Eduardo Barros com o troféu de vice-campeão do Campeonato Paulista de 2016 (Foto: Reprodução / Facebook)

Eduardo Barros, vice-campeão do Campeonato Paulista de 2016 com o Audax (Foto: Reprodução / Facebook)

Melissa GARGALIS
22/08/2016
13:08
São Paulo (SP)

Eduardo Barros é auxiliar-técnico do Audax e foi o braço direito de Fernando Diniz na boa campanha do clube de Osasco no Paulista de 2016. Apesar da derrota para o Santos, na Vila Belmiro, em maio, a equipe surpreendeu a todos pela proposta de estilo de jogo ousado. Parte disso é responsabilidade de Barros, que é um dos que pensam sobre o o futebol de forma mais complexa. Aos 31 anos, ele compartilha do sonho de mudar a situação do futebol nacional com uma simples estratégia: retomar a identidade do jogo brasileiro.

- Precisamos discutir questões estruturais e organizacionais complexas. Quando falamos de futebol brasileiro, a maioria das pessoas pensa em jogadas de efeito, times ofensivos, com movimentação, que propõem o jogo e que encantam com jogadas criativas e imprevisíveis. Essa é a nossa essência, é a grande identidade do nosso futebol, que foi se perdendo ao longo dos anos - disse o auxiliar, em entrevista ao LANCE!

Aspirante a técnico, Barros acredita que ainda precisa prolongar os nove anos que tem de experiência no ramo. Ciente de que o cenário esportivo do Brasil é 'feroz', ele projeta iniciar sua jornada como treinador principal somente quando chegar aos 40. Até lá, vai aprendendo sobre as pressões e 'emboscadas' da rotina de um treinador brasileiro.

Defensor da evolução do futebol em diversas frentes, o também colunista tático da Universidade do Futebol, fala sobre a mensagem que tenta implementar nos clubes em que passa, e ressalta as etapas de trabalho inseridas no Audax, vice-campeão Paulista.

- Se estamos falando de resgatar a hegemonia do futebol, não podemos fazer uma retomada que não tenha vínculo com a nossa identidade. No caso do Audax, a ideia foi essa e o primeiro passo foi a formação do elenco. Passamos por uma boa preparação, tanto de pré-temporada (60 dias), como uma que excedeu o que é feito dentro das quatro linhas: reuniões, grupos de discussão e análises de vídeos. Por fim, fomos capazes de nos ajustarmos ao longo da competição e tivemos coragem de enfrentar os grandes fora dos nossos domínios. Tudo isso aliado à entrega de todos os envolvidos - contou.

Do trabalho realizado, ficam as experiências e aprendizados para seguir rumo ao objetivo principal.

- São dois grandes aprendizados. O primeiro é a valorização da dimensão humana, da rotina de trabalho e do envolvimento que mostrou o Fernando Diniz. Ele esteve disponível quase que de forma integral para todos. O segundo foi aprender a dar liberdade estrutural aos jogadores dentro do campo de jogo - afirmou, explicando:

- Na maioria das equipes, os jogadores têm uma restrição muito grande na ocupação de espaço. Geralmente, dos dez jogadores de linha, sete ou oito têm restrições significativas. O zagueiro é zagueiro, o lateral é lateral, o volante é volante... Nas equipes do Diniz ocorre exatamente o contrário. Sete ou oito jogadores de linha têm uma liberdade gigantesca e isso oferece uma riqueza de movimentos e de possibilidades para o time - relatou.

Perguntado se as grandes equipe brasileiras estão sofrendo com as ideias 'copiadas' do futebol europeu, o auxiliar explica que os times se veem obrigados a jogar pelo resultado e exemplifica sua posição através da estratégia de jogo adotada pelo Santos diante do Audax.

- Isso permitiu que diante de um time como o Audax, o Santos se 'apequenasse' para nos enfrentar. Em uma final de Campeonato Paulista, fora de casa, o Santos, que é campeão Brasileiro e Paulista por dezena de vezes, teve que abrir mão e jogar como um time pequeno para nos vencer. Essa foi a única alternativa que o Dorival encontrou para ser superior ao Audax naquele momento - disse.

Em termos de Seleção Brasileira, aproveitando o momento dos Jogos Olímpicos, Barros defende uma mudança estrutural. Para ele, a equipe de Rogério Micale não pode ser analisada somente pelos resultados obtidos na Olimpíada.

- Micale assumiu um trabalho há 40 dias da Olimpíada, sem saber se seria realmente o treinador do Brasil. Hoje, uma resposta dos jogadores seria muito diferente se eles se apresentassem com uma filosofia de jogo já construída, mas não é isso que acontece. Se fosse outro treinador teríamos a mesma coisa, com atletas se adaptando a uma filosofia totalmente diferente das anteriores - afirmou. 

Ainda, Eduardo Barros conta que a esperança é de que Tite, técnico da Seleção Brasileira principal, possa contribuir com as tantas exigências que demandam o atual cenário do futebol nacional.

- Eu espero que o Tite consiga dar um primeiro passo para trazer mudanças significativas. Penso que para termos sucesso será necessário implantar um trabalho de longo prazo e que tenha preocupações com o resgaste da identidade de jogo que a gente perdeu - finalizou.