M. Cunha

Entre caras e bocas, Milton Cunha roubou a cena durante a entrevista realizada na Cidade do Samba, onde ocupa o cargo de diretor artístico. Estudioso, ele analisou esporte e carnaval para o LANCE! (Foto: Paula Mascára/L!Press)

Aigor Ojêda, Carlos Eduardo Sangenetto e Paula Mascára
09/02/2016
03:20
Rio de Janeiro (RJ)

O futebol nunca ocupou espaço expressivo na vida de Milton Cunha. Ainda garoto, em Belém (PA), cidade onde nasceu, ele experimentou multiplicar cores numa camisa do Vasco com algumas purpurinas, atitude que não foi muito bem recebida pelo seu avô à época. Foi bafônico! Anos depois, ao chegar no Rio de Janeiro, onde consolidou sua carreira como carnavalesco e cenógrafo, observou que o movimento entre escolas de samba e o mundo do esporte estavam interligados, seja na magia do Maracanã ou Sapucaí. Hoje, Neymar, Cristiano Ronaldo, Olimpíadas, as irmãs Williams e Mineirinho são "luxo total, amada!", como ele mesmo gosta de definir. O enredo, definitivamente, mudou.

O seu carro abre-alas, profissionalmente, também. Milton Cunha, atualmente, é uma espécie de bandeira do carnaval carioca, efeito provocado por conta da irreverência e bom humor como trata temas relacionados à folia. Durante os últimos anos, o comentarista da TV Globo mantém a tradição de "zerar a internet" nas análises das fantasias e alegorias das agremiações nos desfiles (veja abaixo memes desta entrevista). Ele arrasa-quarteirão, é do balacobaco, abafa o caso.

A convite do LANCE!, Milton se jogou sobre temas que mapeiam o esporte, encarou tudo com a sua habitual alegria, mas quebrou a harmonia ao falar de assuntos "uó" como racismo no futebol, brigas entre torcidas organizadas e a ausência de um carnavalesco na cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio.

Futebol e Carnaval se parecem, né??
> Tanto futebol quanto o Carnaval vêm de influências do exterior para o nosso povo e aqui a gente regurgita. Isso tudo acaba sendo dominado e se torna uma vitrine de identidade do Brasil no exterior. Carnaval, batuques africanos, as cortes francesas e os bailes de luxo e os índios com cocar. Isso aqui no Brasil vira um caldeirão e a partir da década de 1920 estruturamos isso como narrativa das escolas de samba. Temos nossos mitos negros, Zica, Cartola, Carlos Cachaça, Paulo da Portela... O futebol vem da Inglaterra, a bola vem para os pobres nos campos de várzea e nossos meninos negros pegam esta técnica europeia branca e transformam na ginga e na dribla do brasileiro. Nossos ícones negros do futebol: Pelé, Garrincha... Então as histórias têm muitos pontos em comum. Futebol e escola de samba tem tudo a ver. É a glória do povo moreno arrasando no campo e na Avenida.


Você tem alguma relação com futebol? Qual é o seu time?
> Meu avô português de Trás-os-Montes me obrigava a torcer em Belém (PA) para Tuna Luso Brasileira. Lembro que tinha a cruz de malta e a gente era Vasco também. Mas quer saber? Eu já era v..., queria usar brilhos na minha camisa do Vasco e meu avô ficava louco. O futebol é sempre aquela coisa dos heterossexuais lá longe, no campo, e eu, sinceramente, preferia ir para o balé. Mas os héteros da minha família amavam futebol e o Vasco da Gama. Eu chego ao Rio em 1982. Quando eu entro no Maracanã, chego na tribuna, dou uns passos e vejo aquilo lotado, fiquei apavorado de medo. A torcida do Flamengo gritava "Favela, favela, vai tomar no c...", aquilo ecoava no meu ouvido. É a força do povo, raça de uma nação... Quando juntam aquelas torcidas, a energia é tão grande dentro do Maracanã que parece que você pode pegá-la, ela é concreta, está flutuando, como a da Sapucaí, com 75 mil pessoas cantando um samba tipo "Explode Coração".


Como você enxerga o comportamento das torcidas do Carnaval e do futebol?

> As torcidas do futebol são um pouco mais violentas que as do Carnaval. Nas escolas de samba, nos tratamos como co-irmãs. Todas frequentas as quadras uma das outras, não botamos as camisas, mas aplaudimos, beijamos as bandeiras, respeitamos. No Carnaval tem mais jogo de cintura. No futebol tem mais testosterona, muita virilidade, macheza... Então, às vezes, querem cair na porrada e tal. 

Quais foram seus momentos marcantes no esporte?

> As aberturas de Olimpíadas são espetáculos muito parecidos com o Carnaval. Acho uma celebração de democracia. Você vê japonês, preto, branco, velho, novo, treinador, atleta, estrela...

‘Mas quer saber? Eu já era v..., queria usar brilhos na minha camisa do Vasco e meu avô ficava louco’

As Olimpíadas estão chegando e a tão esperada cerimônia de abertura também. Como você imagina a festa?
> Não colocaram nenhum carnavalesco na equipe, nenhum de nós do Carnaval, tão acostumados a megaespetáculos, fomos convocados. Então começou errando por aí. Mas boa sorte aos artistas envolvidos, não esqueçam que este é o país da alegria. Tem que ser marcial, tudo ensaiadíssimo, mas tem que ter sorriso no rosto, energia brasileira. Tudo menos perder a simpatia, o jeitinho carioca.

Quem você acha, do mundo do Carnaval, que deveria estar envolvido na cerimônia?
> Paulo Barros, Renato Lage e Rosa Magalhães são nomes que podem fazer uma grande abertura de Olimpíadas. Professora Rosa Magalhães me disse "Milton, não vou fazer a abertura, vou fazer a fechadura" e eu acho que vai ser lindíssimo!

Qual é aquele esporte que você gosta de assistir?

> Eu sou apaixonado pela elegância do arco e flecha. Acho aquele momento em que o arqueiro se prepara nas Olimpíadas para competir, a coisa mais chique, elegante e divina do mundo. É meu esporte preferido.

‘Seu Eurico na frente da escola... Ninguém merece! Derruba qualquer coisa!’

O esporte também te emociona?
> Como não se emocionar com a pobreza do Mineirinho, que com uma prancha de R$ 30, consegue chegar ao topo do mundo. Ou seja, é uma questão de dinheiro? É, mas também uma questão de força de vontade. O bacana do esporte é tirar as pessoas dos seus apertos. O esporte pode dar esperança para crianças de que é possível empreender e sair da miséria e da crueldade da vida.

Quais são seus atletas preferidos?

> Adoro as tenistas negonas, as Williams, dando porrada na raquete. Acho elas lindas, meio deusas. Sempre que a negritude se destaca nestas outras vertentes humanas acho que estamos dando um passo contra o racismo. Por falar nisso, que vergonha o povo jogar banana, gritar "macaco". É o antiesporte, antidemocracia, antientendimento. O esporte é lindo, mas também é capaz deste horror, baixaria, e cafonice que é tratar jogadores mal, não é?

Tem cafonice no futebol?
O que é o cabelo do Neymar?! Horrível! Ele estica, alisa, pinta de amarelo... Meu deus! Nada dá certo! Neymar, eu te amo, mas que cabelo horroroso!

Visual de Neymar fevereiro 2016 (Foto: AFP)
O visual do primeiro bimestre de 2016 de Neymar (Fotos: AFP)

Existe uma lenda de que falar de time de futebol na Sapucaí não dá certo. Acontece isso mesmo?
> Isso é um clássico. A Unidos da Tijuca, do Fernando Horta, que disse que vai ser candidato a presidente do Vasco daqui a uns anos, tentou homenagear Vasco da Gama e a escola desceu. Não deu certo. Seu Eurico na frente da escola, no abre-alas... Meu amor, ninguém merece... Seu Eurico, eu lhe amo, mas o senhor, como primeira visão do Carnaval numa escola de samba, derruba qualquer coisa! Depois a Estácio de Sá fez o Flamengo e também não foi muito bem recebida. Quando tu colocas uma escola de samba para desfilar um time, os torcedores dos outros não vão te ajudar a cantar. Então fica complicado você amarrar seu burro numa torcida.

Eurico Miranda na comissão de frente da Unidos da Tijuca em 1998 (Foto: Reprodução/TV Globo)
Eurico Miranda abriu o desfile da Unidos da Tijuca em 1998
(Foto: Reprodução/TV Globo)

Tem alguma camisa de time de futebol que você tenha achado bonita?
> Eu lembro que tinha uma camisa de seleção africana coloridérrima, africaníssima e com um design belíssimo. E uma de Portugal, um vermelho-vinho fechado com uns azuis e... Cristiano Ronaldo, meu amor? Aquilo não é um homem, é um carro alegórico. Ele naquela camisa era um espetáculo. Aplausos!

O que você acha da camisa da Seleção Brasileira? E se pudesse redesenhá-la, o que mudaria?

> Eu acho o nosso verde e amarelo muito calmo, comportado. Talvez eu quisesse mais variação de verde e amarelo, mais enfeitado, com uma cara tropical. Acho muito amarelo, pouco verde e grandes áreas monocromáticas. Eu faria umas interferências do calcadão de Copacabana em verde e amarelo. Sinto falta de sinuosidade das nossas montanhas no design da camisa. As outras seleções apostam nos listrados e nas barras, colocaria pequenos detalhes na manga e na gola.