Daniel Bortoletto
09/02/2016
08:51
Enviado especial a Doha (QAT)

A cena rodou o mundo em setembro do ano passado. Pai e filho sírios fugindo da guerra civil que assola ao país. Em um posto policial na Hungria, eles e outras centenas de milhares de refugiados tentam entrar na Sérvia. Durante uma confusão, Osama Abdul Mohsen corre e carrega Zaid. No caminho, uma cinegrafista, de propósito, estica o pé e derruba aquele pai desesperado com o filho no colo. Uma história triste com um final feliz. Após Osama revelar que era técnico de futebol na Síria e que o filho era fã de Cristiano Ronaldo, as portas se abriram. Eles ganharam asilo na Espanha, conheceram o craque português em um jogo do Real Madrid e vivem o início de um conto de fadas.


Na noite de segunda-feira, pai e filho foram os astros da abertura oficial do Congresso Mundial de Jornalismo Esportivo, em Doha, no Qatar. O menino, que começa a falar as primeiras palavras em espanhol, deixa bem claro que no seu coração de fã não existe espaço para mais ninguém.

- Gosta do Barcelona?

No.

- E do Neymar?

Neymar no.

- Então do Messi?

Messi no.

Cristiano Ronaldo?

Ronaldo, sí.

Osama abre um sorriso. Aquele sorriso de pai orgulhoso ao ver um filho feliz. E ninguém mais do que ele deve saber como esse sentimento é forte. Agora ele consegue enxergar um futuro para Zaid e o restante da família.

- Antes era um sonho, agora é a realidade - diz ele, que ainda tenta reunir toda a família. Muitos ainda estão em campos de refugiados na Turquia, à espera de uma oportunidade de se fixar em algum país europeu.

Na Espanha, enquanto aguarda o reencontro com todos os familiares, Osama ganhou o cargo de treinador da equipe sub-16 do Getafe. Entre um treinamento e outro, também dá aulas para o filho. Ele tem certeza de que o pequeno Zaid vai seguir a carreira.


- Ele vai ser um jogador. Zaid gosta de jogar na frente, ser o número 7. Por Ronaldo. Ele só fala dele, todo o dia - explica Osama, que não faz planos imediatos de assumir uma equipe adulta.

Falar sobre futebol parece fazer Osama esquecer um passado doloroso. Para ele, José Mourinho é o melhor treinador do mundo. Pelé é o rei, mas cita Maradona e Zidane como os outros dois da lista de melhores que viu jogar. Sobre o futebol brasileiro, ele pergunta algo que qualquer brasileiro tem dificuldades de responder:

- O que aconteceu naquele 7 a 1? Vi o jogo.

A conclusão de Osama para a vexatória derrota para a Alemanha nas semifinais da Copa é simples. E, para nós, brasileiros, preocupante:

- Brasil não tinha um jogador. Era o Neymar fora.

Por fim, para enterrar de vez o episódio na Hungria, Osama diz perdoar Petra Laszlo, a cinegrafista que o derrubou.

- Eu a esqueci, pois tenho um futuro na Espanha. Tenho minha família.

Levanta-se da mesa, agradece pela conversa, tira mais algumas fotos e vai abraçar o filho. Sem medo do amanhã.