Marcio Porto
05/07/2016
09:05
São Paulo (SP)

Lugano não falou só de São Paulo na entrevista exclusiva que concedeu ao LANCE!. O zagueiro uruguaio fez críticas à Seleção Brasileira e ao país onde voltou a viver este ano. Mostrou-se indignado com os inúmeros escândalos de corrupção.

O homem que toma chimarrão com José Mujica, ex-presidente do Uruguai, surpreendeu ao declarar que Thiago Silva é o maior zagueiro da história do futebol brasileiro. Eles foram companheiros no PSG (FRA) entre 2012 e 2013.

Lugano também saiu em defesa de Messi, que se despediu da seleção argentina, e contou seu sofrimento pela Celeste antes dos títulos da Copa América em 2011 e a quarta colocação na Copa do Mundo de 2010 na África do Sul. Neymar, Cristiano Ronaldo e Suárez também foram personagens do bate-papo. Sabe para quem o Dios torcerá na Olimpíada? Confira abaixo.

Na Olimpíada, o Uruguai não vai estar. Vai torcer para o Brasil?
Sim, sim, vou. Não estamos nos Jogos, porque no último jogo sub-20, a Colômbia tinha de fazer quatro gols no Brasil para se classificar. Sabe quanto foi o jogo? 4 a 0 para a Colômbia. Classificou Colômbia e deixou o Uruguai fora. Mesmo assim, vou torcer para o Brasil. Está precisando de um título. Por ter Rodrigo Caio (companheiro de São Paulo), outros jogadores.

E agora, vai tirar essa maldição?
Não sei. Tem bons times. Argentina está forte. Colômbia muito forte. Não sei como virão as da Europa. Imagino que vocês (imprensa), além de falar mal de Lugano (risos), devem fazer alguma crítica do que acontece com o Brasil, porque já faz cinco anos que não disputam, não ganham nada. Já não se ganha mais com uma pedalada, uma virada de cara. Não se ganha mais assim. Então, é uma boa oportunidade para o Brasil recuperar essa mística.

O Brasil parou no tempo?
Já achava na época que estava aqui que o Brasil, não parado no tempo, mas descansado sobre suas glórias, seus títulos, seu talento. Isso em 2004, 05, 06 e agora estão se vendo um pouco que tem coisa que, por sorte, o Brasil não implementa, senão seria muito difícil vencer o Brasil. Coisa que o Uruguai também sofreu, de descansar em sua história, sua glória, de achar que sua mística... Que mística? Você joga contra Jamaica e Costa Rica, e eles se matam para ganhar de você. Contra a Islândia, são 300 mil, tem uma projeção de trabalho daqui cinco anos. Hoje tudo é muito planejamento, repetição, muita coisa para que os talentos cresçam.

E a Seleção principal, com a chegada do Tite, acha que vai melhorar?
Acho que os problemas vão além do Tite. Eu gostava muito do Dunga, me identificava muito com a personalidade do Dunga. Eu, quando era adolescente, jogava bola, via o futebol brasileiro, amava Dunga, admirava pelo caráter, personalidade. Mas é mais profundo. Se você continua achando que o treinador é o problema do Brasil, melhor para nós, que temos mais chances. O dia que se descubra que é um trabalho mais sério, mais formativo, que traga um pouco mais de sentimento de pertencimento. Eu não vejo em nenhuma parte do mundo, quando se chega no Brasil, a maioria torce contra. É a única parte do mundo. Uma coisa que está sendo muito mal feita. Isso não entendo. Único país que vi no mundo. Porque sempre tem alguém com dor de cotovelo, mas aqui é demais.

Mas o próprio Dunga, que externa todo o comprometimento, sofreu tanto com todas as críticas. Também há problemas políticos, de corrupção no país. Há um povo revoltado que não se identifica com a Seleção.
Sim, também passa por esses problemas, que não acaba nunca. Eu vejo TV todos os dias e não consigo entender um caralho, como pode ser que roubem tanto. Impossível entender. Incrível. Uma novela de dez mil capítulos.

No seu país não acontece isso?
O Uruguai é muito pequeno, não tem comparação. Mas o Uruguai tem outros problemas e por sorte o índice de corrupção no Uruguai sempre foi o menor da América, dito pela ONU, e segue sendo. A única coisa que podemos nos enaltecer. É importante, mas também é um país muito pequeno. Uruguai sempre foi o mais transparente a nível sul-americano, é uma das poucas coisas que temos, mas também me sinto orgulhoso
(Nota da redação: o Uruguai figurou no 21º lugar na lista dos países menos corruptos do mundo em 2015, em levantamento da Agência Transparência Internacional. É o mais bem colocado da América do Sul no ranking em que o Brasil ficou em 76º);

E recentemente vocês tiveram um governante ligado a causas populares, de esquerda, que aparenta ir na contramão disto, o José Mujica.
Já tomei muito chimarrão na casa dele. Bastante. Ele é isso, como parece, é. Tomou decisões políticas muito questionadas até hoje, no tema de pensar, nem todo país compartilha. Até hoje ele é questionado pela metade do país. Mas ninguém vai falar nunca que roubou uma colher. Isso sem dúvida. Ninguém do entorno dele.


Precisava de algum aqui?
Para nós isso não é uma virtude, é uma obrigação. Questiona a coisa política. Você vê aqui no Brasil, no Paraguai, na Argentina, e dizem: "Oh, queríamos ter um presidente assim". Mas não é uma virtude, é uma obrigação.

O Brasil precisaria de um Mujica?
Acho que um país como o Brasil, se algum dia tiver, não um presidente, mas um sistema político com uma organização e regulação, seria a quarta potência do mundo, tem tudo para ser, depende do povo. Porque se for todos nós ganhamos. Se caem, caímos todos.

Ainda sobre a Seleção. O Thiago Silva pode voltar agora com o Tite. Você jogou com ele, o que pode dizer?
Eu joguei com ele, acho que pelo que vi do Brasil, conheço muito a história, acho que é o maior zagueiro da história do Brasil. Claro que respeitando muito, Ricardo Rocha, Aldair, que é um fenômeno, antes Oscar, Mozer, Luis Pereira, que não vi jogar e falam que foi um monstro também. Mas acho que Thiago está no nível histórico como zagueiro. Muito bom para o Brasil que ele retorne e muito ruim para nós.

Quem é o melhor jogador do mundo hoje?
Está entre Luis Suárez e Cristiano Ronaldo. Mais decisivo, Luis. Messi, fenômeno igual, monstro, mas não está sendo tão decisivo como os outros.

Não vai escolher entre os dois?
Então fico com Luis, lógico. Esse ano. Obviamente pela história, Cristiano. Mas Luis é mais decisivo.

Messi vai sair?
Ele deve estar de saco cheio de toda a responsabilidade. Se coloque também na pele do jogador. Faz 12 anos que joga. Quando comecei, Uruguai estava na fase ruim, não ganhava um caralho e só crítica, crítica. Chegava na coletiva para falar que não estávamos roubando dinheiro do Uruguai. A gente ganhava 500 dólares, e pagava mais 6 mil para viajar mais confortável para o Uruguai. Além de perder a posição no time, que você perde, e escutar isso, que você não quer a pátria porque não conseguiu vencer. É duro, duro. E uma vez, duas, depois cinco anos. A gente conseguiu reverter, mas a pressão às vezes você fala: para que merda, que necessidade você tem de estar escutando todo dia qualquer idiota numa televisão falar que sou isso, sou outro. E você puto, chorando porque não ganhava. É duro. Sua família sofre, sua mãe, seu irmão, seu amigo. Isso de Messi exemplifica muito a realidade dos jogadores em todas as seleções. Você levar a pressão de uma pátria, sentimento nacionalista. Você se pergunta, que merda estou fazendo aqui? Eu não faço, não fiz isso. Do Uruguai só sai quando me expulsaram. Achava que a Seleção estava por cima de tudo, de mim, de qualquer um que fale, de tudo. Só que é difícil.


Aqui essa responsabilidade cai mais para o Neymar. Como ele lida com isso?
Ele ainda é muito novo. Acho que essa responsabilidade se ameniza um pouco. Por ele ser muito extrovertido, não percebe muito o peso que ele tem. Por sorte, né? Mas depois da Copa América já ficou puto, começa a desgastar.

Ele já está vendo o peso?
Exatamente.

Isso é positivo ou negativo?
Boa pergunta. A pressão também. Acho que pode ser positivo para o cara ser focalizar 1000% em fazer sua história dentro da Seleção, mas também negativo porque desgasta. E qualquer momento, um dia, vai pensar também, isso aqui é assim, se sou merda, que estou fazendo aqui?