Valdiram

Valdiram se salvou, se converteu e virou pastor (Foto: Paulo Sergio/LANCE!Press)

Felippe Rocha
Roberto Veloso
Vinícius Perazzini
08/10/2015
05:50
São João de Meriti (RJ)

O grito ainda é ouvido: "Uh, é Valdiram! Uh, uh, é Valdiram!". Só que, agora, dentro da igreja. Foi na base da fé que o artilheiro se reencontrou com a vida, após quase morrer afundado no uso de bebidas alcoólicas e drogas.

Depois de alcançar o sucesso no Vasco, em 2006, os vícios derrubaram o jogador: "Passei pelo vale da sombra da morte. A morte me procurou 24 horas por dia, ela andou do meu lado, tentou me levar de toda forma. Eu a vi na minha frente", disse o atacante logo ao receber a reportagem do LANCE! para entrevista na Assembleia de Deus dos Últimos Dias, em São João de Meriti (RJ), onde mora, desde janeiro de 2011, ao lado de ex-traficantes e ex-viciados.

Aos 32 anos, o atacante que driblou a foice agora quer voltar a passar pelos rivais nos gramados. Mesmo após tantas dificuldades, ele está novamente de pé. O Vasco abriu as portas das instalações das divisões de base para o atleta se recuperar de cirurgia no joelho direito. Agora, ele sonha com uma chance com o grupo principal, no Estadual de 2016, para terminar de escrever sua história pelo clube. Hoje também pastor, Valdiram abriu o coração ao LANCE! ao projetar o retorno e revelar detalhes chocantes dos seus antigos vícios.


Hoje, ao olhar para trás, de quais erros cometidos você mais se arrepende?
Lamento muito por ter cometido adultério e fornicação, foram os piores entre todos os erros. A Bíblia diz que um abismo chama o outro. Eu tinha uma companheira, mas saía com muitas outras mulheres. E depois vinha a cerveja, a cocaína, o crack. As mulheres do mundo estavam gerando uma grande maldição a mim.

Na época de brilho pelo Vasco, muitas mulheres vinham até você?
Muitas mulheres queriam ficar comigo. Entre dez a quinze chegavam em mim por dia, tentando conversa. Eu era artilheiro, tinha dinheiro e todas queriam se aproveitar de mim.

Quem lhe levou às drogas?
O mundo. O mundo do pagode, do funk, aqueles que eu achava que eram meus amigos. Você acaba saindo com supostos amigos, aceita o que eles oferecem e aí não tem mais volta, vai para o buraco. Nos tempos do Vasco, eu não usava drogas, ficava só na bebida. Mas uma coisa levou à outra, e em 2009, passei a usar drogas.

Você conhece outros jogadores que usam drogas?
Muitos jogadores que conheci praticam o uso de cocaína. Na forma como se encontra hoje, o mundo está perdido. As pessoas precisam conhecer a palavra de Deus.

GALERIA ESPECIAL: Valdiram abre as portas da igreja onde mora ao LANCE!

Você ainda tem algum dinheiro guardado ou perdeu tudo em gastos com mulheres e drogas?
Cheguei a ganhar mais de R$ 100 mil por mês quando jogava no Al-Shamal, do Qatar, em 2007. Sempre ganhei um bom dinheiro, com salários de R$ 20 mil a R$ 30 mil na maioria dos clubes por onde passei. Já tive R$ 5 milhões na conta. Porém, eu não tinha sabedoria e gastei tudo. Você pode ter R$ 60 milhões, R$ 70 milhões. Se não aplicar em algo que dê frutos e gastar no mundo do funk e da prostituição, o dinheiro todo se vai.

Qual foi o máximo de dinheiro que você gastou em uma noite?
Já gastei R$ 5 mil em uma noite, no Rio de Janeiro. Gastei com boate, mulheres e drogas. Hoje, eu investiria meu dinheiro em bens materiais e no fortalecimento da obra de Deus.

Quando e como você chegou ao fundo do poço?
Fui ao fundo do poço em 2010. Perdi minhas forças e usei drogas na Cracolândia do Jacarezinho (na Zona Norte do Rio de Janeiro). Eu sentava na linha do trem e usava crack e cocaína por ali, ao lado de outros viciados. Eu olhava para o lado, com aquilo cercado de gente usando droga, e lembrava dos grandes tempos como jogador. Hoje, meditando com Deus, agradeço por poder ter saído daquele mundo. Às vezes, me faltam palavras para agradecer a Deus. Poucos têm a oportunidade de sair deste drama.

Como você conseguia sustentar seus vícios em drogas e bebidas?
Por ter jogado no Vasco, eu tinha tudo nas comunidades onde fiquei. Dormia nas casas dos meus supostos amigos, tinha cocaína, mulheres e whisky, tudo de graça. Fiquei em uma comunidade muito conhecida durante um ano e muitos torcedores do Vasco e de outros times me falavam: "Você precisa largar essa vida, você é um bom jogador". Mas aquilo entrava por um ouvido e saía pelo outro.

Quando chegou ao seu limite?
Foi no fim de 2010, uma semana antes de eu me converter. Eu estava alucinado em um motel antigo no bairro de São Cristóvão (no Rio de Janeiro), vinha usando drogas ali há 15 dias. Às três horas da manhã, vi o espírito da morte por baixo da porta, esperando a overdose para levar minha alma. Abri a porta desesperado, desconfiado de que fosse uma pessoa, mas não encontrei ninguém. Desesperado, cheirei cocaína e foi aí que vi o espírito da morte na minha frente. Senti medo, fiquei oprimido e clamei a Deus. Foi uma iluminação e ganhei forças para jogar fora as drogas e whisky, pela descarga. Senti uma paz muito grande dentro de mim com essa atitude. Durante os 15 dias, eu só saía daquele quarto para ir na comunidade buscar mais drogas, e voltava para cheirar e beber.

Como você chegou até a igreja?
Eu já não aguentava mais nada, estava fraco para beber, cheirar e ter relações sexuais. Deus me deixou ir até o limite. Liguei para meu empresário, confessei que estava usando drogas e disse: "Quero ir para uma igreja que me deixe em jejum e tenha muita oração". Ele me trouxe até aqui, na igreja, e senti uma emoção muito grande no culto. Entrei aqui em 23 de janeiro de 2011, aceitei a Deus e deixei meus vícios para trás.

Você teve alguma recaída?
Tive uma recaída com mulheres após dois anos de santidade, mas logo me recuperei e hoje estou limpo. Como pastor, levo o meu testemunho a muitos. Recentemente, preguei para um público de 10 mil pessoas.

Você vê solução para o atacante Adriano voltar ao futebol?
Cheguei a conhecer o Adriano. Quando eu era do mundo da cervejinha, bebi e curti um samba com ele. Vejo muita semelhança entre a vida dele e a minha. O Adriano tem um vazio no coração pela morte do pai (Um mês depois de Adriano conquistar a Copa América, em 2004, Almir Leite Ribeiro morreu de infarto – Almir era o fiel escudeiro de Adriano), e eu tenho pela morte da minha mãe, que faleceu aos meus sete anos. O Adriano só vai preencher esse vazio com a palavra de Deus. A Bíblia diz que tudo na vida tem um limite, e o limite do Adriano está chegando. Enquanto ele tiver dinheiro, não dará lugar a Deus, mas já vejo Deus o apertando, tirando muito do financeiro dele. Deus já me revelou que o Adriano vai se converter um dia.

Como você conseguiu a oportunidade de usas as instalações da base do Vasco?
Há três anos, eu estava vendo um jogo no estádio do Olaria e o Eurico também apareceu por lá. Nos encontramos e ele disse: "Se eu voltar a ser presidente do Vasco um dia, no meu time você joga". Senti que Deus estava entre nós naquele momento. Essa promessa mexeu comigo e, em 17 de abril de 2015, uma sexta-feira, dois dias antes de o Vasco eliminar o Flamengo do Estadual, fui a São Januário para que aquelas frases fossem cumpridas.

Qual foi a recepção no clube?
O Eurico veio até a mim e perguntou: "Qual é o seu problema?". Eu disse que iria operar o joelho direito e que queria uma nova chance no Vasco. Inicialmente, ele me falou não, mas sei que não foi por ele, mas por outra pessoa forte dentro da diretoria do Vasco. Ali, eu disse: "Você tem uma dívida com Deus, esqueceu? Deus estava presente quando você me prometeu a volta". Senti que ele me disse o não de coração partido. Dois dias depois, me ligaram autorizando a treinar no Vasco, e sou muito grato por isso.

Havia algum grande motivo para essa pessoa da diretoria não aprovar seu nome?
Esta pessoa era da diretoria do Vasco quando, em 2006, eu estava para ser vendido ao Bordeaux (FRA) por cerca de R$ 30 milhões e a transferência não aconteceu por conta de problemas meus extracampo. Eu iria para o lugar do Denílson e essa mágoa ficou neste dirigente, pois era um bom negócio para o Vasco. Hoje, vejo que eu estava errado no passado e pedi perdão a esta pessoa. Atualmente nos damos bem.

O que você projeta para 2016?
Quero estar em campo com a camisa do Vasco no Estadual. Tenho uma bonita história no clube e meu desejo é continuar a escrevê-la. Ninguém me procurou ainda para falar de contrato para 2016, mas estou trabalhando muito para que vejam o Novo Valdiram. Atualmente, já consigo correr dez quilômetros. Estarei pronto para jogar já em janeiro. Eu voltarei a jogar para dar alegrias à torcida vascaína.