Manchester City Guardiola

Guardiola terá ainda que arrumar o esquema do City (Facebook do City)

Roberto Assaf
16/08/2016
08:05
São Paulo (SP)

O tiki-taka não chegou a ser uma novidade. No Brasil, o América do Rio já havia praticado algo próximo na década de 1940, com o sugestivo nome de “tico-tico no fubá”, nome de um chorinho composto por Zequinha de Abreu.

O Palmeiras e o Santos dos anos 1960 também abusaram do estilo, em ritmo mais acelerado, e com mais recursos, dado os elencos que possuíam. A Holanda apressou ainda mais, na Copa de 1974, na Alemanha, o que os times paulistas faziam, introduzindo a chamada “tática do impedimento” – quando a equipe contrária executava um lançamento em linha reta, a defesa avançava em bloco, deixando os adversários em posição irregular.

E o Flamengo do período 1978-1983, que jogava quase igual, acrescentou a “arte do pugilista”, ou seja, a equipe começava o jogo massacrando o oponente, tentando pôr vantagem nos primeiros minutos, o que tornava mais tranqüila a troca infinita de passes, obrigando o rival a correr ainda mais atrás do resultado, o que em dado momento o levava à exaustão.

O tiki-taka, ou seus antecessores, com o nome que se queira usar, necessita de três pressupostos básicos: reunir uma maioria de craques, valorizando o toque de cada artista, evitando rifar a bola. Caso não haja um companheiro bem colocado para finalizar, a ordem é retroceder, reiniciando da retaguarda, se possível, a construção da jogada. E é essencial, ainda, que o time tenha um jogador fora de série. O do Santos era Pelé, o do Palmeiras, Ademir da Guia, o da Holanda, o gênio Johann Cruyff, e o do Flamengo, Zico.

Nos tempos modernos, o maior representante do modelo foi o Barcelona, dirigido por Josep “Pep” Guardiola, entre 2009 e 2012. O treinador espanhol, na realidade, sofisticou o que os antecedentes fizeram, ampliando a troca de passes, quase sempre curtos, e logo, a posse contínua da bola, valorizando os deslocamentos de atletas que não estão participando efetivamente da jogada, e que vão surgir de repente na área adversária. O esquadrão catalão tinha também pelo menos duas referências, Andrés Iniesta, um apoiador excepcional, e Lionel Messi, um dos 10 maiores craques de todos os tempos.

Seria exagero afirmar que os integrantes do Barcelona não guardavam posições, como se comportavam os holandeses da Laranja Mecânica de 1974, que priorizavam o ataque. Mas Guardiola não ficava aborrecido se um zagueiro largasse a retaguarda para participar de uma ação ofensiva. O treinador, aliás, jamais fez uso da tal “tática do impedimento”, notadamente porque na década de 2000 a regra havia sido modificada.

No final de sua primeira temporada no Barça, e diante de uma partida fundamental para a conquista do título espanhol, contra o Real Madrid, na capital, o técnico fez a experiência de utilizar Messi como um “falso nove”, ou seja, deixá-lo “flutuando” entre os zagueiros – o alemão Metzelder e o italiano Cannavaro – e os volantes – o francês Diarra e o argentino Gago – abrindo espaços para os companheiros, e na realidade para si próprio.

Como é sabido, o tiki-taka só recomendava bola esticada por mais de três metros quando havia corredor livre. E foi de fato o que mais aconteceu contra os merengues. O Barcelona enfiou 6 a 2 no grande rival, a maior vitória dos catalães em Madri na história do clássico. Messi, por exemplo, marcou duas vezes, entrando à vontade na área do adversário.

O plano de Pep foi revelado pelo treinador em seu livro autobiográfico “Guardiola confidencial”, organizado pelo jornalista Martín Perarnau, lançado em 2015. O tiki-taka nem sempre teve sucesso. Na final da Liga dos Campeões, em 2010, por exemplo, José Mourinho, que dirigia a Inter de Milão, amarrou o estilo do Barça com a marcação cerrada, evitando deixar espaços vazios na retaguarda. E o time italiano foi campeão.

Mas é fato que o clube da Catalunha, conquistou, sob a direção de Guardiola, 14 títulos importantes, oito nacionais e seis internacionais, incluindo os Mundiais da Fifa em 2009 e 2011.

REAL MADRID 2 x 6 BARCELONA

Data: Sábado, 2 de maio de 2009.

Competição: Campeonato Espanhol temporada 2008-09 / 34ª rodada.

Local: Estádio Santiago Bernabeu / Chamartín, em Madri / Espanha.

Público: 80.354 espectadores.

Arbitragem: Alberto Undiano Mallenco, Fermín Martinez Ibañez e Juan Calvo Guadamuro / Espanha.

Gols: Gonzalo Higuaín 13’, Thierry Henry 17’ e 58’, Carles Puyol 20’, Lionel Messi 35’ e 74’, Sérgio Ramos 55’ e Gerard Piqué 82’.

REAL MADRID: Iker Casillas, Sérgio Ramos (Rafael van der Vaart 71’), Christoh Metzelder, Fabio Cannavaro e Gabriel Heinze; Lassana Diarra, Fernando Gago, Arjen Robben (Javí Garcia 78’ e Marcelo (Klaas-Jan Huntelaar 58’); Gonzalo Higuaín r Raul Gonzalez. Técnico: Juande Ramos.

BARCELONA: Victor Valdés, Daniel Alves, Carles Puyol, Gerard Piqué e Abidal; Yaya Touré (Sérgio Busquets 85’), Xavi Hernandez, Andrés Iniesta (Bojan Krkic 85’) e Lionel Messi; Samuel Eto’o e Thierry Henry (Seydon Keita 60’). Técnico: Josep Guardiola.