Gabriel Carneiro
14/10/2016
07:00
São Paulo (SP)

A história do goleiro Ravi, que o LANCE! começou a contar em março deste ano, sofreu uma importante reviravolta nas últimas semanas. Após quase um ano desempregado, período em que equilibrou as contas dirigindo um carro da Uber pelas ruas de São Paulo, o jogador de 22 anos retomou a carreira profissional e assinou contrato com o Sertanense, de Portugal. O jovem brasileiro formado nas categorias de base do Corinthians já está à disposição de sua nova equipe, que disputa uma espécie de Terceira Divisão do campeonato nacional, mas é importante celeiro de talentos para os grandes clubes do país.

Ravi foi vinculado ao Corinthians entre 2001 e 2015, tendo sido eleito melhor goleiro do mundo sub-17 em 2011 e vencido a Copa São Paulo de Juniores do ano seguinte. Em abril do ano passado, no entanto, o contrato terminou e nada ocorreu como planejado. Houve chance de defender clubes como Ituano, Ceará, Capivariano e até o Paulista de Jundiaí, na cidade onde nasceu, mas nenhuma das negociações deu certo. Foi neste período de indefinições que Ravi viu "a situação apertando" e iniciou os trabalhos como motorista particular.

Por coincidência, uma das corridas de Ravi pela Uber foi do CT Joaquim Grava em direção à redação do LANCE!. Pouco depois, em entrevista exclusiva, o goleiro contou sua história de vida e seu sonho por retomar a carreira profissional. "Infelizmente não dá para saber quando, mas espero que logo logo a gente volte à ativa, eu ganhe meu espaço de novo e faça minha carreira subir de novo, construir a história que eu sempre sonhei", disse o jogador, naquela oportunidade. Agora, a chance apareceu.

- Acredito que a repercussão de minha história fez que com as portas se abrissem para eu chegar aqui em Portugal, pois algumas pessoas daqui já tinham ouvido falar sobre mim por terem visto a história em algumas mídias daqui. E depois de ter chegado o Sertanense quis me conhecer melhor e ofereceu o contrato para que eu ficasse - diz Ravi, que assinou até o fim desta temporada européia, em maio de 2017.

Ravi foi com a cara e a coragem a Portugal a convite de empresários que queriam analisar seu potencial. Hospedado em uma pensão próxima da cidade do Porto, fez amistosos e testes em alguns clubes. Uma das avaliações, em que foi aprovado, foi no clube da vila de Sertã, onde ele tem perspectiva de disputar dois torneios nacionais, sendo um equivalente à Terceira Divisão do país e outro que é como se fosse uma Copa do Brasil. Aprovado, ele voltou ao Brasil para tirar o visto de trabalho, em processo que demorou entre 20 dias e um mês, e viajou de vez à Europa no finzinho de setembro.

'O que eu mais gostei foi perceber que a gente depende só de nós mesmos para alcançar os objetivos. Isso é independente da profissão. Dedicação não depende da profissão em que você está. A gente tem que correr atrás, com paciência e dedicação', diz Ravi, após período como motorista entre Timão e Sertanense

Era definitivo. Os dias de motorista da Uber haviam acabado.

- Esse período serviu demais para o meu amadurecimento. Aprendi a ver as coisas de outras formas, conheci pessoas, histórias, tive oportunidades que nunca tinha tido. Mas o que eu mais gostei foi perceber que a gente depende só de nós mesmos para alcançar os objetivos. Isso é independente da profissão. Dedicação não depende da profissão em que você está. A gente tem que correr atrás, com paciência e dedicação - reflete o jogador.

Enquanto se mantinha com a renda da Uber, Ravi não deixou o sonho de lado. Ele se manteve em atividade três ou quatro dias na semana na academia de goleiros Muralha, em Jundiaí - a escola é do goleiro Victor, do Atlético-MG. Lá, ele até auxiliou em treinamentos dos mais jovens e manteve a forma até a maratona de testes em Portugal. Ah, e ele também é formado em marketing, algo que o ajudou nos tempos de motorista. E que ele não esqueceu na retomada da carreira para "promover" seu logo desafio.

- O Sertanense é uma equipe que tem história, sempre revela jogadores para as principais ligas e está com um projeto muito bom para esta época - diz, usando "época" em vez de "temporada", como se faz no português de Portugal.

As ruas de São Paulo perderam um motorista cinco estrelas. Os gramados de Portugal receberam um jogador que fará de tudo para agarrar a sua chance.