Juvenal Dias 
15/06/2016
20:46
São Paulo (SP)

Nos Jogos Olímpicos Rio-2016, a Seleção Brasileira masculina de handebol terá uma missão difícil em busca de uma medalha. Se nas Américas a equipe é uma das melhores, em nível mundial o Brasil ainda não figura entre os candidatos ao pódio em competições como Olimpíadas e Mundiais.

Para tentar mudar esse panorama na Rio-2016, a Seleção contará com o armador Diogo Hubner. Um dos jogadores mais experientes do grupo, com 33 anos, Diogo falou ao LANCE! sobre o desafio olímpico, os adversários da primeira fase e as expectativas para a competição.

Recentemente, houve um evento teste na Arena do Futuro, no Rio de Janeiro. Quanto tem de importância conhecer a arena antes dos Jogos Olímpicos?
Seria bem importante a Seleção ter participado, infelizmente não conseguiu. Usou-se clubes para essa experiência nesse evento. Eu só vi por foto, mas conversei com diversos jogadores que foram lá e falaram que vai ser realmente um caldeirão, acho que a torcida pode fazer uma diferença significativa para a Seleção, pois a arquibancada é muito próxima, o ginásio vai estar cheio, sem contar que são os Jogos Olímpicos, não é qualquer torneio, é a competição que todos querem estar. Acredito que o Brasil pode usar a Arena como um fator a seu favor.

Como fica em relação às referências do ginásio?
Não sei como vai funcionar na Olimpíada, acredito que a Arena seja só para jogos oficiais, que tenha quadras auxiliares para treinamento, não sei se terá um reconhecimento um dia antes, seria muito interessante. Se não tiver, é saber aproveitar o fator torcida para jogar bem e conseguir um bom resultado.

O Brasil terá dois torneios nessa reta final antes da Olimpíada, o Pan-americano e o Quatro Nações. Você acha que serão bons testes para a Seleção treinar e pegar ritmo competitivo?
Sem dúvida alguma! A gente sabe que são 14 atletas que vão ser escalados. No Pan, a Seleção pode levar 16, então devem ir esses dois a mais. São torneios importantíssimos. Brasil e Argentina, que estarão na Olimpíada, vão lapidar suas preparações e é um torneio na Argentina. Jogar fora de casa, contra a própria, numa possível final, acho que é muito importante. Depois, no Quatro Nações, já com o grupo definido, acredito que venham seleções fortes, que já estejam aqui para os Jogos Olímpicos. São torneios fundamentais para esse final de preparação.

No Pan-americano, acredita que tem mais algum time que possa complicar a vida do Brasil, além da Argentina, que joga em casa?
A seleção chilena já há um tempo vem evoluindo bastante, sempre faz semifinal, ou cai para o Brasil ou para a Argentina. Nos Jogos Pan-americanos de Toronto, vencemos na semifinal novamente. É uma equipe que, depois de alguns problemas políticos, alguns jogadores principais voltaram para a seleção, é um time que temos que ficar bem atentos. O Chile está começando a se aproximar.

Falando de Toronto, teve um episódio interessante na final contra a mesma Argentina, em que você declarou ter vivido dez minutos de terror, por ter perdido o tiro de sete metros nos momentos finais. Depois vocês reverteram na prorrogação. Como foi aquele momento?
Durante a competição toda, eu tinha convertido dez de dez cobranças, na final, três de três. Naquele momento, fui muito confiante para cobrar. O goleiro defendeu e eu não tiro os méritos, já que é muito difícil defender um tiro desses, mas eu cobrei mal, da maneira que estou habituado a cobrar. Se mudasse, provavelmente a bola entraria. Foi bem difícil, porque, apesar de não valer a vaga olímpica diretamente, valia o título, que não vinha desde 2007. Em Guadalajara, perdemos para eles e não fomos para Londres. Tínhamos perdido uma oportunidade de vencer a partida. Mas tiveram os dez minutos da prorrogação. Voltei à partida, mas voltei com a cabeça completamente fora, não estava muito focado. Saí e depois retornei, já mais tranquilo para pensar o jogo. No final, deu tudo certo, seria uma marca que ficaria na carreira de forma negativa.

Isso é relacionado com o fator psicológico, que interfere no decorrer do jogo. Você se prepara mais para isso agora?
Não depois daquilo. Já me preparo há algum tempo. No jogo, estamos suscetíveis a erros. O que penso é o quão rápido vou me levantar após um erro. Essa é a grande sacada do atleta. Erros vão acontecer. Handebol é um jogo aberto, não é uma fórmula exata, são coisas que acontecem. Se eu tive um erro defensivo, não posso levar para o ataque. Não posso executar daquela maneira novamente.

Pergunto sobre esse aspecto, porque pode ter situações na Olimpíada que vai decidir uma vaga ou conquista...
Sim, claro! Hoje é uma Seleção com bastante gente jovem e que, apesar disso, já está tendo uma experiência internacional muito grande. Mas isso é uma parte que temos que trabalhar bem, essa pressão, essa euforia de jogar em casa. É um ponto que a Seleção tem que se preocupar.

O sorteio dos grupos de handebol do torneio olímpico teve como novidade o Brasil podendo escolher qual chave iria cair. Como você avalia os adversários do Brasil na primeira fase?
Nos Jogos Olímpicos, não tem time fraco, acredito que as outras equipes também pensem assim com em relação ao Brasil. São duas chaves, uma extremamente difícil e uma muito difícil. Acho que a opção feita foi a melhor, foi a muito difícil. Nós fugimos de França, de Croácia e de Dinamarca, são equipes que, historicamente, vão muito bem em Olimpíada. E enfrentaremos algumas seleções que já vencemos ou jogamos de igual para igual. No caso da Polônia, vencemos dentro da sua casa num torneio logo após o Mundial. Já vencemos a Suécia em duas oportunidades. A Alemanha é um jogo um pouco mais difícil, que o jogo da Seleção não encaixa muito bem, mas há a possibilidade de fazer um bom jogo. A Eslovênia é um time muito chato, mas dá jogo, perdemos por três gols no Mundial, o jogo foi parelho. E o Egito já vencemos algumas vezes, mas é muito duro, muito forte fisicamente. Não temos tantas informações, pois eles se 'escondem', jogam pouco. Enfim, tenho certeza que o Jordi e a comissão técnica vão mapear os adversários, vão estudar muito bem. A intenção do Brasil é se classificar, passar para as quartas-de-final. Passando, é pensar jogo a jogo, ver as possibilidades. Independentemente da posição, o importante é passar.

O técnico Jordi Ribeira declarou que tem por objetivo justamente primeiro classificar para depois pensar em medalha. A dificuldade é desse tamanho que parece mesmo?
A dificuldade é muito grande, muito grande. Não podemos esquecer que são os Jogos Olímpicos, que todos se preparam para essa competição. Mesmo assim, acredito que o Brasil tem condições de fazer um grande torneio. Diferente da Seleção feminina, a masculina não tem aquela pressão por medalha, tem pressão por classificar, por jogar bem, em demonstrar um trabalho bem feito, que vem sendo realizado há bastante tempo. Acho que a Seleção pode surpreender muita gente.

Teria algum adversário que você não gostaria de cruzar logo nas quartas de-final?
A França, né? Atual bicampeã olímpica, a seleção que 'todo mundo foge', seria uma seleção ruim de enfrentar. Mas não temos que escolher adversário, se pensamos em medalha, em subir um degrau maior, temos que enfrentar dentro das nossas possibilidades.

Todas as seleções que estiveram no último mundial estarão na Olimpíada e terminaram a frente do Brasil. Como escrever uma história diferente em casa?
No handebol, diferente de outras modalidades, nunca falamos que tem um favorito. O handebol sempre tem oito favoritos. Não podemos achar nunca que teremos vida fácil. As seleções são muito parelhas. Precisamos saber vencer o jogo. Nos últimos dois mundiais, caímos para a Rússia e para a Croácia por um gol de diferença. A Seleção vem aprendendo a vencer os jogos nesse trabalho de quatro anos que o Jordi e a comissão técnica tem feito.

Também com relação ao último Mundial, vocês enfrentaram Qatar, Croácia e Eslovênia e tiveram derrotas apertadas. Esses jogos podem ajudar a ver o que há para melhorar?
Podem, sem dúvida! Sempre que vamos para um torneio internacional, voltamos com uma bagagem maior, aprendemos muitas coisas. Fizemos o jogo de estreia do Mundial contra o Qatar, em alguns momentos, muito ruins. Há um mês, voltamos para jogar um torneio, perdemos de dois gols, mas faltando cinco minutos estávamos ganhando por dois. Por detalhe, a vitória escapou. A Seleção vem em constante aprendizado, em constante evolução, isso é muito importante.

Como acha que vai ser a experiência de jogar em casa?
Acho que vai pesar positivamente. Nós jogamos pouco aqui, a maioria dos torneios acontece fora. Esse contato vai ser bem interessante. Diferente da torcida do futebol, que vaia em alguns momentos, na Olimpíada isso não acontece. É o momento em que o brasileiro é patriota, é um momento em que está todo mundo junto, que dá valor à camisa amarela da Seleção. Vai motivar bastante.

Você é o segundo mais velho dessa Seleção. Quanto pode transmitir aos mais novos?
É de fundamental importância, ainda mais numa competição desse porte. Eu nunca fui aos Jogos Olímpicos, caso eu vá, será o primeiro. Mas já vivi muita coisa no esporte. Alguns atletas, apesar de terem uma energia muito grande, por serem novos, podem ter um ímpeto que atrapalha um pouco, acabo fazendo esse papel de acalmar, tanto dentro como fora de quadra. Até pela posição que jogo, como armador central, preciso pensar mais o jogo, dar uns toques, isso é mais natural. Os atletas mais novos recebem bem os mais velhos. É aquela história: não existem líderes sem liderados. Eles escutam bastante, acatam, trocam ideias, eu aprendo muito também. Mas acho que esse papel de ser mais velho é importante numa seleção.

Apesar da sua experiência, nunca disputou Jogos Olímpicos, como já disse. Como você vê esse evento, participando da cerimônia de abertura, concentrado com outros astros na Vila Olímpica?
Eu, sinceramente, não penso nisso. Penso no hoje, penso em me preparar para estar bem para jogar os Jogos Olímpicos de uma forma boa. Esse "extra-quadra" vai acontecer, será natural e, se tiver que passar por esse momento, vou passar. Mas não fico deslumbrando a cerimônia de abertura, se vou encontrar o Stephen Curry na Vila, não passa pela minha cabeça. Passa meu dia-a-dia. Tenho que estar bem tecnica, fisica e psicologicamente para poder estar no grupo e ajudar a Seleção.

Uma coisa curiosa é que você usa a 13. É um número de sorte para você ou apenas foi coincidência?
Quando em vim para São Paulo para jogar, em 2002, era a única camiseta que tinha disponível no júnior e no adulto. Não gostava de ficar mudando. Deu certo, me apeguei e fiquei com ela. Dificilmente não jogo com a 13. Não tenho tanta superstição, mas hoje tomei pra mim, gosto do número e não penso em mudar até o fim da carreira.

Seu ídolo no esporte é o croata Ivano Balic, que se aposentou recentemente. Como seria enfrentar um ícone desses? Você se motiva mais?
Eu não tive oportunidade de enfrentá-lo, mas enfrentei outros caras que admiro muito. É bacana. Durante o jogo, você vê o cara em que se espelha. Me motivo mais, sem dúvida. No dia-a-dia, penso em fazer algumas ações como esses caras fazem. Poder se desafiar e desafiá-los é muito interessante.

É inevitável também não comentar sobre o time feminino. Escolheram uma chave difícil com Noruega (atual campeã do mundo), Romênia (que as eliminou no último mundial) e Montenegro. Em compensação, elas já foram também campeãs mundiais. Acredita que elas podem ir longe no torneio?
Como eu falei, não dá pra escolher muito em Jogos Olímpicos. O Morten adotou o pensamento de que vai precisar enfrentar uma hora ou outra. Às vezes, é mais interessante enfrentar dentro da chave e passar, do que ter um jogo mais nervoso nas quartas-de-final. Não conversei com o técnico para saber a estratégia que ele adotou, mas tem que enfrentar as seleções. O Brasil joga de igual para igual com qualquer seleção, todas temem o Brasil também. Acho que as meninas vêm muito fortes para a Olimpíada. Elas fizeram um Mundial que não foram tão bem, elas sentiram que tinha alguma coisa errada e teria tempo de consertar.