Mineirão (Foto: Divulgação/Secopa)

Mineirão foi construído pelo consórcio presidido por Roberto Capobianco(Foto: Divulgação/Secopa)

Luiz Fernando Gomes
04/07/2016
18:20
São Paulo (SP)

Construtor e "sócio" do Palmeiras na Allianz Park, o empresário Walter Torre Junior foi alvo de condução coercitiva (quando se é levado à força para depor) na 31ª fase da Operação Lava-Jato. Roberto Capobianco, presidente do Conselho de Administração da Minas Arena, consórcio que construiu e administra o Mineirão, teve a prisão temporária decretada pelo juiz Sérgio Moro na mesma fase da operação deflagrada nesta segunda.

Em nenhum dos dois casos, ao menos até o momento, há irregularidades comprovadas da parte dos executivos ou de suas empresas - a WTorre e a Construcap - envolvendo as instalações esportivas das quais participam. Mas a chance de que isso de alguma forma acabe acontecendo são reais, especialmente no caso de BH,

Seja na Lava-Jato, seja nas operações que dela derivam no âmbito da Polícia Federal e do Ministério Público, são várias as citações que já apareceram sobre pagamentos de propina, superfaturamento de obras e outras mazelas em diversos estádios da Copa - incluindo o Maracanã e a Arena Corinthians - obras para o Pan e para a Olimpíada do Rio.

O novelo que começou a ser desfiado pela força tarefa de Curitiba, e agora se estende pelo Rio e São Paulo, não deixa dúvida de quanto as relações entre o público e o privado estão putrefatas no país. Nos últimos meses, alguns dos maiores conglomerados nacionais ou multinacionais que atuam por aqui, nos mais variados setores da produção, definitivamente saíram das editorias de economia e negócios para frequentar o noticiário político-policial que estarrece leitores a cada nova revelação.

O esporte, direta ou indiretamente, vai sendo tragado pela mesma lama.

Prender, aplicar os termos da lei contra quem corrompe ou é corrompido, lesa os cofres públicos recebendo mais do que deveria ou beneficia-se da fragilidade dos meios de controle dos governos é recomendável. Mais do que isso, merece aplausos. Desde que tudo seja feito respeitando-se o direito de defesa dos acusados, sem julgamentos prévios e atendendo às garantias estabelecidas pela constituição.

Mas prender é pouco. Se a corrupção e a malversação do dinheiro público chegaram a tal nível de contaminação, isso não se deve exclusivamente à má índole ou a ganância de um lado e de outro. O que essas operações revelam é que o sistema público brasileiro faliu. A filosofia do criar dificuldades para vender facilidades, dos alvarás burocratizados, das licitações viciadas, das extorsões disfarçadas em "fiscalizações". das campanhas políticas bilionárias feriram de morte as relações público-privadas no Brasil.

Em março desse ano, Gherardo Colombo, um ex-magistrado com participação ativa na Operação Mãos Limpas - a inspiradora de Moro na Lava-jato - e outros escândalos de corrupção na Itália, esteve no Brasil para uma série de palestras, Ficou claro de sua mensagem que prender políticos e empresários foi importante. E até fácil. Mas em nada resolveu o problema, não tornou a Itália de hoje menos corrupta do que era antes. Pois o sistema - que gerou os anos malditos de Silvio Berlusconi - se manteve intacto. Ou ainda mais benevolente. E o cidadão comum, que antes aplaudia a ação da Justiça, começou a incomodar-se quando não podia mais pagar para furar a fila ou dar uma "gorjeta" para o guarda da esquina abrir mão de uma multa de trânsito.

Esse é o mal que nos ameaça. Passada a fase das grandes prisões midiáticas, o que virá por aí? Isso é o que deveria estar sendo discutido de verdade - a reforma política-eleitoral, a simplificação do estado brasileiro, a criação de mecanismos efetivos de controle social - prévio e não somente judicial - sobre os processos públicos. Mas embebecidos e desacostumados com a repressão aos poderosos, estamos deixando esse debate de lado.

Ou encaramos de frente o desafio ou só nos restará a espera pelo nosso Berlusconi.