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Torcida do Palmeiras, no Rio, contra o Flu, na semifinal da Copa do Brasil (Foto: Cleber Mendes/LANCE!Press)

Thiago Salata
21/04/2016
08:00
São Paulo (SP)

A torcida que canta e vibra não poderá cantar nem vibrar na Vila Belmiro. O orgulho do torcedor santista, que nem todos podem ter, não estará em estádios rivais. Teremos clássicos sem um bando de loucos e outros sem tricolores que amam o clube ternamente. Torcida única, que não é a única medida sem sentido já tomada contra a violência, é o que veremos no domingo, na semifinal do Campeonato Paulista entre Santos e Palmeiras.

Já proibiram bandeiras, já vetaram a cerveja, já paralisaram jogo por inofensivos pisca-piscas... Pessoas morrem, em sua maioria longe dos estádios, desde os anos 80. Morrem até quando não tem jogo. Morreram 13 nos anos 90 Brasil a fora, mais 99 na primeira década dos anos 2000, morreram 183 nesta década (dados levantados por pesquisa do jornalista Rodrigo Vessoni, deste LANCE!). Mas a saída da vez é dar menos trabalho para a polícia, que sofre, coitada, fazendo a escolta da torcida visitante. Bom é punir o futebol.

Apesar da certa dose de romantismo, não sou ingênuo de imaginar a volta dos estádios "meio a meio" em São Paulo. Os novos estádios não permitem isso, a nova realidade econômica dos clubes impede tal divisão. Mas não faz mal lembrar de como era bom... Cresci indo aos clássicos no Morumbi: setores azul e laranja para uma torcida, setores vermelho e amarelo para outra. A incrível sensação de ver seu time fazer um gol no rival com milhares de adversários sentados, em silêncio, ali na sua frente. Tinha também, claro, a dor de tomar um gol e ouvir aquele grito do outro lado que chegava com segundos de atraso. Que raiva! Quem nunca foi a um clássico junto com um torcedor rival? Cada um para um lado, nos vemos no fim do jogo.

Sim, vândalos brigavam. Era preciso cuidado redobrado para ir e vir, evitar andar pela cidade com a camisa do clube. Vândalos continuam brigando, continuarão e cuidados ainda são necessários. Estamos bem longe de acabar com isso. O problema é mais profundo, o problema é social. As leis são brandas. Tema para outra discussão. Aqui neste espaço não me proponho a me aprofundar sobre tais crimes. Apenas sobre o crime (contra o futebol) que é a decisão da torcida única em São Paulo até o fim do ano (ou eternamente?).

O Morumbi "meio a meio" acabou de vez no Paulistão de 2009, quando o ex-presidente são-paulino Juvenal Juvêncio, falecido, bateu de frente com o corintiano Andrés Sanchez. O São Paulo decidiu não dividir mais sua casa com rivais. É visitante? Só 5% da carga. A reação: os clubes paulistas tiraram todos os clássicos da casa tricolor. Os outros estádios não tinham estrutura para o "meio a meio", as novas arenas não têm. Outra realidade, dá para entender. Não dá para entender um estádio sem torcedores rivais (a Argentina tomou tal medida e, depois dela, 36 pessoas morreram por briga dos "barra bravas").

Para quais torcedores David Braz bateria no braço com orgulho após o Santos segurar o magro 1 a 0 do Palmeiras no Allianz Parque, na final do Paulista de 2015, e partir para o título? Fernando Prass correria para onde após pegar seu segundo pênalti e eliminar o Corinthians em Itaquera no mesmo campeonato? Será que o Timão teria forças para buscar o empate três vezes na casa palmeirense, no Brasileirão, sem aqueles loucos gritando num cantinho?

Na Vila, não haverá torcida alviverde em êxtase diante da maioria santista em caso de gol visitante no domingo. Acho que até os locais vão estranhar. Não haverá alvinegro tirando sarro da minoria em caso contrário. Que fiquem todos, seus vândalos, na TV. Por favor, não marquem brigas na estrada, no trem, no metrô ou em outro canto qualquer, porque vai dar trabalho e alguma nova proibição sem sentido e sem efeito terá de ser inventada. 

Azar o seu, palmeirense. Azar o seu, santista. Azar o seu, corintiano. Azar o seu, são-paulino. Azar do futebol. Azar de quem gosta de futebol. Mais uma vez.