Corinthians - cobrança

Organizada se reuniu e cobrou presidente do Corinthians em janeiro. Nesta semana, outra organizada se reuniu com jogadores e dirigentes do clube (Foto: Reprodução de internet)

Luiz Fernando Gomes
29/10/2017
08:00
São Paulo (SP)

O que as torcidas organizadas, no modelo que existe hoje, trazem de benefício para os clubes? Posso ser míope, mas ainda não enxerguei. Talvez, e isso pode ser um fato, a criação das músicas, dos gritos de guerra, a produção das bandeiras seja um bom legado. Mas será que isso não existiria se dependesse do torcedor normal, aquele apaixonado que vai ao estádio com a camisa do clube e não da Raça, da Mancha ou da Gaviões? Não seria apenas uma questão de organização, de que os próprios clubes, através de um departamento do torcedor, por exemplo, tratassem de promover ações que mobilizasse os fãs e os tornasse ainda mais engajados?

São apenas ideias.

Mas em que as torcidas organizadas prejudicam os clubes? Ai, as respostas são muitas. Para começar, os prejuízos financeiros. As organizadas usam e abusam, quase sempre sem autorização, dos símbolos dos clubes. O escudo, o hino, o mascote. Não pagam nada por isso – o dinheiro arrecadado financia suas próprias atividades, quando não acaba nos bolsos de dirigentes mal intencionados. Esse material, limítrofe da clandestinidade, não passa de um estímulo à pirataria.

Mas tem mais.

Em mil de mil vezes, quando os clubes são punidos com a perda de mando de campo ou a interdição do seu estádio, como aconteceu com o Vasco, por trás do motivo há sempre gente ligada às organizadas. Vejam, é preciso ter cuidado: “gente ligada às organizadas” não significa que são torcedores. Na maior parte, são profissionais de arquibancada e arruaça, defendendo interesses de seu grupo muito mais do que dos clubes.

Teorias de conspiração à parte, cada perda de mando é um jogo fora da cidade. Cada jogo fora é uma caravana que se organiza. E cada caravana são alguns mil reais que entram nos cofres dessas “empresas de torcer”. Um círculo vicioso em que o torcedor de bem perde por não poder ver seu time em campo; o clube perde, pois deixa de faturar no seu estádio; os jogadores perdem por longas viagens e campos às vezes em mau estado. Só quem ganha, acaba sendo, quem gerou todo esse prejuízo.

Não há nenhuma novidade nisso. Mas cabe ainda uma terceira pergunta: se as torcidas organizadas dão mais problema do que trazem benefícios, qual a razão de continuarem a receber, em boa parte dos clubes, benesses de todo o tipo? Os privilégios são muitos. Vão desde preferência e desconto na compra de ingressos até espaços ocupados em imóveis que deveriam servir aos associados de verdade. Sem falar no financiamento de ações e deslocamentos.

É difícil de entender, mas pode ser fácil de explicar. Não é raro, em anos de eleições principalmente, que cartolas no poder ou que pretendem chegar lá usem as organizadas como massa de manobra. Tê-las como aliadas tem um preço. Que nessa equação politiqueira muitos acham que vale pagar. A briga que custou o fechamento de São Januário por seis jogos surgiu nesse contexto. E será outro, com o processo eleitoral já deflagrado, o motivo que levou a diretoria do Corinthians a abrir as portas do CT Joaquim Grava para um encontro das torcidas com os jogadores essa semana?

A cartolagem tem memória curta. Não faz tanto tempo assim, foi em fevereiro de 2014, que ‘torcedores’ do Corinthians invadiram o mesmo CT, promovendo cenas de agressão a jogadores e até roubo. Dessa vez, eles entraram pela porta da frente, como convidados oficiais. Sabe-se lá quantos não participaram dos dois momentos... Ainda que a versão oficial do clube seja verdadeira – que foi um encontro civilizado, de apoio e sem cobranças – em que contribui esse tipo de 'reunião' às vésperas de um jogo decisivo? Fosse normal e Jô não teria de passar longo tempo justificando que não houve gritos, que houve respeito etc e tal.

O Corinthians criou para si uma armadilha. Ao legitimar essas ‘lideranças’, aproxima-las dos jogadores – alguns claramente constrangidos, segundo quem assistiu a conversa – a diretoria não promoveu um ato isolado. Comprou junto um pacote inteiro. Que, como o histórico está farto de mostrar, vai muito além de conversas amistosas. Como reagirá essa gente se o time não vencer a Ponte? Ou se um título dado como certo não vier?