Reynaldo Buzzoni, diretor de registro e transferências da CBF (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Reynaldo Buzzoni, diretor de registro e transferências da CBF (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Igor Siqueira
24/02/2016
10:23
Rio de Janeiro (RJ)

Depois de realizar um inédito balanço a respeito do cenário atual de salários, transferências e volume de clubes no futebol brasileiro, o diretor de registro e transferências da CBF, Reynaldo Buzzoni, conversou com o LANCE! a respeito do cenário descrito pelos números.

Além de considerar que o fato de mais de 82% dos jogadores receberem menos de R$ 1 mil um reflexo do contexto econômico brasileiro, Buzzoni assegura que, com a implantação de novos regulamentos e ajustes em outros, a CBF vai apertar o cerco contra transações que sejam feitas em desacordo com a nova regulamentação da Fifa, sobretudo quanto à atuação de terceiros e clubes hospedeiros.

- Tem regulamento, uma câmara. Se for denunciado, vai ser punido. Estamos monitorando. Se tiver algo fora do comum, acende a luz. Foi o que fizemos com o Iago Maidana - afirmou ele.

Qual a leitura que a CBF faz do fato de mais de 82% dos jogadores receberem menos de R$ 1 mil?
É a realidade do país. Quantos ganham mais de R$ 5 mil? Isso reflete a realidade do país, não está nada diferente. Há salários astronômicos. A grande dificuldade é que são salários que duram três meses, quatro meses.  E vai piorar, com essa crise que o país vive.

E em relação aos clubes?
São mais de 700 clubes. Dá para ter? Achamos que não. Vai ser lançado o licenciamento, tem um regulamento pronto, vai ser levado ao Comitê de Reforma. A Uefa levou seis anos para implementar. Isso é uma coisa. Vai ter que mostrar orçamento, índice de liquidez. Vamos criar um regulamento de registro de clubes. Vai haver padrões mínimos para ser clube profissional ou amador. Não adianta ter só uma salinha e jogar em um campo de base. Vai ter que ter uma estrutura.

A CBF pretende fazer alguma coisa para que os jogadores recebam mais?
Não. Isso é clube. Temos que ajudar a melhorar a gestão. É clube que paga, não somos nós. Já gastamos R$ 100 milhões em competições, pagamos viagens, doping. O que mais dá para fazer? A CBF faz 14 competições.

Em relação às transações, tivemos R$ 679.740.600,00 entrando no mercado brasileiro...
O número é em dólar e euro. Se foi uma transferência em janeiro, o dólar era um. Fizemos uma variação cambial de acordo com o dólar hoje. Não sei se entrou isso tudo. É um diagnóstico do dólar hoje. Para o cara que está lá fora, é barato comprar jogador aqui. O jogador vai. O Renato Augusto vai ganhar R$ 1 milhão, são US$ 200 mil. E os caras vão embora. É barato para quem paga e muito para quem recebe.

A CBF está satisfeita com o número de jogadores amadores que saem do país?
Acho péssimo sair mais de 200 jogadores amadores. Estava até falando com o Dunga: que país perde esse número de jogadores amadores? E dizem que o futebol brasileiro está uma m... 1500 jogadores saem todo ano. O cara sai com 15, 18, estoura. Olha há quanto tempo o Douglas Costa saiu daqui. Não tem como a CBF proibir a transferência. Chegaram a dizer que tinha de haver uma lei proibindo a transferência de menores de 18 anos. Aí esbarra nas leis trabalhistas. E a Fifa ainda não reconheceria isso. E tem uns 500 jogadores que não temos o registro dele. A Federação Espanhola, por exemplo, se o fulano está registrado na CBF. Respondemos que não. Tem caras que nunca vimos. Muita gente não registrava o amador antes, mas desde o ano passado tem que registar, porque se vier um dia a ser jogador, vai poder receber o mecanismo de solidariedade, de formação.

Dá pra saber o quanto em verba de mecanismo de solidariedade é perdido?
Perdemos muito. Fica até complicado acompanhar. Mas temos que fazer o passaporte dos jogadores, comunicamos aos clubes... Mas recebeu o dinheiro? Tem que ficar no futebol. Mas não somos a Receita Federal, não somos polícia. O valor entrou, para onde foi? É responsabilidade do clube saber.

Tem jogador demais no país?
Não tem jogador demais. Não acho muito. É complicado, porque todo mundo acha que vai ser jogador de futebol. A questão é a gestão, o clube tem que saber quantos jogadores pode ter. O cara tem que fazer um clube para jogar, não pode ter clube hospedeiro. É proibido pela Fifa e pela CBF.

E como vocês estão se comportando em relação a essa regulamentação?
Estamos monitorando o mercado. Estamos exigindo que os clubes cumpram. Os intermediários têm que ser cadastrados. Não pode ter o terceiro, continua tendo pais de jogadores, empresários, tentando ter percentual nos direitos. Não pode. Tem regulamento, uma câmara. Se for denunciado, vai ser punido. Estamos monitorando. Se tiver algo fora do comum, acende a luz. Foi o que fizemos com o Iago Maidana. Com as mudanças nos regulamentos, não vai mais para o STJD. Vai para o novo comitê.

A mudança de presidente da CBF influenciou o seu trabalho?
Aqui é um setor técnico e operacional. Não tem política. É sistema. Não dá para publicar na frente.

As federações dão muito trabalho?
Dá muito trabalho. Temos que treinar, ir lá. Estamos fazendo um cronograma de planejamento, mostrar os regulamentos. A grande maioria dos clubes não lê regulamento, não sabe o que está fazendo. Os clubes vão ter assinatura digital. Os intermediários também.

A procura está alta pela credencial de intermediário?
Quando era agente Fifa, trezentos e pouco fizeram a prova e nem todos estavam ativos. Já estamos com mais de 150 intermediários e todo dia chega pedido. Qualquer um pode se cadastrar. Ele não precisa ter jogador. Tem que se cadastrar para um dia fazer uma transação. Ele é participativo daquela operação.

Acha que o domínio dos empresários é o que causa a falência dos clubes?
Os clubes estão quebrados por má gestão. O clube faz um orçamento e coloca lá que vai vender tantos jogadores. Quem disse que alguém vai pagar 10 milhões? É igual ao TPO. Não consigo entender. Eles investem dinheiro, o clube acha que tal jogador vale 10 milhões. E se não vender? Perde o dinheiro? Se vender, o cara ganha muito dinheiro. Mas é meio sem sentido. É um ótimo negócio para o intermediário também. O clube se ferra, porque o clube paga salário, alimentação e treinamento. No dia que vender, o terceiro leva 50%.