Sergio Vieira (foto:Mauro Horita)

Sérgio Vieira chegou ao comando da Ferroviária em 2016 para a disputa do Paulistão (foto:Mauro Horita)

Alexandre Guariglia e Olga Bagatini
09/03/2016
08:30
São Paulo (SP)

"O futebol como uma ciência." Foi este pensamento que conduziu o português Sérgio Vieira na formulação da Ferroviária, time sensação do Paulistão 2016. De volta à elite após 19 anos, a equipe já mostrou que não será coadjuvante. Jogou de igual para a igual com os grandes que enfrentou e ocupa a liderança do Grupo B, à frente do São Paulo.

Não é à toa. Vieira, diferente da maioria dos treinadores, passou mais de uma década aperfeiçoando seus conhecimentos sobre o esporte. Após pendurar as chuteiras de forma precoce, aos 21 anos, o luso ingressou na universidade para estudar o jogo. Ele soube aliar a teoria com a prática por meio de estágios em clubes locais, e agora coloca isso em prática em Araraquara.

Sérgio Vieira já tem alguma bagagem no Brasil. Ele chegou em 2014, depois de deixar o Braga por divergências com a diretoria. Incentivado por seu empresário, o português passou um mês viajando para "absorver a cultura do país do futebol". No fim daquele ano, foi convidado a treinar o sub-23 do Atlético-PR. Ele ainda passou pelo Guaratinguetá antes de chegar à Ferroviária com a missão de garantir a permanência na elite paulista.

Contudo, ele deve ir além. Próximo de assegurar uma vaga na próxima fase, o time já empatou com o Corinthians, venceu o Palmeiras e tem incomodado os rivais, sempre com atuações consistentes. Isso prova que a filosofia do treinador e o esforço para compreender as fórmulas e variáveis desta ciência tem surtido efeito.

Confira a entrevista de Sérgio Vieira ao LANCE:

Como você chegou à Ferroviária?
Tudo aconteceu muito rápido. Fui treinar o Guaratinguetá, que tinha uma parceria com o Atlético. Disputamos a Série C, e o fim do torneio coincidiu com a saída de Milton Mendes do time principal. Fui chamado para ser interino, até a chegada de Cristóvão Borges. Já havia uma parceria com a Ferroviária para o Paulista. Fui escolhido.

O que te atraiu no futebol daqui?
O Brasil é o país do futebol. Me interessa poder ser o primeiro português a ganhar títulos aqui e deixar um legado histórico, semelhante ao que acontece com o Tite no Corinthians. Ele ganha troféus, mas sempre lembramos de como a equipe é bem organizada.

Como estudioso do futebol, sentiu falta de base teórica nas equipes brasileiras?
Sem dúvida. Futebol é uma ciência, como medicina ou engenharia. Tem muitas áreas específicas, e é preciso que o treinador domine todas elas. Não são só questões táticas, técnicas, físicas e mentais, mas também de gestão, marketing, informática, fisiologia, psicologia, sociologia e comunicação. São áreas que contribuem para o rendimento de um líder no esporte.

"O que me surpreendeu foi a capacidade dos jogadores de assimilarem todos os conceitos de jogo"

E em relação aos atletas?
A principal diferença é o conhecimento do jogo, daquilo que é o futebol. A parte tática não está separada dos fatores técnico, físico e mental. Existe um despreparo para aquilo que é o futebol de elite na Europa. Muitas vezes atletas da América do Sul chegam lá e precisam passar por um período de adaptação. Por isso, é importante dominar todas essas capacidades.

Ainda mais quando eles saem de casa muito novos...
Quando saem muito cedo, acabam se formando não só como jogadores, mas também como pessoas. Foi um dos aspectos que eu me preparei para encontrar nos jogadores daqui. Eles vêm de diferentes formações e níveis sociais: há ricos, pobres, jovens, experientes, uns que tiveram boa educação, outros que nasceram na favela. Mas a gente tem que saber lidar com isso, saber ensinar, motivar e dirigir todos esses tipos de personalidades, independente da origem.

Como você aplicou essa filosofia na Ferroviária?
Sempre acreditei na nossa forma de trabalhar. Sabíamos que tínhamos um objetivo a cumprir, que é a permanência do time na elite paulista em 2017. O que me surpreendeu foi a capacidade dos jogadores de assimilarem todos os conceitos de jogo, todas as dinâmicas coletivas, que realmente nos proporcionaram o empate com o campeão brasileiro e a vitória sobre o vencedor da Copa do Brasil, com maior domínio em vários aspectos.

Isso aumentou o moral do elenco?
Sem dúvida. Contra o Corinthians, mesmo depois de sofrermos os empates, buscamos a vitória e tivemos bom volume ofensivo. Diante do Palmeiras, mantivemos nossa dinâmica, nosso modelo de jogo, apenas ajustamos alguns detalhes. Acabou sendo muito positivo. Tivemos domínio de jogo de forma bem controlada, e, felizmente para nós, aquele gol no fim veio colocar justiça no placar. Foram dois jogos que trouxeram motivação e confiança para o elenco, que viu a evolução do processo.

O sucesso trouxe convites para treinar outros clubes?
Agora estou focado no projeto da Ferroviária. Não podemos deixar que alguns comentários e boatos tirem meu foco.

Planos para o futuro?
O objetivo é permanecer na elite do Paulista e conquistar uma vaga na Série D do Brasileiro. Eu naturalmente vou estar focado, mas sabemos como é o futebol. As oportunidades vão surgindo, e temos que estar preparados para elas.