Ana Canhedo
26/10/2016
16:59
São Paulo (SP)

Sol e calor em São Paulo, trânsito carregado na marginal, Canindé com alguns torcedores na arquibancada, Polícia Militar a postos, chance de gol de um lado, chance de gol do outro. O empate sem gols entre Portuguesa e Diadema, pelas quartas de final do Campeonato Paulista sub-17, na manhã de quarta-feira, parecia um jogo normal, mas nem de longe era.

Foi a primeira aparição dos garotos depois da trágica morte de Lucas Santos, de 16 anos, na piscina do clube. Era uma manhã de homenagens a quem sempre tentou homenagear as cores verde e vermelha. Afinal, o time decidiu seguir em diante no Paulistão para manter vivo o sonho do menino em levar a Lusa ao lugar mais alto possível. 

E alto voou Matheus, goleiro da Portuguesa e um dos melhores amigos de Lucas no time. Graças a ele e uma sequência de boas defesas, o placar terminou zerado. Antes do jogo, já havia avisado que, por Lucas, não levaria gol ontem.

Enquanto a bola rolava no gramado, um senhor de chapéu preto e calça do time circulava de um lado para o outro nas arquibancadas. Conversava um pouco com um, parava em outro canto para receber o apoio de outro... Era o avô de Lucas, Ivan. Ou melhor, ‘seu Pescoço’.

Andava com uma camiseta branca, estampada com a foto do neto e a frase: ‘Realizamos seu sonho’. Como contou o L! na segunda, o garoto realizaria o desejo de jogar no Canindé pela primeira vez.

Os garotos de Portuguesa e Diadema fizeram uma roda de oração antes da partida. No telão do estádio, quatro fotos de Lucas. O campeonato segue, a vida também...

– Vamos lembrar dos momentos bons e coisas boas que ele fez. Das histórias engraçadas e do quanto cuidou de mim e de quem gostava – fala Pescoço, com o sorriso simples de quem ganhou da vida 16 anos de muitas alegrias ao lado de Lucas.

lucas lusa
Ivan, avô de Lucas, no Canindé, nesta quarta (Foto: Gabriel Carneiro)

Os percalços de Lucas...
Mãe sempre distante e avô de criação

O começo de Lucas no futebol foi no Serra Morena, time de várzea da região do Canindé. Ia aos treinos com o avô de criação, Ivan, com quem morou a vida inteira no Jardim Peri, Zona Norte. Pescoço, como gosta de ser chamado Ivan, era casado com a mãe de Mércia, mãe de Lucas, que deixou o garoto em São Paulo há 15 anos, para ganhar a vida em Pernambuco.

Mércia falava todos os dias com o filho pelo celular, mas o via muito pouco, já que as visitas a São Paulo eram esporádicas. Lucas nunca foi a Pernambuco. Criado com Ivan, acostumou-se também a presença dos tios, que vivem na região do Canindé.

De sorriso fácil, Ivan diverte-se ao lembrar das ‘cobranças’ do neto zagueiro quando iam juntos jogar futebol. De sangue, tem 18 netos. Nenhum com quem se dê tão bem quanto se dava Lucas. Afinal, moravam juntos. Habilidoso para pular as cadeiras do Canindé, conta um pouco de seu neto preferido.

– Eu jogava de goleiro e ele sempre me dava uns toques. Uma vez, eu lembro que ele até me xingou muito porque não defendi uma cobrança de falta. Ele havia me avisado certinho onde o cara ia bater e eu não fui – diverte-se Ivan, na tentativa de esquecer por alguns instantes a falta que fará o garoto em sua vida.

Namorador fora de campo

Se dentro de campo Lucas começava a se firmar como um bom zagueiro na Lusa, fora dele já fazia o maior sucesso. Tanto é que três namoradas apareceram no velório. Quem conta é Ivan, que também se lembra de outra história envolvendo mulheres...

– Eu lembro quando uma moça grávida veio assistir a um jogo no Canindé com o marido, sentou do nosso lado. Lucas xingou muito o bandeira, o juiz e tudo mais. Eu tentei fazer ele se controlar, mas estava difícil porque queria a vitória da Lusa e achei que a moça estava assustada com ele. Que nada! Uma hora ela vira e fala que o filho dela tinha que ser igual ele. Achei engraçado, eles começaram a conversar. O marido não gostou muito, não – sorri Ivan com a lembrança.