Vinícius Perazzini
10/11/2016
07:00
São Sepé (RS)

Um ano de renascimento. Enquanto o Grêmio vive bela temporada, classificado à final da Copa do Brasil, paralelamente uma torcedora especial do clube também celebra um período de conquistas. Gabrieli Van Oudheusden Medeiros, a Piratinha, completa nesta quinta-feira exatamente um ano longe da quimioterapia e livre de câncer. Perto de fazer sete anos, em janeiro, a mascote gremista superou três anos e sete meses de tratamento, com longos períodos sem sair do hospital, e hoje tem uma vida normal. Agora, sem limitações, ela recebeu do pai a promessa de que estará presente na finalíssima da Copa do Brasil, dia 30, na Arena do Grêmio. A Piratinha mora na pequena cidade de São Sepé (RS), de 25 mil habitantes, longe 265 quilômetros de Porto Alegre. Mas a distância para capital não é nada para quem já venceu enormes batalhas.

Em abril de 2012, com apenas dois anos, Gabrieli foi diagnosticada com leucemia linfoide aguda, um dos tipos mais severos de câncer. Para se tratar, ela precisava ir toda semana de São Sepé até Santa Maria (RS), 60 quilômetros distante de sua casa. Nos momentos de maior dificuldade e nas horas de diversão no Hospital Universitário de Santa Maria, a pequenina vestia a camisa do Grêmio. Em 2013, ao imitar no hospital a comemoração de pirata feita pelo então atacante gremista Barcos, foi fotografada e a imagem viralizou na internet. Barcos, hoje no Vélez Sarsfield (ARG), logo visitou a jovem, que ganhou o apelido de Piratinha. Desde então ela viu dois jogos na Arena do Grêmio, e em um deles entrou em campo no colo de Barcos. Agora, a terceira visita ao estádio é aguardada com ansiedade, revela o pai de Gabrieli, Norival Medeiros:

-  Estamos na expectativa. Prometi para Gabrieli antes da semifinal que a gente iria à Arena para decisão. Por ela, iríamos a todos os jogos no ano. E ela quer ficar na Geral do Grêmio. Não é fácil ir à Arena, é longe e caro para nós, mas faremos de tudo para estar lá. Fomos duas vezes no estádio. Na primeira (vitória sobre o Santa Fe, pela Libertadores de 2013), fomos e voltamos no mesmo dia, pois ela tinha tratamento no outro dia. Na segunda (vitória sobre o Fluminense, pelo Brasileiro de 2015), quase não deu tempo de ir, pois saímos de uma consulta em Santa Maria e fomos diretamente ao estádio. Ela estava só há uma semana sem quimioterapia, eu me perdi dirigindo, e a Gabrieli ficou cansada. Desta vez, ela está bem de saúde e vai aproveitar muito.

Piratinha
Gabrieli conheceu a Arena em maio de 2013 (Foto: Arquivo pessoal)

Longe da quimioterapia, Gabrieli começou a frequentar a escola neste ano e ganhou novos amigos. Por lá, ela defende o Grêmio a todo custo e faz brincadeiras com os colegas torcedores do Internacional. E a rivalidade é tanta que Norival Medeiros não falou o nome do Colorado durante a entrevista.

- Ela é cada vez mais fanática pelo Grêmio. A cada jogo que passa ela se envolve mais, quer saber mais notícias. Ela busca notícias não só sobre o Grêmio, mas também sobre o rival, até para provocar os colorados (risos). Desde pequena ela apontava para as coisas do Grêmio. Agora, ela já senta do meu lado no sofá e conversa sobre detalhes do time - destacou Norival, todo orgulhoso.

VÍDEO: RECADO PARA O PRIMO COLORADO


À espera do título da Copa do Brasil para coroar um ano mágico, Gabrieli também poderá festejar outro grande triunfo no fim deste ano, este no âmbito pessoal. Atualmente, a Piratinha ainda precisa tomar remédios em casa. No entanto, os médicos recentemente acenaram com a possibilidade de suspender o uso dos medicamentos.

- Ela segue tomando comprimidos diariamente. Dois em um dia, três no outro. Por conta de a doença ser rara, seguimos com os comprimidos, por precaução. Uma vez por mês, vamos ao hospital para pegar a medicação. Só que na última consulta nos falaram que a Gabrieli está ótima e vamos fazer alguns exames. Se estiver tudo zerado na medula, a ideia é a suspensão dos comprimidos. Seria maravilhoso - disse Norival Medeiros, emocionado com o final feliz cada vez mais próximo:

- Foram três anos e sete meses praticamente dentro do hospital, foi uma vida no hospital. Estamos esperançosos pelo fim dos comprimidos. Mas, depois de tanta luta, a medicação que ela toma hoje não é nada.

SAUDADE DE BARCOS

Se dependesse Gabrieli, Barcos seria o primeiro reforço do Grêmio para 2017. A pequenina sente falta do argentino, que no começo de 2015 acertou com o Tianjin Teda, clube da China. Mesmo longe do Imortal, o atacante lembrou da Piratinha quando ela encerrou a quimioterapia e ligou para a jovem, dando palavras de carinho. Tímida, Gabrieli mostrou que tem o jogador no coração:

- Queria que ele que ele voltasse para o Grêmio. Sinto muita saudade dele.

Piratinha Gabrieli
Na 2ª ida à Arena, com Barcos, que também fazia visita (Foto: Arquivo)

O último encontro de Gabrieli com Barcos foi na segunda ida da Piratinha à Arena do Grêmio, em novembro do ano passado. Na ocasião, o atacante também estava de visita no estádio, durante férias do futebol chinês. Atualmente, a família da pequenina ainda tem o contato telefônico da família de Barcos, e o número fica bem guardado por Norival Medeiros.

- A gente tem o número do Barcos, mas eu escondo. Pela Gabrieli, ela ligaria todos os dias para ele - comentou o pai da Piratinha.