Técnico gremista é apreciador da "ciência do futebol" e busca

Criticado pelas recentes mudanças táticas na equipe, Roger recebeu mensagem de apoio de Tite (foto: Fran Mariotto)

Olga Bagatini
11/09/2016
07:00
Enviada especial a Porto Alegre (RS)

"Foi um dia muito, muito longo". Foi com essa frase que Roger Machado recebeu a reportagem no CT Luiz Carvalho, em Porto Alegre (RS). O treinador do Grêmio passa por um momento delicado devido ao jejum de quatro jogos no Brasileiro e o consequente distanciamento do G4. Ele passou a manhã de sexta-feira reunido com a diretoria, deu um treino fechado de quase duas horas e ainda concedeu coletiva antes de falar com o LANCE!.

Apesar da má fase, Roger tem o respaldo da diretoria e garante que pretende cumprir o contrato até o fim. O treinador criticou as constantes mudanças de comando no futebol brasileiro e os "clichês da crise". Inspirado em Tite, interessado em política, fã da "ciência" do futebol e ávido por dar um título à torcida gremista para findar o jejum de 15 anos, o gaúcho comanda o time que tentará a recuperação contra o líder Palmeiras, neste domingo, às 18h30.

Confira a seguir a íntegra da entrevista exclusiva dada por Roger ao L!.

A imprensa gaúcha disse que você não costuma fechar completamente os treinos. Por que fez isso na véspera do jogo com o Palmeiras?
Tomei essa decisão para ter um pouco mais de privacidade. Nesses momentos de instabilidade (quatro jogos sem vitória), a atenção está muito voltada para o que vai acontecer nas atividades. Às vezes nem pela atividade em si, mas pelo direcionamento do treinador com os atletas. E essa leitura pode ser distorcida ou ampliada. Fiz isso para poder me dirigir a eles de forma mais natural, sem ter que ficar me policiando ou medindo palavras que poderia ser entendidas de outra forma. Foi pela privacidade.

Você fez mudanças táticas no Grêmio nas últimas rodadas, saindo do habitual 4-2-3-1 e preferindo um time com três volantes. Os resultados não vieram. As críticas, sim. Como lida com isso?
Para que um sistema funcione, ele precisa ser executado por bastante tempo. A mudança é recente, até então eu sempre jogava da mesma forma. Queria extrair o melhor dos jogadores, fazer mais do que a gente vinha conseguindo fazer, colocá-los em posições em que possam ser ainda mais eficientes. Fiz a mudança há quatro jogos. Dois foram excelentes e dois não foram bons, então não posso concluir que a experiência não foi boa. Também tem a questão do adversário, que muda a dificuldade de cada partida. A alteração não é, por si só, responsável pelo insucesso, já que a instabilidade também ocorria no outro sistema. Quando eu propus essa forma diferente de jogar não foi para abrir mão da anterior, foi para ter mais de um sistema e gerar desequilíbrios diferentes nos adversários. Foi meu jeito de achar outras formas de desestruturar os rivais quando a "tradicional" não funcionar.

Você se sente mais pressionado pelo jejum de quatro jogos na Série A?
No futebol há o que eu chamo de clichês da crise. São iguais desde que o futebol existe. Quando o resultado no campo não corresponde, as pessoas tentam personificar os problemas na figura do jogador ou do técnico, ou atribuir às questões extracampo como salário atrasado, premiação atrasada e racha no elenco. Fica tudo em função do ganhar ou perder. Quando a fase estava boa, foi dito que a diretoria fez um bom negócio ao liberar aquele jogador porque estava surgindo outro (Giuliano para o Zenit). Quando tu ganha, as coisas voltaram a ficar certas.

Como você a cobrança por resultados, mais que por um bom desempenho?
É natural. Vivo de futebol há 25 anos. Desde a época de jogador, a exigência é sempre vencer.Se a gente conquistar a Copa do Brasil hoje, no outro dia vão agradecer, mas dizer que ganhar o Brasileiro também é obrigação. A gente vive dessa cobrança. Parece que hoje em dia existe um número muito cabalístico com relação à tolerância por maus resultados, que é o número cinco. É o limite antes de cogitarem uma mudança no comando. Mas eu me questiono muito como seria uma empresa que troca de comando quatro ou cinco vezes por ano. Não iria para lugar nenhum, não é? Só que, no futebol, resultado tem que ser imediato. É um balanço quase semanal.

De onde veio seu interesse pelo estudo e parte científica do futebol?
Fui lateral e zagueiro e tinha menos talento técnico que os outros, por isso, para igualar o jogo, tinha que tentar levar vantagem de outra forma. Ler o jogo me antecipava muito do que o adversário ia fazer. E sempre gostei disso, de analisar o jogo em outro contexto, não só da habilidade do jogador, mas entender a movimentação e o que realmente acontece dentro do time.

Você se inspira no Tite?
Tite foi o primeiro treinador a perceber esse meu gosto pelas questões táticas do jogo. Em 2001, quando veio ser nosso treinador aqui no Grêmio, ele me deu, ainda em disquete, um programa de análise e organização de jogadas chamado Tática 3D. Me presenteou e disse para eu fazer uso nas concentrações que ali seria meu futuro. Fiquei algum tempo machucado quando ele estava aqui, e como Tite sempre foi um cara muito aberto, eu conversava muito com ele. Me perguntava a respeito de algumas coisas, queria saber qual percepção eu tinha tido de dentro do campo, se era a mesma que ele tinha tido de fora. Isso foi me empossando de um desejo de me tornar treinador no futuro. A forma como ele geria o seu vestiário também. Nunca gostei de treinador que gritasse comigo. Preferia que me orientasse para entender o que ele estava pedindo. E Tite, na sua forma de lidera, sempre se mostrou um grande gestor. Tive outros treinadores que contribuíram muito para meu entendimento, mas ele, sem dúvida, foi a base de tudo. Tanto que a gente sempre se fala. Depois do 4 a 0 para o Coritiba, fiquei feliz ao ver que ele me mandou uma mensagem de apoio. Disse para eu ter confiança nos meus princípios de jogo e seguir em frente que as coisas iam voltar a correr bem. Tenho muita admiração e carinho por ele. grande. E ele foi a base, o alicerce da minha construção como treinador. Eu tive mais de 30 treinadores como jogador. Com alguns você aprende como fazer e com outros você aprende como não fazer.

É importante que um jogador, antes de virar treinador, aprofunde seus estudos sobre o esporte?
Isso depende do que cada treinador acredita ser importante. Eu quis, primeiro, parar e me desligar da figura de jogador. Fiquei dois anos sem ter contato nenhum com futebol, só cuidando da família, levando meus filhos na escola e fazendo a faculdade de educação física. Não sabia nem a rodada do campeonato e não via nenhum jogo. Queria sentir saudades do futebol. Dois anos depois, senti e quis voltar. Os 17 anos como jogador eram importantes para mim, mas achava que tinha que agregar também o conhecimento acadêmico. Se eu entendesse também de fisiologia, bioquímica, de treinamento e gestão, tudo isso ia me ajudar. Mas você não precisa da universidade para isso, pode buscar esse conhecimento acadêmico em outros lugares. Acho que a gente tem treinadores atualizados, muito atualizados, que vão atrás das escolas de futebol e buscam entender as diferentes maneiras de jogar. Isso também é conhecimento.

Além de Tite, que treinadores são referência para você?
Busco várias referências. Antes de técnicos, prefiro as escolas de futebol. A italiana para aprender a se defender, a espanhola para ter organização ofensiva e posse, a inglesa para entender o jogo tático com transições... O bom é que na Europa há muita literatura especializada sobre a ciência do esporte. Leio sobre Guardiola, Mourinho, Ancelotti e Conti trabalham, e vejo que na essência do jogo deles há muito do nosso jogo. No Brasil temos muitos livros sobre a história de grandes craques, times e conquistas, mas não há muita coisa sobre tática, a teoria dos sistemas dos nossos grandes treinadores. Queria muito que houvesse mais estudos sobre como Ênio Andrade e Telê Santana pensavam o futebol, por exemplo. Quisera a gente que esses grandes treinadores, que fizeram a glória do nosso futebol hoje não estão mais conosco, tivessem deixado escritas suas memórias, sua essência de jogo, sua filosofia. Disso eu sinto muita falta.

Você pretende deixar a "essência de Roger" por escrito?
Sem dúvida quero escrever alguma coisa. Aqui no Sul tenho enfrentado algumas críticas, justas ou não, de ser um cara arrogante. Por simplesmente eu não pensar de forma conservadora em relação à futebol. Não é certo nem errado, é a minha forma de pensar. Eu não quero obrigar ninguém a pensar futebol da mesma forma que eu. Mas basicamente prezo o que todo brasileiro preza: jogar bem e vencer. Se não jogar tão bem, que pelo menos vença, mas sempre que possível vencer jogando bem.

Tem vontade de atuar na Europa? Ou, quem sabe, ser o sucessor de Tite na Seleção?
Tenho, sim. Na verdade está tudo escrito já (risos). Ainda tenho muito caminho para seguir. Me concentro na estrada. Se eu me concentrar só onde quero chegar, perco o caminho. Pretendo cumprir meu contrato com o Grêmio até o fim de 2017.

Você rejeitou boas propostas de outros times, como o Corinthians, para seguir no Grêmio. Por quê?
Primeiro a convicção de que esse trabalho ainda tem muito a render. E falo em relação à título. E em segundo é que nós, treinadores, reivindicamos muito a continuidade do trabalho. Diante de uma oferta de um outro clube, tendo um trabalho vigente e valorizado pela diretoria - mesmo depois de duas eliminações duras, na Libertadores e no Gaúcho - e ainda assim ser bancado, não era justo sair.

Desde a época de jogador você já era conhecido pelos ideais de esquerda, pensamento oposto ao de Danrlei. Como vê a situação política do Brasil?
No meio do processo de impeachment a gente não discutiu, mas encontrei Danrlei recentemente e a gente debateu rapidamente esse assunto. Ele disse: "é, o negão continua sendo PT". Não sou do Partido dos Trabalhadores, tenho um pensamento com viés de esquerda, só isso. Isso não me impediria de ter legitimado a saída da nossa presidente, se eu não visse apenas como um processo político, muito mais que um processo de direito.

Por que os jogadores de futebol não costumam falar sobre política?
Hoje, cada jogador tem a sua assessoria de imprensa. Renato Gaúcho falava muito. Jogador hoje está muito... engessado. Vai falar é sempre brifado, orientado, alguma coisa desse jeito. Futebol perdeu um pouco a naturalidade das manifestações, antigamente era diferente. E daí, às vezes o jogador tem receio da interpretação que vai ser dada à sua fala, como aquilo vai ser contextualizado, se o jornalista, se a ênfase estará apenas no que interessa para causar polêmica. Então o jogador se retrai e dá uma entrevista convencional, receita de bolo. Alguns com maior posicionamento ousam ser um pouco mais claros com relação ao ponto de vista, mas a maioria não quer causar mal-estar com ninguém e aí acaba dando uma entrevista em que se reserva o direito de não se posicionar.

Como espera o Palmeiras no jogo deste domingo?
Time do Palmeiras hoje é o líder do campeonato. Fui treinado pelo Cuca no Fluminense, é um grande treinador que sabe explorar a capacidade dos jogadores. A dificuldade do jogo vai ser essa. Palmeiras tem bola parada muito forte, metade dos gols na Série A foram de bola parada, com bons cabeceadores. Sabe fazer bem as transições do jogo, contra-ataca com velocidade, se defende bem para impedir que adversário chegue no seu gol. Também tem muitos jogadores habilidosos, como o Zé Roberto, que é infindável. Vai ser um jogo duro. Mas também um jogo desse, no momento que a gente está atravessando, é um jogo chave. Vencer o líder nos dá três pontos importantes que nos colocam na briga de novo, perto do G4, e nos recobra a confiança após esses últimos maus resultados.

Como você disse na coletiva, a preocupação com Gabriel Jesus é maior?
Ele voltou mais maduro após conquistar o ouro olímpico com a Seleção. É um jogador muito inteligente, tem que ser vigiado de perto.

O jejum de 15 anos sem títulos aumenta a cobrança para ganhar o Brasileiro?

Aumenta a pressão sobre todo mundo no clube. Joguei no Fluminense em 2006, e em 2007 a gente ganhou a Copa do Brasil e pôr fim a uma fila de 24 anos. É uma pressão bem parecida, que só vai arrefecer quando efetivamente a gente conquistar uma taça. A cobrança do torcedor aumenta porque tivemos muitos bons momentos, então sempre que damos um sinal mínimo que estamos nos afastado da possibilidade de título, a frustração aumenta. Mas não tem nada de errado nisso. É muito difícil ganhar um Brasileiro. Como atleta, participei de 13 e só ganhei um. Copa do Brasil foram quatro. Todos os outros foram frustração. Não é fácil ganhar um torneio, mas o que o Grêmio está fazendo, se organizando administrativa e financeiramente para ganhar corpo e ganhar títulos, seja agora ou mais para frente, com a minha presença ou não, é muito bom para o futuro do clube. Tenho que lidar com a pressão porque ela vai acontecer de qualquer jeito.

E o fato de a última década ter sido positiva para o Inter coloca mais lenha na fogueira?
Sim, em Porto Alegre essa comparação entre Inter e Grêmio é chamada de gangorra. Um empurra o outro, um mede o outro. Claro que isso aumenta ainda mais a pressão, mas uma das grandes capacidades de bons gestores é a resiliência, saber resistir às pressões e voltar ao seu estado normal. É preciso ter paciência com o processo, sem nunca deixá-lo parar. E nosso torcedor quer um título. Gostaria muito de poder dar esse título ao nosso torcedor. Às vezes, depois de uma derrota dessas (4 a 0), você se chateia um pouco. O torcedor te aborda no aeroporto e diz que já está no momento de tu ir embora porque tu não ganha, mas confio que a gente em breve conquista uma taça e esse mesmo torcedor, que falou isso, vai vir me dar um abraço.