Mário Boechat
04/03/2016
07:30
Pequim (CHN)

Renato Augusto terminou a última temporada campeão brasileiro pelo Corinthians. De quebra, foi escolhido o melhor do campeonato. Por viver o melhor momento de sua carreira, o meia despertou o interesse de alguns clubes, mas acabou se transferindo para o Beijing Guoan, que pagou 8 milhões de euros (R$ 34,6 milhões) ao Timão. O jogador estava diante de uma proposta irrecusável.

Nesta quinta-feira, o técnico Dunga convocou a Seleção Brasileira e Renato Augusto estava na lista, mesmo defendendo um clube do futebol chinês. Em entrevista exclusiva ao LANCE!, o ex-jogador de Corinthians e Flamengo acredita que o treinador da Amarelinha deve ficar atento à Super Liga do país asiático, uma vez que nomes como Alex Teixeira, Gil e Diego Tardelli estão na disputa do campeonato local.

Alguns brasileiros que foram para o futebol asiático acabaram, aos poucos, perdendo espaço na Seleção Brasileira. Como fazer para que seu rendimento obtido no Corinthians seja mantido em território chinês?

Primeiramente tem que manter o trabalho iniciado no Corinthians. Estou sempre em contato com o fisioterapeuta Bruno Mazziotti para continuar com esse trabalho, até porque ele está aqui na China, no Shandong Luneng. E eu consigo me comunicar bem com ele. O trabalho que vinha sendo feito no Corinthians continua, vou procurar me cuidar mais ainda. Mas isso não preocupa como antes, pois jogadores de alto nível estão vindo para cá. O Campeonato Chinês está ficando com um nível maior. Meu pensamento é me manter bem para permanecer na Seleção Brasileira.

Dunga na convocação da Seleção Brasileira para Copa America (Foto: Cleber Mendes/ LANCE!Press)
Dunga chamou Renato Augusto (Foto: Cleber Mendes/ LANCE!Press)

Não teme perder espaço na Seleção Brasileira, com jogos das Eliminatórias e da Copa América por vir?

Vou estar preparado. Fisicamente estarei bem para acompanhar o ritmo dos outros jogadores. Estou mais preocupado em me manter bem para jogar em alto nível.

O Vágner Love, que jogou com você no ano passado no Corinthians, disse que quando foi jogar na China, praticamente renunciou à Seleção Brasileira por saber que o físico e a questão técnica no futebol chinês não eram os mesmos do Brasil. Você acredita que, apesar das contratações que fizeram os times chineses, você pode passar por isso também?

No futebol chinês, não estão apenas contratando jogadores. Estão se reforçando com profissionais para as partes técnica e física. Por exemplo, aqui no Beijing, o treinador é o Alberto Zaccheroni, que foi técnico de todos os grandes da Itália, como Milan, Inter e Juventus, e da seleção do Japão. O clube está melhorando a parte física também. O nosso preparador físico também é italiano, que dá o foco no treino físico. Fisicamente eu vou estar bem, basta saber se o meu jogo vai mudar com isso. Me sinto bem, estou treinando muito bem. Acho que posso manter o meu nível.

Com muitos nomes conhecidos e que estavam sendo convocados, além de estrangeiros, você acredita que o Dunga vai ficar mais atento com o futebol chinês?

Acho que não só o Dunga, mas o mundo inteiro vai se virar um pouco mais para o futebol chinês por ter feito um investimento tão grande, principalmente neste último ano. Vai ser uma coisa natural. Espero que ele esteja de olho, pois terão muitos jogadores que qualidade aqui na China, não apenas brasileiros, mas estrangeiros também, como Lavezzi, Jackson Martínez, Gervinho...

Você acredita que o futebol chinês a partir desta temporada tem condições de chamar a atenção em nível mundial?

Vai acabar chamando porque contrataram jogadores de todos os lugares do mundo. Como exemplo o Alex Teixeira, que o Liverpool fez proposta, havia muitos times na Inglaterra de olho, e veio parar aqui no futebol chinês. Saiu o Ramires do Chelsea, tem o Lavezzi vindo...Então é natural que tenha um pouco mais de visibilidade.

Alex Teixeira - Jiangsu Suning
Alex Teixeira está no Jiangsu (Foto: Reprodução / Twitter)

Você deixou o Brasil mesmo estando no auge no Corinthians e às vésperas de disputar a Copa Libertadores. O desejo de sair do país deixando uma boa impressão também pesou em sua decisão?

A gente sabe que futebol é momento. Eu vivia um momento muito bom, de repente chega uma proposta realmente irrecusável. Você pode achar que pode chegar uma outra depois, mas pode não aparecer nada. Naquela hora, foi uma escolha que precisei tomar, foi bem difícil, mas é o tipo de proposta que você não tem como dizer não.

Tendo sido o craque do Brasileirão, você não acredita que poderia ter vindo boa proposta da Europa?

Quem vai poder garantir isso? Mas acredito que nenhuma proposta da Europa chegaria perto do que me ofereceram aqui. Até tive uma oferta boa do Schalke, já fiquei um pouco balançado. Do outro lado, eu tinha o Tite e um outro fator que pesou também. Acabei recuando um pouco, mas essa da China não tinha como recusar. Mas futebol é momento. Se você não aproveitar... Procurei conversar com muitos jogadores mais velhos, alguns até que já pararam, para poder tomar essa decisão.

A proposta do Schalke chegou para você antes desta do Beijing Guoan. Você pensou em voltar ao futebol alemão, onde já jogou no Bayer Leverkusen?

Eu gosto do futebol alemão. Quando você passa por lá, fica preparado para tudo. Foi o que aconteceu comigo, foi onde mais evoluí e aprendi. Claro que é um campeonato que me encanta, mas estava ainda em dúvida, inclinado a ficar e até renovar com o Corinthians, até chegar essa proposta da China, que foi irrecusável.

Você atuou em um dos principais clubes da Alemanha, o Bayer Leverkusen. No entanto, na Bundesliga, o predomínio vem sendo todo do Bayern de Munique nos últimos anos. Na sua época, os bávaros já dominavam o futebol germânico?

O Bayern de Munique sempre foi o favorito a tudo. Mas peguei uma época muito boa do Borussia Dortmund, que fez grandes campeonatos. Teve um ano que o Wolfsburg estava muito bem também, com Grafite e o Dzeko. Nós fizemos dois campeonatos muito bons também. Em um deles, acabamos em segundo, na frente do Bayern de Munique, com o Dortmund campeão. Mas o Bayern sempre foi o favorito.

Renato Augusto - Bayer Leverkusen (Foto: AFP)
Renato Augusto jogou no Bayer Leverkusen (Foto: AFP)

Quando chegou a proposta do Beijing, você conhecia o clube? Já havia conhecimento sobre jogadores, estrutura?

Eu já sabia que o Zizao tinha jogado aqui, ele acabou saindo no fim da temporada. Sabia que era um time grande, com torcida grande. Sobre a estrutura, não consegui ver muita coisa, pois saímos para fazer a pré-temporada. Mas o pouco que vi percebi que eles ainda estão evoluindo em termos de estrutura. Acredito que daqui a um tempo as coisas podem melhorar ainda mais.

O que te fez se mudar para o futebol chinês? Somente a questão financeira?

A parte financeira pesou bastante, por ter sido uma proposta irrecusável. Você pode pensar na sua família, nos seus filhos. Isso pesa. O contrato é bom, durante três anos. Naquele momento, achei que era a melhor escolha.

Você ficou pouco tempo na China e foi direto para a pré-temporada. Mas nesse período, o que você achou do país?

A gente foi direto para uma outra cidade, depois fomos para Dubai. Fiquei dois ou três dias só em Pequim. É uma cidade muito grande, com bons restaurantes, lugar bom para morar. De uma forma geral, é uma cidade muito boa.

A pré-temporada foi apenas em Dubai? E qual a diferença com relação a treinos? 

Fomos para uma cidade no sul da China, depois para Dubai e, por fim, voltamos para Pequim. Como o treinador e o preparador físico são italianos, os treinos foram do jeito deles. Bastante treino, muito físico. Uma pré-temporada muito forte. No fim que ficou um pouco mais leve.

Muitos times chineses contrataram diversos craques nesta janela de transferências. Mas quem você considera os maiores rivais do Beijing Guoan para esta temporada?

O Guangzhou Evergrande é o time mais forte, investiu bastante e trouxe o Jackson Martínez. Tem o Shanghai SIPG, do Conca, que todos falam que é muito bom. O nosso e o Shandong, mas o outro Shanghai contratou bastante, o Jiangsu trouxe bons jogadores, como o Ramires e o Alex Teixeira. De uma forma geral, será um campeonato bem equilibrado.

Ramires
Ramires também está no Jiangsu (Foto: Reprodução)

Já tem tradutor? Você tem tido mais relação com os brasileiros do time ou já tem algum contato com os outros companheiros?

Relação natural de treino, de conversar no dia a dia. Tem dois chineses que falam português. Você acaba tendo um contato bom. Eles colocam uma mesa mais para os estrangeiros. É uma conversa natural.