Alex Sabino
06/01/2016
08:38
São Paulo (SP)

Tiago Honorio não entendeu quando foi levado para uma pista de atletismo, em Shenzhen, na China. Ele havia chegado alguns dias antes no Shenzhen FC. Esperava que as coisas fossem diferentes por lá, mas não entendeu quando mandaram que desse oito voltas no campo em 12 minutos.

- Se não conseguir, vamos ter de mandá-lo de volta para o Brasil.

Ele achou ser brincadeira. Era sério. No início do século, estrangeiros só eram autorizados a jogar na China se cumprissem a marca estipulada. Não conseguiu? Já era. Chineses até recebiam segunda chance. Gringos, não.

Honorio é ainda hoje o maior artilheiro estrangeiro da história do campeonato local, com 67 gols em 155 partidas. Um dos brasileiros desbravadores do mercado chinês, ele chegou em 2000 ao país. Uma época em que o teto salarial era US$ 30 mil. Um valor considerado alto para os padrões nacionais.

- Eram poucos os que ganhavam isso, na verdade. Apenas os jogadores que chegavam para fazer a diferença. Decidir os jogos – afirma o ex-atacante hoje com 38 anos.

A China hoje se tornou o eldorado para os boleiros. Elias e Renato Augusto, por exemplo, foram tentados por ofertas salariais superiores a R$ 2 milhões mensais. A fascinação pelos brasileiros está em alta no futebol de lá. Era a mesma admiração que Marmelo recebeu ao desembarcar no país, em 1995. Mas com bem menos dinheiro.

- Eu, Marcos e Fabiano éramos jogadores do Bonsucesso e apareceu um empresário que nos levaria para a China. A gente não sabia o que esperar. Fomos os pioneiros. Era para eu ficar apenas seis meses, para ajudar o time (Sichuan Guacheng) a sair do rebaixamento. Fiquei oito anos – afirma o ex-atacante de 43 anos que hoje mora em Cabo Frio, no Rio de Janeiro

Nos últimos meses, clubes chineses, turbinados por investimentos milionários, levaram jogadores de seleção brasileira, como Jadson, Diego Tardelli, Luis Fabiano, Paulinho, Robinho, Ricardo Goulart e técnicos como Luiz Felipe Scolari e Vanderlei Luxemburgo. A lista não para de crescer.

VEJA FOTOS DE TIAGO HONÓRIO NA DÉCADA DE 1990

A China disputou apenas uma Copa do Mundo até hoje. Foi em 2002, no torneio sediado por Coreia do Sul e Japão. Perdeu as três partidas que disputou na primeira fase. Uma delas, para o Brasil. A economia que enfrenta risco de crise, mas que tem sido a de maior crescimento no mundo na última década, tem no presidente Xi Jinping um fanático pelo futebol.

- Quando cheguei lá, o plano era fazer o mesmo trabalho que havia sido realizado no Japão. Mas eles não tinham dinheiro. Agora, pelo jeito, tem– completa Marmelo.

A comissão técnica que Vanderlei Luxemburgo fez os dirigentes contratarem para o Tianjin Quanjian é composta por dez profissionais. Todos brasileiros. O clube, que disputa a segunda divisão chinesa, financia pré-temporada de um mês no resort favorito do técnico, em Atibaia, interior de São Paulo.

- Isso mostra que talvez eles estejam permitindo uma cultura externa entrar. Havia a mentalidade de querer evoluir, mas dentro dos padrões deles. Tanto que no meu tempo chegavam alguns técnicos brasileiros, mas os auxiliares chineses é que mandavam. Quem mandava era eles, nunca o estrangeiro – explica Tiago Honorio, que atualmente vive nos Estados Unidos com a mulher e os filhos.

Os pioneiros reconhecem que o nível do futebol era ruim. Honorio diz que continua baixo. Eles admitem que a estrutura, mesmo no tempo das vacas magras, era boa. Assim como a hospitalidade dos chineses.

- Nunca tive qualquer problema com eles. O povo é carismático, acolhe você bem, faz com que se sinta querido. Eu cheguei a cogitar não ir. Ainda bem que fui porque morar e jogar na China foi uma grande experiência, em todos os sentidos – garante Marmelo.

Até na comida, o grande tabu cultura do ocidental que vai para o país da Grande Muralha. Quando questionado sobre os alimentos exóticos, dá de ombros e diz que qualquer um com mente aberta se adapta facilmente.

- Quando você chega, estranha tudo. Até o cheiro. O segredo é se abrir quando encontra uma novidade. Aos poucos, comecei a experimentar a comida deles e me dei muito bem. Hoje em dia, isso nem é problema porque você acha comida de vários países. Até brasileira. Jogador que fala que não se adaptou a algum país por causa da alimentação, é porque não jogou nada – completa.

Não é um desprendimento fácil. Outros jogadores que foram para a China antes do boom financeiro relatam repetidas refeições em fast food simplesmente porque era impossível se acostumar com a cozinha local. Outros dirigiam até Hong Kong para encontrar supermercados com produtos ocidentais.

- Na minha época, era muito difícil e não creio que hoje seja muito diferente. Durante seis meses, meu almoço e jantar eram no McDonald's ou no PizzaHut. Todos os dias. Até que um preparador físico apareceu com macarrão brasileiro e fazia toda a semana um panelão imenso de massa. A gente ia comendo aquilo a semana inteira – relata Honorio.

Marmelo ainda hoje recebe convites para visitar o país asiático e participar de partidas comemorativas. A última vez foi em 2012. Honorio saiu em 2010, mas ainda tem comunidades de fãs em redes sociais e recebe mensagens de admiradores. Os dois admitem terem se apaixonado pela China e seu povo.

- Eu amo aquele país. Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido na minha vida. Eu não podia sair na rua que era reconhecido, valorizado. Foi uma época muito boa mesmo – reconhece Tiago Honorio, que se despediu do futebol em 2013, quando estava na Independente de Limeira.

- As lembranças da China são as melhores da minha vida. Eu nunca imaginei que seria ídolo no futebol e lá, eu fui. Só guardo boas lembranças. Em 2006, 2009 eu chegava lá e era reconhecido, as pessoas me paravam na rua e perguntavam se eu não era o Marmelo… Lembro com saudades – finaliza Marmelo, cheio de nostalgia.

Tudo isso por um bom salário, mas que não fazia nem cócegas nos milhões recebidos pelos novos brasileiros no futebol chinês.