Olga Bagatini
14/10/2016
06:00
São Paulo (SP)

Antônio Carlos Zago vive o auge de sua carreira como treinador. À frente do Juventude, o ex-zagueiro realizou grandes feitos no clube: foi vice-campeão gaúcho, está nas quartas de final da Copa do Brasil e ainda conquistou o esperado acesso à Série B do Brasileiro no último fim de semana. 

O sucesso não veio por acaso. Zago pendurou as chuteiras em 2007 e logo teve uma passagem como diretor do Corinthians, a convite de Andrés Sanchez, seu amigo de infância. Demitido por ter sido flagrado com Ronaldo Fenômeno em uma noitada, ele deixou o cargo. Estreou como técnico no São Caetano, em 2009, onde ganhou destaque e chamou a atenção do Palmeiras.

Zago foi convidado para assumir o time em 2010. Para sua frustração, no entanto, foi demitido três meses depois, com nove vitórias, cinco empates e cinco derrotas em 19 partidas. Foi substituído por Felipão. 

– Acho que não estava pronto naquela época. Só tinha um ano como treinador. Talvez até estivesse, mas o clube atravessava uma crise política impressionante e acabou dificultando meu trabalho. Tive um bom desempenho, mas depois fiquei sabendo que já estavam conversando com Felipão antes da minha contratação. Me pegaram como técnico interino sem me avisar. Fiquei chateado, mas continuei minha carreira – disse o comandante ao LANCE!.

Após a experiência, Zago comandou equipes de menor expressão como Grêmio Barueri, Mogi Mirim, Vila Nova e Audax-SP. Em 2013, decidiu ir para a Europa aprofundar os estudos sobre futebol. Lá, passou três anos, onde intercalou cursos da Uefa e estágios na Roma e no Shaktar Donestk.

Mais preparado, voltou para o Brasil na metade de 2015 e assumiu o Juventude. Com o respaldo e a estrutura garantidos pelo presidente Roberto Tonietto, montou um time consistente e conquistou bons resultados.

Agora, Zago – que, enquanto jogador, atuou nos quatro grandes clubes de São Paulo – sonha em voltar ao Verdão para concluir o trabalho iniciado em 2010.

– Um dia eu vou voltar para o Palmeiras e terminar o trabalho que comecei lá atrás. Nos últimos dois anos, Palmeiras vem dando mais tempo para os treinadores trabalharem. Essa gestão é totalmente diferente daquela que eu vivenciei em 2010. Cuca vem fazendo um excelente trabalho, vai ficar algum tempo ainda, mas voltarei para terminar o trabalho que comecei há seis anos. E para sair por cima, assim como fiz enquanto jogador - encerrou o treinador.

Bate-bola com Antônio Carlos Zago
'Estou pronto para treinar qualquer time do futebol brasileiro e mundial'

Qual a importância do intercâmbio para a Europa na sua carreira?
Passei três anos estudando e fazendo estádio, vivendo futebol o dia todo. Unir teoria e prática ajudou muito, me acrescentou muito, e hoje me sinto um treinador pronto para treinar qualquer equipe do futebol brasileiro e mundial.

Como surgiu a oportunidade?
Treinador que treinava a Roma em 2012 era Zeman, quem me levou para a Itália como jogador. Já tinha conversado com ele sobre a vontade de fazer os cursos e o estágio. Queira ou não, tenho uma história na Roma, sou como um ídolo pelo trabalho que fiz lá. Zeman acabou saindo no fim daquele ano. Já tinha falando com Lucescu, que me treinou por dois anos no Besiktas. Telefonei, falei com o presidente e ele me pegou para trabalhar e poder terminar os cursos. Passei dois anos lá e trabalhei com 12 brasileiros no elenco, o que também facilitou a vida. 

Para você, qual sua parcela de responsabilidade no sucesso do Juventude?
Não gosto muito de falar das coisas que fiz, mas Lucio de Cesare, um amigo italiano que acompanha futebol brasileiro, me disse que, nos últimos 20 anos, nenhum técnico fez o que fiz em 2016. E não é só pelo acesso à Série B, mas por ter chegado à final do Estadual e ainda ter chance na Copa do Brasil. Ele disse: "Todos falam que no Brasil treinador tem que estudar, fazer os cursos. Você, além de fazer, foi um grande jogador, que defendeu Seleção Brasileira e teve os melhores técnicos que alguém pode ter. E sempre soube observar muito bem". Tenho que levar isso em consideração, aconteceu tudo na minha vida para que eu fosse o técnico que sou hoje.

Como foi a recepção da torcida após a conquista do acesso?
Estamos buscando isso desde o ano passado, e passar por tudo que passamos esse ano, dificuldades também, e ser recepcionado da maneira como foi... Todos os jogadores choraram. Tinha quase seis mil pessoas esperando a gente no aeroporto. Pelo que falaram, nem quando o Juventude conquistou a Copa do Brasil (1999) a festa foi assim. O torcedor estava ansioso por isso.

Pretende seguir no clube até o fim de seu contrato ou quer sair antes?
A ideia é terminar bem essa Série C, se possível, com título, e levar o time à semifinal da Copa do Brasil. Depois começo a pensar. Se aparecer alguma coisa boa antes do fim do ano, um projeto legal que me dê condições de trabalhar, não descarto sair. Senão, vou tocando o barco aqui mesmo. 

Você trabalha no Rio Grande do Sul. Recebeu propostas de Inter e Grêmio após as demissões de treinadores que ocorreram na temporada? 
Sempre há sondagens, mas oficialmente, ninguém me fez proposta. É bom ser relembrado, importante para minha carreira. Depois que saíram os treinadores, boatos surgiram, mas não passavam de boatos. Ninguém me procurou. 

O que você achou da declaração de Luxemburgo sobre a relação entre falta de técnicos brasileiros no exterior e a falta de empenho para aprender idiomas?
A questão de não ter treinador brasileiro no exterior não é de idioma, é de estudo mesmo. No Brasil, devemos taticamente. Está melhorando agora, em cima de toda a cobrança que a imprensa vem fazendo. Até certa época, só cobravam talento individual de jogadores, mas o desenho tático feito pelo treinador também faz parte do processo. É o trabalho de qualquer treinador. Também pesa o fato de o Brasil não ter curso de treinador reconhecido pela Uefa. Lá fora, jogador brasileiro é visto como alguém que roda o campo todo. Vai para a Europa aprender a jogar taticamente. Melhorou nos últimos anos, mas ainda precisa melhorar muito mais. Não ter técnico brasileiro lá fora porque não sabe falar a língua é conversa fiada.