José Luiz Portella
08/02/2017
11:00
São Paulo (SP)

O Super Bowl é o tipo de evento que produz cobertura repetitiva. Como Natal, Carnaval, feriadão. A forma de reportá-lo é a mesma e concentra-se na sua grandiosidade.

Este ano surgiu a expectativa de consumo alimentício: 30.000 cachorros-quentes, 8.500 hambúrgueres e 7.000 “nachos”, entre outros. Destaca-se também o show do intervalo sempre com artista consagrado e cenografia que procura surpreender. Porém, tanto a cobertura quanto as repercussões negligenciam o sentido do espetáculo presente.

O ser humano gosta do que é belo. No Brasil, os resquícios, ainda grandes, do complexo de vira-latas introjetam uma sensação de inferioridade que nos alija da construção de espetáculos. Seja por nos acharmos aquém da capacidade necessária, seja por medo de que a beleza signifique luxo indevido em país de tantas carências.

Confunde-se beleza com extravagância e a consciência reprime a ideia.
Joãozinho 30, que convivia com a população mais humilde sacou a frase: “Quem gosta de pobreza é intelectual”.

A estética não é tema restrito a acadêmicos e abastados. Autores célebres como Kant, Hegel, Schopenhauer, Heidegger e Lukács a abordaram em todas as dimensões, inclusive as mais populares. Beleza combina com emoção e produz o que o homem sente como espetáculo.

Nosso futebol deve ser um espetáculo maior que o americano, que, em geral, em torno de três horas de duração, tem em média cerca de 12 minutos de bola em movimento.

Artistas populares, atletas ganham muito porque as pessoas se dispõem a pagar mais pelos espetáculos que eles apresentam do que por atividades que não despertam emoção.

O futebol brasileiro ainda não realizou isso. O conceito de espetáculo está atrelado à emoção. Um evento torna-se inefável pela emotividade despertada e pelo desfrute desse instante. Assim como nos estádios precários que vigoraram por anos (ainda a maioria), respaldados na convicção equivocada de que o torcedor é cliente cativo e não precisa ser bem tratado, não percebemos a diferença entre um jogo e um jogo-espetáculo.

Falta música nos estádios. A música é o maior catalisador da emoção. A escassa cantoria liderada pelas organizadas, praticamente, tem menos musicalidade do que em outros países.

O “selfie” é maior que a participação coletiva.

Em São Paulo, faltam as bandeiras. Essenciais. Contudo, as ausências preponderantes estão no planejamento do espetáculo, na qualidade do que é apresentado, no cuidado com o cenário, a começar pelo gramado.

O sentido do espetáculo é combinação entre plástica do evento, emoção despertada e estética presente. O tempero é o ambiente, o clima proporcionado, que induz à fruição do evento. Sem clima, nada funciona. Aqui, limita-se o clima ao confronto em campo, desprezando o entorno, a cobertura da mídia (mais criativa), descuida-se do “dia do jogo”, subvertendo as movimentações atinentes, enfatizando os problemas e não o que há de bom. O espetáculo é uma carência nacional. Ele é um craque que não escalamos.

Todo ser humano deseja ser convidado para uma grande causa. E para um grande evento. Toda semana perdemos esta oportunidade.

Nós também podemos produzir grandes espetáculos. Sim, nós podemos. Um jogo de futebol deve ser sublime.