Entrevista - Roberto de Andrade Presidente Corinthians

Roberto de Andrade, presidente do Corinthians (foto:Eduardo Viana/LANCE!Press)

LANCE!
17/06/2016
06:00
Rio de Janeiro (RJ)

Como no dito popular, o presidente do Corinthians, Roberto de Andrade, ao esbravejar contra a CBF, cuspiu no prato em que comeu. Ou melhor, em que votou. Sim, pois a sobrevivência de Del Nero na presidência só foi possível pela manobra, referendada pelo voto de dirigentes dos clubes - Andrade, inclusive - que permitiu ao inexpressivo coronel Nunes guardar a cadeira enquanto o titular. na mira do FBI, saiu em conveniente licença.

A manobra de Del Nero não foi feita às sombras. Os objetivos da eleição do coronel Nunes eram públicos e notórios. Não dá, portanto, nem para os cartolas alegarem que foram enganados. Assim como não é aceitável a afirmação do mandatário corintiano de que "o voto era das federações" e que a posição do Corinthians não mudaria o resultado final.

Um dos males do nosso fut é exatamente esse: a subserviência dos clubes à vontade das federações e ao poder da CBF. Em troca de migalhas, medo de represálias e muitas vezes em benefício de interesses pessoais inconfessáveis, os dirigentes chegaram ao cúmulo, ainda na era Ricardo Teixeira, de abrir mão do direito de votar na escolha do presidente da CBF e de participar de decisões fundamentais como a definição do calendário, a fórmula de disputa dos campeonatos e a destinação dos polpudos lucros da entidade-mor. Coisas que necessariamente deveriam passar por eles.

Detonar a falta de ética de Del Nero, Walter Feldman e seus asseclas, anunciar a ruptura com a CBF é fácil. Andrade não será o último e não foi o primeiro a fazê-lo. Há pouco tempo, o rubro-negro Eduardo Bandeira de Mello seguiu o mesmo caminho quando foi proibido de mandar seus jogos em Brasília.Mas logo calou-se seduzido pelo glamour de chefiar a delegação brasileira que foi à Copa América Centenário - do que deve ter se arrependido bastante depois do vexame.

Corinthians e Flamengo - pelo poder de mobilização e a força que têm - deveriam liderar a resistência dos clubes. Mas nunca foram capazes de unir-se em defesa das mudanças do nosso fut. O senhor Andrade, só para dar um exemplo, se não chegou a trabalhar contra a formação da Primeira Liga, não poupou ironias à iniciativa de Flamengo, Fluminense, gaúchos, mineiros, paranaenses e catarinenses. Não é nada, não é nada, foi um sopro de rebeldia, um embrião da autonomia que os clubes precisam e que, sem disfarçar a contrariedade, a CBF teve de engolir. Seria tudo mais forte se o Corinthians e outros estivessem juntos.

Nada vai mudar enquanto os rompantes raivosos se restringirem aos momentos em que interesses menores - como a perda do treinador ou a decisão do mando de campo - forem contrariados pela CBF ou as federações. O que falta aos clubes é ação, um compromisso real com o seu próprio futuro. A lei do Profut, ainda que timidamente, criou mecanismos que podem ajudar nas transformações. Mudou o colégio eleitoral, limitou mandato dos cartolas, exigiu a participação efetiva dos clubes nas instâncias de decisão. Aliás, dez meses depois da sanção, muita coisa ainda não foi cumprida pela CBF sem que os dirigentes reajam em defesa do interesse dos clubes,

É um caminho árduo - nada vai ser concedido de uma hora para outra. Mas, juntar forças, e principalmente ter coerência nas atitudes além dos discursos pode ser um bom começo.