Pacaembu

(Foto: Thiago Ferri)

Luiz Fernando Gomes -(lfgomes@lancenet.com.br)
20/03/2016
06:00
São Paulo 

Passaram-se três anos. Em sua coluna de segunda-feira, dia 8 de abril de 2013, na página dois do LANCE!, o então colunista Benjamim Back propunha que as finais do Carioca daquele ano fossem realizadas no Pacaembu. O Maracanã estava em obras para a Copa das Confederações, o Engenhão interditado por problemas na cobertura e São Januário não era liberado pela PM para a realização de clássicos. Uma situação bastante semelhante com a que o Rio vive hoje.

Benja lembrava que, dois anos antes, a torcida do Flamengo havia lotado o Pacaembu na final da Copa São Paulo de Juniores em que o clube carioca derrotara o Bahia. Outro argumento era a pesquisa LANCE! Ibope que mostrava a forte presença de torcedores dos times do Rio – especialmente o rubro-negro – em São Paulo. O Flamengo tinha à época 1,1% dos torcedores paulistas, sendo a quinta maior torcida do estado, à frente de Portuguesa, Guarani e Ponte Preta.

"Em termos de marketing e repercussão não teria nada igual. A audiência na TV, com certeza, também seria muito grande, além do que, não tenho a menor dúvida de que o público em Sampa seria bem superior às médias atuais do Campeonato Carioca", escreveu Benja.


A proposta gerou polêmica. “Teve gente que achou um barato e teve gente que me detonou. Tomei muita porrada também”, diz o hoje âncora dos canais Fox Sports. A Federação do Rio, dirigida pelo mesmo Rubens Lopes, bateu o martelo e marcou as finais para o Raulino de Oliveira, em Volta Redonda, com capacidade para 21 mil pessoas – aliás o mesmo número de ingressos vendidos antecipadamente até sexta-feira para o Fla x Flu de hoje. A explicação do cartola foi patética:

- Nós achamos que seria um desrespeito, uma falta da atenção com a torcida dos clubes que são do estado – disse Rubinho.

Tão patética que seria desmoralizada pouco tempo depois, na abertura do Brasileirão de 2013, quando o Flamengo foi enfrentar o Santos em Brasília, no Mané Garrincha, com uma das rendas e público mais altos do futebol brasileiro até hoje. De lá para cá, os grandes do Rio, sempre às voltas com a falta de estádios, jogaram, além da capital federal, em Manaus, Cuiabá, Natal, Cariacica e por aí afora.

O Fla-Flu paulistano deste domingo certamente vai ser uma festa – eu estarei lá, vou levar meu filho para pela primeira vez ver o seu Flamengo ao vivo. Já separou a camisa do Paulo Vitor e pediu uma bandeira. Tive de explicar que em São Paulo – até quando essa estupidez vai perdurar – não se pode levar bandeiras para o estádio, algo que por si só já prejudica o espetáculo. Será, certamente, um encontro de famílias cariocas exiladas do lado de cá da Via Dutra.

O lado bom e bonito dessa história, contudo, começa e termina aí. As reais razões que levaram o mais tradicional clássico do Rio a ser jogado em São Paulo estão longe de serem nobres. Muito pelo contrário, são reveladoras do atraso, do amadorismo e da inércia do futebol carioca.

Palmeiras, São Paulo, Corinthians, Santos, Grêmio e Inter têm seus estádios próprios. É injustificável que no Rio isso aconteça apenas com o Vasco. Que o clube de maior torcida do Brasil não tenha uma arena à sua altura - e esta arena pode até ser o Maracanã, desde que o Flamengo seja ao menos corresponsável pela gestão, tenha direito, como dono do espetáculo, à maior parte das receitas, sem ter de viver às turras em negociações nunca realmente vantajosas com operadores privados ou recheadas de incertezas com o poder público estadual.

Tudo bem, a realização da Olimpíada criou uma situação atípica. É uma exceção. Mas a regra não é menos ruim. O futuro do Maracanã depois de tantas idas e vindas de projetos e contratos e do abate da Odebrecht na Lava Jato é no mínimo preocupante. Fla e Flu correm o risco de continuar a vida de nômade que marcou os últimos anos. Já o Botafogo voltará a debater-se com a concessão do Engenhão que, por mais generosa que tenha sido, sempre terá zonas de confronto.

Não é por acaso que nos últimos anos os times do Rio só por espasmos belisquem o alto da tabela nos Brasileirões. Que a rotina, mais amarga, seja a briga ali pelo meio ou mesmo para salvar-se da degola. Falta de estádio não é tudo, é apenas a parte mais visível de um estado de carências.