Luiz Fernando Gomes
28/06/2016
17:57
São Paulo (SP)

Messi, muito diferente do rival Cristiano Ronaldo ou do “hermano” Maradona, nunca foi um ser midiático. Sua habilidade de gerar factóides e atrair holofotes é inversamente proporcional ao talento que tem com a bola nos pés. Sua vontade de entrar em polêmicas ou de expressar opiniões sobre o que ocorre além das quatro linhas é a mesma demonstrada por uma criança diante de uma salada de nabo.

Por isso, é um exagero achar que as declarações do camisa 10 naquela fatídica e dolorosa noite de domingo em New Jersey tenha tido qualquer outro significado além do desabafo magoado de quem acabara de perder um pênalti, isolando pelos ares não apenas a bola, mas o sonho argentino – quase uma obrigação - de sair da fila de duas décadas sem um título relevante.

Naquele momento, tudo aquilo era tão somente isso: um desabafo.

Passadas 72 horas de ter soltado a bomba de sua precoce aposentadoria da seleção, contudo, o melhor do mundo continua calado. Recebeu um telefonema do presidente Macri, cartas e mais cartas emocionadas de fãs; ouviu apelos de ex-jogadores e personalidades, leu manchetes de solidariedade e pedidos de reconsideração nos principais jornais esportivos de todo o planeta. E mantém a boca fechada.

A intenção pode até não ser essa. Mas esse silêncio de Messi talvez seja o que de mais engajado, politizado e reformador ele já tenha feito ao longo de sua já não tão curta carreira de boleiro. A incerteza que paira sobre o seu futuro – e de companheiros como Aguero, Mascherano, Higuaín, Biglia e Lavezzi que deixam no ar a possibilidade de segui-lo - tem levado os argentinos a uma discussão tardia sobre a fragilidade estrutural de seu futebol, especialmente da AFA – uma entidade que I-NA-CRE-DI-TA-VEL-MEN-TE consegue ser ainda pior, mais podre e autoritária do que a nossa CBF.

Não é por acaso que a crise aberta por Messi tenha sido chamada de Tsunamessi em artigo do jornalista Antonio Serpa, no diário esportivo Olé. Ainda que o próprio Messi tenha dito ao jornal que sua decisão de parar e as reclamações que fizera na véspera nas redes sociais, detonando a organização da AFA, sejam coisas isoladas, dissociá-las é algo impossível. E seria polticamente incorreto fazê-lo. É Serpa quem diz: “quanto a política não há inocentes. Messi já é um homem, com a cabeça bem posta e que conhece perfeitamente o valor que tem suas atitudes de suas palavras”.

É difícil crer que aos 29 anos Messi não voltará a vestir a camisa alvi-celeste. Resta saber o quanto está disposto a cobrar por sua volta, em favor do futebol argentino. O quanto, mesmo sem ter pensado nisso, será capaz de influir, com o peso de seu nome e de seu talento, com sua liderança junto aos outros jogadores, para exigir mudanças que possam levar a Argentina ao lugar que, assim como o Brasil, deve ter no cenário internacional.

Os hermanos tem vantagens sobre nós. Não vivem uma crise técnica – a escola argentina continua admirada, seus treinadores são disputados pelo mundo, ganham títulos. O problema está nos gabinetes, na má gestão. Nós, além de uma CBF suspeita e incompetente (e muito por causa disso) ficamos para trás também dentro do campo, não temos mais um estilo, um jeito de jogar. A escola brasileira não assusta mais ninguém, temos de começar pela base.

Por aqui, temos desperdiçado oportunidades. O Bom Senso que surgiu promissor, minguou ao invés de crescer. Por vezes acovardou-se. Tite assinou um manifesto contra a CBF, pediu a saída de del Nero e aceitou o convite para ser técnico. Bandeira de Melo ameaçou levar o Flamengo a romper com a CBF e acabou chefe de delegação. Nossas tsunamis viraram marolas. Que a Tsunamessi não perca sua força. Pode inspirarmos também.