Alexandre Guariglia
02/08/2016
08:00
São Paulo (SP)

Apenas seis jogadores brasileiros têm o orgulho de ostentar duas medalhas olímpicas no futebol: o tetracampeão Bebeto (prata-1988 e bronze-1996), o volante Ademir, ex-Internacional e Cruzeiro (prata-1984 e prata-1988), Alexandre Pato (bronze-2008 e prata-2012), Marcelo, lateral-esquerdo do Real Madrid (bronze-2008 e prata-2012), Thiago Silva, zagueiro do PSG (bronze-2008 e prata-2012) e o lateral-direito Luiz Carlos Winck, ex-Internacional e Vasco (prata-1984 e prata-1988).

Hoje treinador, tendo como último trabalho o comando do Esporte Clube Pelotas, Winck falou ao LANCE! sobre o orgulho que é para ele e para a sua família a conquista dessas duas medalhas de prata, fato tão raro na modalidade. Mas não deixou de lamentar a falta de valorização de um vice-campeonato no país.

- É algo que vai ficar para o resto da vida para os meus filhos, para todos, no Brasil não se dá tanta ênfase à medalha de prata, lá fora os caras valorizam muito uma medalha, independentemente se é de ouro, de prata ou de bronze, eu acho que nós temos que mudar um pouco esse conceito no Brasil, você ser medalhista é um título importante para a vida. Tive o prazer de ganhar duas medalhas de prata, eu realmente me sinto honrado, dinheiro nenhum vai pagar esse sentimento.

A relação do ex-jogador com suas relíquias é de extremo cuidado e zelo, não é qualquer um que recebe a permissão para tocá-las, nem mesmo pessoas próximas.

- Eu tenho ciúme, coloquei em uma moldura, estão no corredor do meu apartamento, lá tenho todas as medalhas que eu ganhei na carreira, moldurei todas. Esses dias até me pediram emprestada no colégio do meu sobrinho, nessa época de Olimpíada o pessoal requisita muito. Eu deixei, mas falei: “Leve no quadro e não tire de lá” (risos). Se não fica muito fácil. Foi difícil conquistar - afirmou.

Ainda que as medalhas de Luiz Carlos Winck tenham sido conquistadas de forma consecutiva, a realidade das duas Seleções em questão eram completamente distintas. Enquanto em 1984, tendo como base o Internacional, não havia uma preparação específica e chegar à final olímpica contra a França já era um feito e tanto, em 88 as coisas foram modificadas e a aposta era alta nos nomes que viajaram para a Coréia do Sul.

- Em 1984 foi uma experiência dos jogadores profissionais disputarem uma Olimpíada, nós éramos um clube que estava representando a Seleção olímpica, acho que na final (derrota por 2 a 0) prevaleceu a superioridade técnica dos franceses, porque nós não tínhamos uma Seleção, éramos um clube mesclado com alguns outros atletas. Ali, a prata já era uma grande conquista para quem começou a Olimpíada desacreditado. Em 1988 já foi diferente, foi a base da Seleção principal, você tinha Romário, Bebeto, Taffarel, uma baita de uma equipe.

"Era a União Soviética na final, depois da Alemanha, acabamos subestimando demais. É inconsciente"

Se em Los Angeles a prata era algo surpreendente, em Seul a esperança era de ouro. A Seleção olímpica brasileira chegou aos Jogos como grande favorita ao lugar mais alto do pódio, expectativa reforçada por uma grande vitória, nos pênaltis, na semifinal contra a Alemanha de Klinsmann, com direito a espetacular atuação de Taffarel. No entanto, para Winck, a chegada à decisão acabou mexendo com o inconsciente do grupo, adiando mais uma vez o sonho de uma medalha dourada.

- Era a União Soviética na final e nós havíamos vencido a Alemanha na semifinal, nos pênaltis, tinha Klinsmann e todo um grupo qualificado de jogadores. Eu acho que isso fez mal, porque você sair da Alemanha para a União Soviética tem uma diferença, acabamos subestimando demais, achamos que seria fácil. Nós até saímos na frente no placar, fizemos 1 a 0 e eles viraram para 2 a 1, na prorrogação. É inconsciente, por mais que você queira dizer alguma coisa, é inconsciente, você ganhou da Alemanha em uma semifinal, poxa, agora o ouro é meu, não tem mais volta - contou.

Mesmo sem o ouro olímpico, alguns daqueles jogadores, medalhistas de prata, acabariam se tornando campeões do mundo com a Seleção principal nos EUA, em 1994, título que Luiz Carlos Winck poderia ter na parede de sua casa, não fosse a forte concorrência em sua posição e uma mudança de time.

- Eu estive até o final de 1993 nas convocações com Zagallo e Parreira, mas acabei ficando fora da Copa do Mundo, tinha uma disputa com o Jorginho, com o Cafu e eu, mas o que aconteceu foi que eu sai de um grande centro, do Rio de Janeiro, que naquela época tinha uma pedida maior e vim para o Sul, vim para o Grêmio e perdi um pouco dessa situação de brigar por uma vaga na Copa - lamentou.

"Em 1988, não vivemos essa coisa boa que era estar na Vila Olímpica. Estávamos muito distantes, muito separados das demais modalidades"

Uma das grandes lembranças olímpicas de Winck é a estadia na Vila dos atletas nos Jogos de Los Angeles, em 1984. Além de cruzar com grandes nomes do esporte mundial, nutriu uma grande amizade com Renan, da seleção brasileira de vôlei. Juntos - vôlei e futebol - foram responsáveis pela primeira medalha de prata do Brasil em esportes coletivos. Essa experiência não pôde ser repetida na Coréia, pois a concentração se estabeleceu fora do ambiente de convívio, fato que não agradou.

- Nós sentimos falta do convívio, porque ficamos muito afastados, apenas focados na questão dos nossos treinamentos, nos jogos, então nós não vivemos essa coisa boa que era estar na Vila Olímpica. A gente até tinha vontade de estar em alguns eventos, mas estávamos muito distantes, muito separados das demais modalidades.

Agora como técnico, porém, ele ponderaria alguns argumentos antes de decidir onde hospedar seus jogadores em um evento como os Jogos Olímpicos, a fim de levar o tão almejado ouro.

- Pensando em cultura, em conhecimento, eu acho que levaria, mas em termos de concentração, de estar focado, de querer ganhar essa medalha de ouro que nos faz falta, aí seria questão de afastar um pouco, porque ali dentro o seu pensamento iria dispersar - finalizou.