Kerlon

Kerlon disputará o Campeonato Mineiro pelo Villa Nova, ao lado de Fábio Júnior (Foto: Geraldo Bubniak)

Lucas Strabko
22/01/2016
07:15
São Paulo (SP)

Kerlon não foi o que sonhou ser. Assim como muitos jogadores que surgiram como grandes promessas do futebol brasileiro e acabaram não “acontecendo”.

Após rodar pelo mundo, passando do céu ao inferno, voltou ao futebol de Minas Gerais, onde já brilhou pelo Cruzeiro, para jogar o campeonato local pelo Villa Nova.

Nos tempos áureos, seu currículo foi preenchido por Inter de Milão, Ajax e as consequências de se viver em cidades embaladas por uma agitada vida noturna: dinheiro, fama, mulheres e grandes festas.

Já na fase de baixa, em tão curto espaço de tempo da glória, jogos na terceira divisão do futebol japonês e quase aposentadoria em um time amador dos Estados Unidos.

Em ambos os períodos, porém, Kerlon conviveu sempre com as lesões. Ao total, foram seis, em diferentes lugares, que o afastaram dos gramados por um bom tempo e tiraram a autoconfiança, recuperada hoje, como o meia garante.

O mundo, para Kerlon, foi uma bola. Ele a colocou em cima da cabeça no estrelato, mas não soube dominá-la quando caiu aos pés.

Confira a entrevista completa com o jogador de 27 anos, que fala sobre seus planos na carreira, boas histórias com o “drible da Foquinha” e os excessos do passado:


Por que você escolheu jogar o Mineiro pelo Villa Nova?

O Fábio Junior (ex-atacante do Cruzeiro) está tomando conta do projeto. Vim por causa dele. Sei que ele é honesto, um cara bom. Seria difícil fazer negócio com o clube, mas com ele à frente, sei que andaria. A primeira proposta que chegou foi essa, aceitei logo de cara. Vim porque estou perto de casa, estou em Belo Horizonte, perto da família. Nada melhor do que recomeçar em casa. Se eu fizer um campeonato muito bom, tem várias possibilidades. Eu vejo o Mineiro como segundo melhor estadual. O Carioca deu uma caída muito grande.

O que você espera nesse Campeonato Mineiro?
Estou fazendo uma pré-temporada muito boa. Estou me dedicando aos treinos, tem sido muito intensa. Quando o jogador faz bem a pré-temporada, sem lesões, treinando forte, a sequência do ano é muito boa. É isso que espero. Sei que estou voltando do futebol do exterior, peguei campo sintético, clima e velocidade diferentes. Estou me readaptando. O Villa está montando um time muito bom, com jogadores novos e outros experientes. Tivemos jogo treino e ganhamos do Cruzeiro. A gente espera chegar entre os quatro melhores. Depois, semifinal e final.

Kerlon - Villa Nova
Kerlon em sua apresentação no Villa Nova (Foto: Divulgação)

Dá para prometer o “drible da Foquinha” contra o Cruzeiro?
(Risos) O torcedor me defendeu tanto por ser uma jogada não humilhante. Se eu fizer contra o Cruzeiro, não será humilhante. Acredito que sim, posso fazer, quando for proporcionar lance perigoso ou próprio gol. Seria muito legal. Não sei se valeria a pena ou não.

Qual foi a foquinha mais legal que você fez até hoje?
Não tenho dúvida: contra o Atlético-MG. Foi uma pancada muito boa. Eu sabia que ia apanhar ali. Foi legal por ter sido um clássico, com esse calor brasileiro, humano. A gente estava ganhando o clássico. Foi a que todo mundo lembra. Nunca mais encontrei com o Coelho. Na hora ali, foi só xingamento (risos). Eu nunca fiquei receoso de fazer. Tem jogo que tem certa necessidade. Eu não vou pegar a bola e fazer para debochar.

Fora do Brasil, as pessoas conhecem a “foquinha”?
Não conhecem. É como ter feito pela primeira vez. Perguntam: "Nossa, que interessante, o que é isso?".

O último clube que você jogou antes de voltar ao Brasil foi em Malta. Você fez a “foquinha” lá?
O filho do treinador tinha visto meus vídeos na internet. Isso antes do jogo. Na preleção, o treinador falou: “Oh, quando a gente for sair com a bola no meio-campo, joga a bola em cima da cabeça do Kerlon e ele em direção ao gol”. Eu falei: “Treinador, pera aí, eu não vou carregar a bola do meio-campo até o gol, tem 11 caras lá atrás, não vou passar da meia-lua”. Ele disse que assumiria a responsabilidade. A foquinha tem que fazer perto da área, para chegar no gol. O capitão tirou lá e a gente começou com a bola. Ele perguntou o que eu iria fazer, eu disse que não sabia. Se eu faço e dá certo, maravilha. O cara levantou a bola, dei quatro passos e dois caras me sentaram a porrada (risos). Me deram um tostão na perna. Paulistinha que fala, né?!

Por que você voltou de Malta?
Malta foi uma passagem que acreditei que iria jogar futebol de alto nível. Deus que faz o teu caminho. Ele escolheu Malta para estar na primeira divisão, ter jogado, ter sido melhor em campo vários vezes. Me deu autoconfiança grande para voltar. Quando o jogador está bem, tudo é confiança. Encarei como estar vivo ainda. Muita gente não lembrava de mim, agora podem voltar a lembrar.

Pelo Sliema Wanderers, de Malta, Foquinha fez dois gols em nove jogos (Foto: Divulgação)
Pelo Sliema Wanderers, de Malta, Foquinha fez dois gols em nove jogos (Foto: Divulgação)

Como você foi parar em Malta?
Foi uma longa história. Quem vê de fora não sabe o que acontece na vida de jogador. Minha vida é muito complicada. Estava nos Estados Unidos, jogando no Miami. Minha dificuldade era muito grande em relação a lesões. Muitos clubes fecham a porta, não apostam em você, por medo de dar despesas. Isso tudo gerava descrédito próprio e das pessoas. Apareceu um turco, que é muito fã meu, que sabia de tudo da minha vida. Ele se chama Hasan. Ele sabia mais da minha vida do que eu próprio (risos). Viu uma foto minha no Instagram, começou a me seguir, entrou em contato comigo. Nesse meio-tempo, ele falou que arrumaria um time para mim. Ele apareceu com uma proposta de Malta. Pensei: “Cara, eu vou, quero voltar para a Europa”.

Você sempre conviveu com muitas lesões. Malta seria um bom lugar para se recuperar?
Eu preciso ter um acompanhamento diferente de todos os outros. Preciso de alguém que diga: “Eu vou ajudá-lo, vou prepará-lo de novo”. O que te previne de lesões são os estudos, o que os fisiologistas fazem. Pego os exemplos de Renato Augusto e do Pato. O que vai fazer o jogador voltar a ter alto nível é a sequência longa, jogando 30, 40 jogos. Se você joga dois jogos e fica um fora, gera uma instabilidade física e emocional. Hoje o futebol é muito fisíco, tem que estar muito inteiro.

Kerlon - Cruzeiro
Kerlon estourou em 2005, pelo Cruzeiro, onde foi campeão mineiro (Foto: Arquivo Lance)

Você jogou em grandes clubes. Não teve estrutura adequada para se recuperar?
O problema não foi esse. As lesões que tive foram todas ligamentárias. Claro que depois que você recupera uma lesão de ligamento, tem lesões musculares porque o músculo não está respondendo à altura. Eu fui abençoado por Deus para passar por isso. Acredito que são lesões que todo jogador que está aí está sujeito a ter. Não pode prevenir lesão de ligamento. Você gira, seu pé está na grama, seu joelho torce. São fatalidades.

Você acha que está vivendo um momento feliz na carreira?
Estou muito feliz. Hoje, me sinto um vitorioso. Sinto que eu já realizei meu sonho que era jogar em uma Seleção, foi de base, mas que não deixar de ser Seleção. Joguei em grandes clubes: Inter, Ajax... Conheci muitas coisas legais que o futebol pode me proporcionar. Não tenho nada que reclamar. Felicidade minha está mais em ter escolhido Jesus, de ter uma vida mais centrada, ter aprendido a ser um homem, não mais um menino.

Você acha que se perdeu no começo da carreira?
Realmente sim. Como a vida de todo jogador, ela no início é muito fácil. Tem dinheiro, carro, fama, faz as coisas que o dinheiro te proporciona fazer. Tem cabeça pequena, amigos que te cercam que não querem seu bem. Acaba se perdendo. Com o passar do tempo, isso te causa constrangimento. Vai pagando o preço pelo o que fez. A gente colhe o que planta. Em um intervalo de três anos, estava em uma Inter de Milão e fui parar em um Nacional, ali em Nova Serrana (MG). Foi uma queda muito grande na minha vida. Durante esse tempo, conheci minha esposa. Eu não era evangélico ainda, fui me abrindo. Fui me interessando a conhecer Jesus, Deus. Foi quando eu me abri, aceitei Jesus. Vi que minha vida se transformou muito, não digo no financeiro. Jesus Cristo está pouco se importando se eu jogo futebol, está preocupado com a minha alma, no Kerlon como pessoa.

Kerlon ficou famoso pelo "drible da Foquinha" (Foto: Divulgação)
Kerlon ficou famoso pelo "drible da Foquinha" (Foto: Divulgação)

Como você se perdeu?
Tinha uma certa soberba acima dos outros. Ter 18, 19 anos e ser reconhecido por uma jogada. Você começa a ganhar dinheiro, se sente com poder a mais que tem. Tudo isso eu vejo hoje como uma futilidade, aquilo não vale nada. Eu saía, como todo jogador saía. Tinha várias mulheres, eram muito fáceis. Droga, nunca me meti. É um tipo de situação que você precisa hoje de dormir bem, descansar, ter o músculo bom. Perdi muito tempo tirando o foco que era jogar futebol. Todo jogador fazia, eu também fiz. Não sei se consegui acordar há tempo.

Você acha que não virou craque pela falta de foco ou pelas lesões?
Por causa das lesões. Eu comecei a sair, conhecer as coisas, depois de velho. Quando estava no Brasil, nunca saía. Conheci caras que faziam bem pior e nunca se machucaram. Por que eu não poderia dar uma volta? Você cria sua honestidade. Procurei sair depois dos 23 anos e não foi um problema. Você começa e não quer parar. Tem a segurança de um contrato de quatro anos, não se preocupa e quer aproveitar.

Kerlon - Ajax
No Ajax, lesões atrapalharam Kerlon (Foto: Reprodução/Internet)

Fora do Brasil, você morou em cidades conhecidas pela noite, como Milão e Amsterdam...
Amsterdam é louco demais. Foi o lugar mais doido que conheci. É tudo liberado. Ali na rua já é um coffee shop. Toda esquina tem. Eu via as pessoas usando droga, eu sabia onde comprava. É uma cultura respeitosa. Respeitam quem fuma e quem não fuma. No Brasil, não é legal porque não é liberado. Lá, ninguém está nem aí para você. Faz o que quiser. É a liberdade que o país oferece.

Dentro de campo, o que aconteceu com você na Europa?

Ali, eu estive sempre lesionado. No ano em que cheguei em Milão, fiz cirurgia, fiquei um longo tempo parado. Depois fui para o Ajax. Nos dois primeiros jogos, machuquei o joelho. Se você não tiver foco, se perde totalmente. Amsterdam é uma cidade muito legal. Conheci grandes jogadores do futebol europeu. Claro que queria ter feito uma história, ter tido uma sequência legal. Proporcionei para a minha família cidades maravilhosas. Isso já é muito legal.

Como foi sair da Itália para rodar em times menores?
Se você não tem cabeça, para na hora e não quer mais mexer com isso. Foi um momento de adaptar a uma realidade. É difícil ter toda a estrutura em um time grande e em outro não ter estrutura. Mas é o que tem, o que vou fazer? Tem que agarrar. Jogar o mais rápido para sair com alguma coisa.

Você conseguiu ganhar dinheiro com o futebol?
Gastei muito. Jogador de futebol quando é jovem... É carro, roupas... A gente não precisa de roupas, mas fica gastando. Comprei apartamento, casa gigante que não tinha necessidade porque morava sozinho. O dinheiro vai embora e você nem vê. Meu pai entrou no negócio porque todo mês eu mandava uma parte do salário para ele. Ele começou a investir todo dinheiro que eu mandava, faço isso desde a base. Quando eu casei, ele me repassou tudo. Se fosse por mim, eu teria gastado tudo, não teria nada.

Faz dez anos do Sul-Americano Sub-17 de 2005, quando você foi campeão, artilheiro e melhor jogador pela Seleção Brasileira. Naquela época, onde você imaginava que estaria dez anos depois?
Sem nenhuma cicatriz, eu não sei. Eu poderia estar em um grande time e não poderia ser eu, o Kerlon de hoje, pai de família. Poderia estar perdido. Tem dois tipos de jogadores: aquele que não dá certo por lesão e aquele que ele mesmo joga fora a oportunidade, gosta de uma noite, de uma cerveja, de mulher. Você jogar fora isso, tendo o dom, é mais doloroso, dói mais. Tive acidente de trabalho e não dei certo. Eu acredito que, sem lesões, estaria em um time bom, mas também não poderia estar. Sei que hoje estou no Villa.

Kerlon - Brasil sub 17
"Foquinha" ficou famoso após as boas atuações no Sul-Americano Sub-17 de 2005 (Foto: Jesus Suárez)

Você achou que se daria melhor no futebol?
Eu acho que poderia ter feito algo a minha altura. Seleção de base, Cruzeiro, Inter de Milão, Ajax... Posso não ter jogado, mas estive nos times. Isso já é uma realização de alguma forma. Não acredito que deu errado e o que deu certo. Qual promessa que não vingou? O que eu fiz? Só vinga quem joga em um Real, Barça? Às vezes, o próprio jogador se conforta com o que tem.

Quão bom você se achava quando despontou?
A gente não tem noção de que a gente é bom ou não. A gente sempre acha que está abaixo. Eu nunca tive problema em saber que eu era melhor que alguém dentro de campo. Isso te motiva a fazer mais.

Kerlon quase abandonou a carreira antes de jogar pelo semi-amador Miami Dade (EUA) (Foto: Divulgação)
Kerlon quase abandonou a carreira antes de jogar pelo semi-amador Miami Dade (EUA) (Foto: Divulgação)

Teve algum ponto da sua carreira que você pensou: "Não dá mais"?
Nos Estados Unidos. Tinha tomado a decisão de parar. No fundo, sabia que não era a hora ainda. Comentava com as pessoas, com a família, que não dava mais. De alguma forma, você sabe que se pintar oportunidade, você pega. Estava tendo dificuldade em encontrar time por causa das lesões. Juntei minha família e decidi morar nos Estados Unidos. Tem condição de vida e consegue viver bem com pouco dinheiro. Os times queriam, mas vinham meu currículo de lesões e desistiam. Isso foi me frustrando. Pensei que era a hora de parar, abrir escolinha lá. Estava bem confortável que o futebol estava chegando ao fim. Nisso, fui para Miami, conheci o dono do Miami Dade, ele me fez proposta e eu fiquei.