Time dos Refugiados

Atletas africanos jogam pelo Koa Bosco, na Calábria (ITA) (Foto: Reprodução/Facebook)

Alex Sabino
23/11/2015
08:50
São Paulo (SP)

A cada domingo, o senegalês Mansour Mbaye deixa o container onde vive, na cidade italiana de Rosarno, na Calábria, e vai para o bairro de San Ferdinando. É o melhor momento da semana não apenas para ele, mas para outros 15 imigrantes africanos que passaram a chamar a região de “lar”.

- A mudança na vida deles não foi econômica, mas de autoestima. Passaram a acreditar que pode acontecer algo de bom no futuro - disse ao LANCE! Domeninco Magala, um dos fundadores e diretor do Koa Bosco.

A equipe foi criada em 2013 e reúne apenas refugiados africanos. A Calábria é uma das portas de entrada para os imigrantes que fazem a arriscada travessia pelo Mar Mediterrâneo em barcos improvisados. Os dados da ONU apontam que 1.850 pessoas morreram apenas em 2014 tentando fazer essa viagem. Alguns poucos, como Mbaye, vivem em containeres montados pelo governo italiano. A maioria tem de se virar em barracas improvisadas.

Em maio deste ano, o Koa Bosco conseguiu o acesso para a Segunda Categoria regional da Calábria. Está agora na sétima divisão do futebol italiano. Pode parecer um feito de pouca importância, mas que ninguém diga isso para os jogadores-imigrantes que quando têm sorte, arrumam emprego para colher frutas nas fazendas das redondezas.

- As dificuldades são tão grandes que ter conseguido o acesso foi algo inacreditável. Não gosto de usar esta palavra, mas foi realmente um milagre -  completa Magala.

O dirigente afirma que há o temor de que a intolerância cresça após os ataques terroristas a Paris há cerca de duas semanas. A Itália é um dos países que mais recebem refugiados e pleiteia que outras nações da Comunidade Europeia façam o mesmo. Nem todos aceitam de bom grado.

O clube consegue se manter com doações. O presidente é don Roberto Meduri, pároco da cidade. São feitas arrecadações para custear as viagens. Moradores de Rosarno colaboram com quantias em dinheiro e doações de alimentos. Os uniformes foram cedidos por um empresário da região, dono de equipe de basquete.

Entre os imigrantes, atuar pelo Koa Bosco se tornou uma espécie de válvula de escape. No último período de testes para novos jogadores, mais de 300 pessoas se inscreveram.

O futebol se torna uma tábua de salvação para eles. 


- Eles têm dificuldade com a língua, em arranjar emprego e não conseguem se inserir na vida social. O futebol se torna uma tábua de salvação - observa Magala.

Não que seja fácil. Durante as partidas, não é raro os refugiados serem alvo de racismo de adversários e torcedores. Mesmo em Rosarno, há moradores que se opõem à presença da equipe. Em março, jogo contra o Vigor Paravati teve de ser abandonado por insistentes ofensas racistas vindas das arquibancadas. Foi uma das poucas vezes em que os jogadores do Koa Bosco perderam a esportiva e quiseram tirar satisfações. A Federação Italiana deu a eles os pontos da partida.

Em outros confrontos fora de casa, o ônibus da delegação foi apedrejado.

- Infelizmente, acontece. Mas temos de seguir adiante e jamais abaixar a cabeça quando encontramos pessoas ignorantes - afirma o diretor.

Na sétima divisão, o Koa Basco não tem por enquanto o mesmo sucesso. Está em 11º, sem grandes perspectivas de novo acesso. Não que esta seja a prioridade para os imigrantes de Gâmbia, Senegal, Gana, Mali, Burkina Faso, Costa do Marfim, Sudo e Togo que formam o elenco da equipe italiana.

O objetivo principal é sobreviver.

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 (Foto: Reprodução/Facebook)


MOBILIZAÇÃO NA ITÁLIA 

A história do Koa Bosco de refugiados chamou a atenção dentro da Itália. O checo Pavel Nedved, ídolo da Juventus, convidou o elenco para conhecer o museu da equipe de Turim, a mais vencedora do futebol nacional, dona de 31 títulos da Série A.

A imagem do clube foi usada pela federação para combater o racismo no futebol. Alguns jogadores até receberam promessas de testes em outros times. Não se concretizaram até agora.

- Nossa preocupação é conseguir um financiamento que ajude o clube a sobreviver com menos dificuldade -  afirma Domenico Magala.

Entre todas os times que disputam a sétima divisão, o Koa Bosco é a única que não tem patrocínio de camisa.

O pequeno clube calabrês tem a missão também de curar feridas locais. Um dos motivos para a criação foi que, em 2010, dois imigrantes africanos foram baleados em Rosarno, o que fez crescer a tensão entre refugiados e calabreses. Conflitos resultaram em mais 50 feridos.

- A história de vida de cada um é diferente. O que eles têm em comum é a vontade de jogar futebol e recomeçar a vida. Não é fácil - constata o dirigente, citando que a crise econômica que caiu sobre a Europa ainda é forte na Calábria. Cerca de 20% da população ativa está desempregada.

Raio-X do clube

Nome: ASD Koa Bosco
Cores oficiais: Azul, verde e amarelo
Fundação: 2013
Cidade: Rosarno
Títulos: Acesso para a segunda categoria da Calábria (7a divisão)
Artilheiro na temporada: Mansour Mbaye - 3 gols

Bate-Bola

Don Roberto Meduri
Fundador do Koa Bosco

Quais as dificuldades que o clube enfrenta?
Como equipe de futebol, temos as dificuldades que qualquer um que está na categoria amadora enfrenta. Por serem imigrantes os nossos jogadores, temos problema adicionais.

Por exemplo.
Temos de providenciar tudo. Equipamentos, uniformes, alimentação... Tudo. E ainda alimentar o sonho deles.

E o preconceito de outras torcidas?
É algo que temos de enfrentar. Podemos esperar que com o tempo as pessoas vejam que são refugiados que precisam de ajuda.

Mas na última temporada, o Koa Bosco teve problemas em alguns jogos.
Alguns adversários tentam criar confusão. Mas não vamos nos deixar levar por isso. A vida segue.