Aderlan santos -Valencia (foto:AFP)

Aderllan Santos disputa a bola com Cristiano Ronaldo em jogo válido pela Liga Espanhola (Foto: AFP)

Alexandre Guariglia
19/05/2016
08:00
São Paulo (SP)

Vida de zagueiro não é fácil! Imagine então aqueles que precisam enfrentar o Barcelona de Messi, Suárez e Neymar... Essa foi a tarefa de Aderllan Santos, zagueiro brasileiro do Valencia, da Espanha, não apenas por uma, mas por três vezes durante a temporada europeia que está perto do fim.

A missão quase impossível foi menos traumática do que seria para Aderllan, já que foram dois empates e apenas uma derrota para o Barça, mas foi justamente no revés que o problema se sucedeu. O placar da partida no Camp Nou foi 7 a 0 para os catalães, incomum até mesmo para o trio.

- Esse jogo você já sabe, o trio MSN joga demais. Eu senti o poder deles. Deu tudo certo para os caras, não dava para competir. No outro jogo, pela Liga Espanhola, os caras tiveram as mesmas oportunidades e não concretizaram - relatou o zagueiro.

A goleada sofrida pelo Valencia na Copa do Rey ficou mesmo marcada na temporada do zagueiro brasileiro. Não pela eliminação, que acabou ficando em segundo plano, mas sim pela maneira com que os catalães fizeram o placar.

- Levar sete do Barcelona, do jeito que foi, em um clube como o Valencia, foi ruim, foi difícil, fiquei cinco dias lembrando de pegar a bola dentro do gol. Teve até um lance que eu me agarrei na rede e falei "Meu Deus, o que é que eu estou fazendo aqui? Está acontecendo isso mesmo?" - recordou.

Antes de ingressar na carreira de jogador de futebol, Aderllan chegou a fazer alguns bicos como segurança, mas não imaginava que marcar Messi, Suárez e Neymar pudesse ser mais difícil do que controlar os ânimos do público em um show:

- Eu tinha falado que era mais fácil marcar o trio, mas não é não. Ser segurança, você ainda dá um jeito, fala alguma coisa, os caras respeitam, mas no trio, você dá pancada neles e não adianta, quanto mais você bate, mais eles vêm pra cima. Quando você está de segurança, você ainda tem a ajuda da polícia, ali não, a polícia não ajuda em nada.

Esses duelos contra os craques e contra o Barcelona não serão apenas motivo de tristeza para o zagueiro, pelo contrário, serão contados com orgulho para as próximas gerações.

- Tive a oportunidade de acompanhar de perto, os caras são muito entrosados. Agora eu sei, eles são tudo aquilo mesmo, tudo o que você pensa, eles são. Mesmo o 7 a 0, eu posso contar com orgulho aos meus filhos, aos meus netos, contar que assisti àqueles jogos, que tive oportunidade de estar em campo com aquele trio e eles não vão acreditar, vão acreditar porque vou mostrar no Youtube ou no DVD.

Esse foi um dos cartões de visita que Aderllan recebeu em sua primeira temporada no futebol espanhol, ao ser contratado pelo Valencia após boa passagem pelo Sporting Braga, de Portugal. Apesar de ter vivenciado uma má fase de seu clube, ele avaliou positivamente o ano:

- A experiência foi boa, independentemente da equipe ter ficado em 12º no Espanhol, de não ter conseguido os objetivos, posso falar que os diretores e uma boa parte da torcida aprovaram a minha contratação, posso falar que eu estou feliz e contente pelas minhas atuações, claro que é melhorar a cada dia, mas a fase também não ajudou em alguns jogos e a avaliação foi positiva - comemorou.

O Valencia iniciou 2015/2016 com a expectativa elevada, uma vez que disputaria a fase de grupos da Champions League. No entanto, a precoce eliminação aliada a três treinadores diferentes durante a temporada foram fatores determinantes para o restante da temporada.

- Fomos eliminados e a temporada foi mais do mesmo, fomos arrastando, arrastando, até o jogo contra a Real Sociedad. Tomamos gol no último minuto. O resumo da temporada foi esse gol. Começou mal, acabou mal. Menos mal que não descemos de divisão - comentou.

Para a próxima temporada, Aderllan recebeu algumas propostas de outros times europeus. A imprensa portuguesa chegou a noticiar um possível interesse do Porto no futebol do brasileiro, mas nada foi concretizado e o Valencia é o único foco por enquanto.

- Continuo no Valencia, estou confiante para a próxima temporada, ainda tem que saber quem será o treinador, se vai continuar o mesmo, porque se vier outro treinador, começa do zero - finalizou.

CONFIRA UM BATE-BOLA COM ADERLLAN SANTOS:

Você acha que as trocas de técnico foram prejudiciais?


Muito, isso foi um dos pontos cruciais aqui nesta temporada. Muitas trocas, foram três treinadores. Normalmente, quem troca tanto assim, desce de divisão. Conseguimos salvar a equipe, estávamos mal ali, estávamos a três pontos da zona de rebaixamento. Conseguimos fazer dez pontos na reta final e quando chegamos a esses dez pontos, nós jogadores já estávamos saturados da temporada que foi muito difícil.

Como foi o trabalho com Gary Neville?

Houve momentos em que a equipe assimilou as ideias dele, mas eu acho que não teve a ver com treinador, poderiam trazer Mourinho ou quem fosse, acho que iria dar no mesmo. A equipe já estava perdendo jogos que eu não sei explicar. Ele até tentou, deu oportunidade para todos os jogadores, diversos esquemas táticos, 4-3-3, 4-4-2, 3-5-2, todos os possíveis. Tentou, não conseguiu.

E a relação com a torcida do Valencia?

Olha, vou te falar que a torcida cobra muito, dá até para comparar com o Corinthians aí no Brasil. Ela cobra, vai lá no CT, cobra de alguns jogadores, vaia, querendo ou não, isso é difícil para o jogador, joga em casa, mas parece que está jogando fora, difícil. Eles estão acostumados a ganhar, esse ano foi diferente para eles.

Sentiu muita diferença do futebol português para o espanhol?

Sim, muitas. Por exemplo, se você joga com o último, ele não vai jogar se defendendo, vai atacar também, não tem essa, não. Se estiver 1 a 0, na maioria das vezes se fecha, aqui não, eles vão atacar para tentar o segundo. Por isso que temos muitos gols aqui na Liga Espanhola.