Alexandre Guariglia
01/11/2016
07:45
São Paulo (SP)

Felicidade é a palavra que define a vida de Caio, ex-talismã do Botafogo, atuando pelo Al Wasl, dos Emirados Árabes Unidos. Adaptado e em uma duradoura boa fase, o atacante de 26 anos não quer nem pensar em deixar o país e, principalmente, Dubai, cidade pela qual se encantou desde a sua chegada, em 2014.

- Dubai é uma cidade maravilhosa, muito fácil de viver, tem tudo do bom e do melhor, shoppings, várias coisas... Costumo dizer que nunca tive dificuldade para morar em Dubai, estou indo para a minha terceira temporada aqui, no clube nunca tive problema, sou um cara bem tranquilo, gosto de fazer amizade, graças a Deus todo mundo gosta de mim, tenho vários amigos - afirmou, em entrevista ao LANCE!.

A adaptação rápida foi facilitada por um fator que a maioria dos jogadores brasileiros veem como obstáculo: a língua. Caio fala inglês fluente desde pequeno, já que aos dez anos se mudou para os Estados Unidos com os pais.

- Pra mim foi bem tranquilo, morei fora do país quando era pequeno, fui com dez anos para os Estados Unidos, falo inglês fluente, não tive muita dificuldade quando cheguei aqui, porque a grande maioria dos árabes fala inglês, então facilitou bastante. A língua, que poderia ser fator complicado para muitos jogadores, para mim facilitou 100%.

A experiência de morar fora do país e se adaptar às adversidades encontradas pelo caminho deram a Caio uma habilidade maior para se virar e caminhar conforme os obstáculos, no entanto, o período no futebol dos Estados Unidos fez com que ele ficasse atrasado em relação à formação esportiva de seus colegas no Brasil.

- Tive que correr atrás quando eu voltei ao Brasil, porque o nível lá era bastante atrasado. Eu tinha 16 anos, tive que praticamente recomeçar minha base e quem joga futebol sabe que você tem que começar bem cedo, passar por todas as categorias. Então, tive que trabalhar duro mesmo, porque perdi alguns anos e estava atrasado em relação aos outros jogadores. O Volta Redonda me ajudou bastante nisso, o Botafogo completou esse trabalho e aí dependeu mais de mim mesmo.

Em 2010, atuando pelo Bota, Caio recebeu o apelido de Talismã por fazer gols importantes na Taça Guanabara. Sob o comando do técnico Joel Santana, marcou três vezes em três oportunidades que foi escolhido pelo comandante para entrar em campo. Em uma delas garantiu a vitória e a vaga à final do torneio na semi contra o Flamengo.

Quatro anos depois, a chegada do jogador ao futebol dos Emirados Árabes Unidos se deu após sua boa passagem pelo Vitória, em 2014, seu último clube no Brasil. Os cinco gols no Brasileirão daquele ano chamaram a atenção dos dirigentes do Al Wasl, que contrataram um jogador preparado para encarar o desafio de atuar pelo futebol local.

- Eu sabia que os estrangeiros que vêm para cá acham que são eles que vão fazer a diferença nos jogos, mas chegando aqui é exatamente o contrário, os times que tiverem os melhores locais levam muita vantagem. Então, eu vim pra cá focado, pensando que seria o desafio mais difícil da minha carreira, acho que foi isso que me ajudou a ter sucesso aqui.

Atualmente, o Al Wasl ocupa a terceira posição na tabela do campeonato nacional, situação que dá ao clube uma vaga na Liga dos Campeões da Ásia, um dos grandes objetivos de Caio na temporada.

- Como objetivos pessoais, sonho em ser artilheiro, em fazer muitos gols, ganhar algum título para ficar na história do clube, porque não adianta fazer muitos gols e não conquistar nada. Esses são meus objetivos, além de tentar levar o time a disputar a Champions da Ásia, porque a gente não consegue há bastante tempo.

Realmente, Caio tem feito muitos gols pelo time do Oriente Médio. São 42 tentos em 72 jogos, média de mais de um a cada duas partidas. O desempenho dentro de campo é resultado de sua felicidade fora dele, algo que ele não esconde e faz questão de reafirmar para justificar sua permanência e seu foco nos objetivos do clube.

- Eu estou bastante feliz, até porque as coisas estão se encaminhando muito bem. Neste momento, meu pensamento é todo no Al Wasl e em fazer uma boa temporada novamente. Tenho mais quatro anos de contrato aqui, estou muito feliz tanto financeira quanto profissionalmente. Estou bem satisfeito, sei da responsabilidade que carrego, minha família inteira depende de mim, então estou bem tranquilo - finalizou.

BATE-BOLA - CAIO - ATACANTE DO AL WASL (EAU)

Ainda sente algum tipo de dificuldade no país?

A galera não consegue falar comigo, é uma confusão danada para ligar. É meio complicado, mas não tanto. Com a minha esposa, por exemplo, eu falo por Whatsapp, o que facilita bastante. Para ligar fica bastante caro, não tenho conta de telefone aqui, então prefiro colocar crédito, até para me controlar também. Meus pais e todo mundo com que eu falo tem celular e o Whatsapp está salvando, sempre pelos áudios consigo matar a saudade deles. Porque Facetime também não pega, nem Skype.

Sua esposa não está morando com você?
Quando eu volto de férias, normalmente, viajo para a pré-temporada com o time, então para ela não ficar sozinha aqui durante um mês, 45 dias, eu prefiro que ela fique no Brasil, junto com a família dela. Neste ano eu tive um problema com a documentação do meu cachorro e ela acabou ficando um pouco mais, mas quando ela está aqui, sem dúvidas, é muito melhor para mim, porque minha alimentação melhora, pra te falar a verdade eu não gosto muito de cozinhar, não (risos). A companhia dela também, sem palavras, menina que ajuda bastante na minha vida inteira, inclusive na profissional, mas nos próximos dias ela estará de volta.

Sente alguma diferença em relação aos treinamentos no país? É defasado?
Defasado não, mas eu também fiquei sabendo disso antes de vir para cá, então já vim bem focado. Se o treino fosse de um só período e bem fraco, a gente procura treinar mais, treinar à tarde. Só que pegamos alguns treinadores que gostam de treinar muito, então já compensava. Neste ano também, trocamos de treinador e treinamos o correto, digamos assim, mas sempre que eu sinto que devo treinar um pouco mais ou algum jogo que eu sinta que eu estava mal fisicamente, procuro sempre ir à academia, em casa tenho alguns aparelhos, o clube fica aberto.

Há cobrança por resultados?
O clube é muito grande, mas teve alguns anos que só brigou contra o rebaixamento, depois que eu e o Fábio Lima chegamos, começamos a brigar lá em cima de novo. Falo eu e o Fábio porque somos os mais velhos hoje no clube. Começou a ser competitivo, respeitado, então eles ficam até tranquilos, porque sabem que a gente vem fazendo um bom trabalho, sabem que não se monta um time da noite para o dia para brigar por título, eles têm bastante paciência, mas a cobrança sempre existe, jogo após jogo, porque sabem que nosso time é muito forte. A cobrança existe em todo lugar, ninguém quer passar vergonha, menos ainda com o investimento que eles fazem. Eles cobram resultado e a gente tem conseguido corresponder à altura.

Qual é a sua relação atual com o Botafogo?
Com certeza o carinho pelo Botafogo existe, foi um clube que abriu as portas para mim mundialmente e nacionalmente, todos sabem da grandeza do clube, eu venho acompanhando daqui, adoro assistir ao Campeonato Brasileiro, vejo que está muito bem, tenho alguns amigos por lá ainda, tomara que continue ganhando e busque essa Libertadores.

Por que não conseguiu uma sequência atuando pelo Internacional?
Eu comecei muito bem, fazendo gols, mas me machuquei contra o Santa Cruz pela Copa do Brasil, fiz um gol e na comemoração acabei quebrando o pé, que eu já tinha fraturado o metatarso, um ano antes, no Figueirense. Quando você joga em um grande clube, com grandes jogadores como Diego Forlán, Scocco, Jorge Henrique, Leandro Damião e se machuca, fica um tempo fora, acaba perdendo espaço. Com a concorrência desses grandes jogadores, pode demorar bastante para recuperar, o que foi o meu caso. Todo jogador precisa aparecer bem, aparecer pra jogar, aí eu pedi para ser emprestado para o Vitória e acabei indo muito bem.