Serão dois grandes jogos.

O que o Grêmio tem que fazer para superar o Botafogo? Quais são as principais armas que você vê no Botafogo?
O Botafogo é uma equipe de muita luta, de muita entrega, de muita vontade por parte dos jogadores. E é um time bem ajeitado, bem treinado. Vai ser um grande jogo porque também estamos bem montados. Está aberto.

Você entrou no jogo Grêmio 2 x 0 Botafogo na primeira rodada do Brasileirão deste ano. Você chegou a ter contato com alguém da sua época do Botafogo? Como foi?
Sim, falei com o Jair (Ventura, técnico), falei com o Flávio Tênius (preparador de goleiro). Só esses dois que sobraram da minha época. Mas eu tenho um carinho muito grande por todos lá e com certeza quero dar uma passada no Engenhão (Nilton Santos)

Como foi a sua saída pro São Paulo? Lembre para nós.
O Campeonato Brasileiro acabou e eu continuava jogador do Botafogo. A uma semana do Natal, eu fui informado que estava sendo negociado com o São Paulo e seria bom pra todo mundo. Eu não sinto arrependimento de ter deixado o Botafogo, porque foi o time que me vendeu.

Você teve o privilégio de jogar em três continentes: Europa, Ásia e América do Sul. Qual a diferença do futebol praticado nesses lugares e com qual você se identifica mais?
Os três foram legais. É difícil escolher um deles. Amadureci bastante, aprendi muito nos três, conheci muita gente legal e culturas legais. Não tenho do que reclamar.

Quais as características do Renato Portaluppi?
O Renato é um cara que conhece muito do futebol, porque jogou e assim nos ajuda muito com a sua experiencia. É um cara que dá muito apoio ao grupo. O nosso bom momento se deve a ele e a nós, jogadores, que estamos fazendo o que ele pede. Ele tem muita leitura de jogo e um esquema próprio. Ele sabe ter o grupo nas mãos. O ambiente é maravilhoso.