Paulo Autuori

Treinador de 60 anos seguiu estudando e se modernizou para Furacão brigar por vaga na Libertadores. (Gustavo Oliveira/Atlético-PR)

Guilherme Moreira
18/10/2016
23:45
Curitiba (PR)

Em grande entrevista ao programa Bola da Vez, da ESPN, Paulo Autuori avaliou erros do futebol brasileiro, admitiu que técnicos por aqui não evoluíram e elogiou diversas vezes onde trabalha. O Lance! acompanhou e traz algumas declarações da conversa que durou uma hora e meia.

Técnico do Atlético-PR, ele estava prestes a encerrar a carreira para trabalhar nos bastidores da bola. Após ser apresentado ao projeto do clube paranaense, o treinador aceitou comandar a equipe e já visa continuar no CT do Caju para outra função.

Essa ideia já vinha sendo discutida desde a sua chegada, em março deste ano, substituindo Cristóvão Borges, e segue em debate para um futuro bem próximo - existe a possibilidade já em 2017. O contrato é até o fim do ano que vem nessa função atual.

 Dois nomes fixos da comissão técnica atleticana estão sendo preparados para substituí-lo. Bruno Pivetti, aliás, tem grande participação nos treinos e até mesmo em jogos, orientando como se fosse o técnico principal. Autor do livro "Periodização Tática: o futebol arte alicerçado em critérios", o auxiliar do Furacão não tem só aprendido com Autuori como também tem o ensinado conceitos modernos.

- O próprio Atlético-PR pode me proporcionar essa possibilidade de uma função mais abrangente. Estou feliz que isso pode acontecer e o clube está preparado para isso em forma de gestão. Eu considero o (Bruno) Pivetti muito inteligente e quero que ele e o Kelly não sejam assistentes e sim técnicos, foi isso que disse a eles quando cheguei. Gostaria de vê-los ali, estão ambientados e têm condições de fazer essa função - afirmou Autuori que, nesta temporada, foi campeão paranaense, vice da Primeira Liga e é o atual sexto colocado no Brasileirão, dentro do G-6 que vai à Taça Libertadores. 

Bruno Pivetti
Bruno Pivetti pode assumir como técnico em um futuro próximo. (Divulgação/Atlético-PR)

Um ideal que convenceu o profissional a retornar ao Brasil após passagens frustradas por Atlético-MG, Vasco da Gama e São Paulo foi do time paranaense utilizar as categorias de base. A média da equipe no clássico Atletiba, do último domingo, foi de apenas 24 anos. Esse pensamento é carregado por ele e o dia a dia no Centro de Treinamento prova o que foi prometido. O que Autuori tenta mudar agora é a forma de jogar em campo, já que a característica rubro-negra era ter grandes atuações baseadas no contra-ataque.

- O clube me propôs e tem ideias claras de futebol. Estamos caminhando para não ter distinção entre o profissional e outras equipes. Todos têm que estar integrados. Todos têm aulas de inglês, precisam ter um determinado nível escolar. Eles estão sempre uniformizados, integrados com a gente no refeitório. A dificuldade é sair da transição defensiva para ser protagonista, propondo o jogo. Era uma tradição do clube e agora começa a ver essa mudança. Isso que tem que ser colocado desde lá embaixo, na formação - avaliou.

Com a zaga menos vazada em 31 rodadas, com 27 gols levados, o Furacão tem dificuldade no terço final. O ataque, com 32 gols, só supera quatro adversários no Campeonato Brasileiro. Esse problema, de acordo com o treinador, é devido aos valores distribuídos entre os participantes da Série A. Sem alto poder aquisitivo, a qualidade para decidir uma partida fica comprometida.

- Temos grandes dificuldades de eficácia no terço ofensivo, o último terço. Até lá estamos bem. O desafio é trazer atletas de qualidade para essa parte, mas com discrepância de valores entre os clubes fica difícil. O grande problema do futebol brasileiro é a venda (de jogadores). Tem que acabar isso de ser forte enfraquecendo os outros no torneio - cobrou.

Assim como nos últimos três clubes que trabalhou por aqui, Autuori garante e fala que tem que como provar que recebe absolutamente o mesmo valor salarial. Nos bastidores do CT fala-se entre R$ 150 e R$ 200 mil mensais. Ele afirma que o padrão brasileiro atrapalha as finanças dos clubes e que esse recurso deve ser investido no elenco.

- Nossa realidade estava completamente fora da curva. A bolha estourou antes da Copa de 2014 e era impensável o que os técnicos estavam ganhando. Eu quero ter essa função do dirigente, sei que o padrão do salário tem que abaixar e o dinheiro tem que ir pra trazer jogador - disse ainda afirmando que aceita receber menos do que atualmente para ser um executivo.

Com o Mundial de dois anos atrás sendo citado e o inevitável 7 a 1 para a Alemanha a ser lembrado, o técnico do Atlético-PR admitiu que o debate precisa ser constante e que os treinadores são importantes nisso. Não só pela tática em campo como na formação de caráter dos atletas. A escola portuguesa de técnicos, referência mundial que chegou a ser menosprezada por Vanderlei Luxemburgo recentemente, também foi utilizada como exemplo bem-sucedido a ser seguido.

- O jogo mudou. Eu gosto menos do que é agora, mas não posso ficar parado nisso. Em termos conceituais, a nossa classe parou e eu estou incluído nisso. É um alerta que fiz em 2013 já. Temos que assumir essa responsabilidade e não fomos atrás dessa mudança. Novas coisas não param de aparecer. Enquanto você acha umas, outras surgem. Leio e vejo que professores estão sendo agredidos por alunos. Os jogadores também são retratos da sociedade. Quem somos nós treinadores para achar que seria diferente? A abordagem tem que ser distinta do que era antes - cobrou.

Nessa mesma linha de evolução do Brasil com o futebol, Autuori fez uma avaliação de não ter mais tantos jogadores que decidam pela habilidade. Por mais que reconheça que o brasileiro ainda segue com esse diferencial, o treinador atleticano falou que isso precisa ser resgatado na formação, ainda com as crianças que iniciam os primeiros toques na bola.

- Existe uma carência enorme de meias e atacantes no nosso futebol. Não é por acaso e tem o porquê. O grande problema começou a engessar os jogadores muito cedo, na faixa de seis a 12 anos, essa coisa de não ter mais jogador vindo da rua. Na formação você é criticado se tenta ser criativo. Nós sempre tivemos iniciativa e isso desequilibrava em campo. A ideia do 3-5-2 nas categorias de base atrapalhou também. Antes, os laterais sabiam atacar e defender. Agora já até melhoramos bastante, mas antes eles não estavam sabendo nem ir na linha de fundo cruzar e nem saber defender atrás - completou.

Por fim, o comandante do Furacão fez questão de elogiar o presidente do Conselho Deliberativo, Mario Celso Petraglia. Polêmico, o dirigente vive em atrito com a torcida por suas medidas e ganhou respaldo do treinador por ter uma visão de gestão de futebol acima da média.

- Eu tiro meu chapéu para a gestão dele, as ideias são além e isso já está claro. O clube tem metodologia no que faz. É preciso coragem para ter determinadas atitudes e isso ele tem. Ele é líder, falta isso no Brasil e toma medidas impopulares, mas que são importantes. O Petraglia tem sido muito bom, estou encantado com o clube pela excelência. Agora tem que virar de coadjuvante a protagonista e não é fácil - finalizou Autuori.