Gianni Infantino, presidente da Fifa (Foto: MICHAEL BUHOLZER / AFP)

Gianni Infantino, presidente da Fifa (Foto: MICHAEL BUHOLZER / AFP)

LANCE!
09/04/2016
07:35

Nem bem começou a colocar a cabeça para fora do mar de lama trazido pelo escândalo de propina envolvendo dirigentes da Fifa, e o futebol – assim como a política mundial – fica novamente cercado por interrogações trazidas pelas revelações dos “Panamá Papers”, o vazamento de documentos do escritório de advocacia panamenho Mossack Fonseca, revelando uma série de informações envolvendo o uso de empresas offshore, ou seja, alocadas em paraísos fiscais, onde a parcela de impostos é menor.

Jogadores, como Messi e o brasileiro Willian, e dirigentes (como Michel Platini, presidente afastado da Uefa) aparecem nos documentos, cujo conteúdo está sendo analisado aos poucos pelos integrantes o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ).

Aparecer nos Panama Papers (ainda) não é tão grave quanto ser indiciado pelo FBI por receber propinas. É que o fato de possuir empresas offshore não significa ter cometido um crime, mas pode ser o primeiro passo para ser envolvido em um caso de sonegação fiscal ou lavagem de dinheiro.

– Qualquer pessoa pode ter empresas fora de seu país. Inclusive em países chamados paraísos fiscais, pela baixa carga tributária. Só que isso tem que ser declarado. No Brasil, por exemplo, tem que colocar no imposto de renda – explica Pedro Trengrouse, professor da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro.

O teor dos documentos motivou uma série de explicações durante a semana. O Ministério Público da Suíça chegou a ir à sede da Uefa para colher informações. Sem falar na repercussão entre os políticos. Ou seja, a divulgação dos documentos ligou um alerta no mundo inteiro, e claro, no futebol. Resta saber até onde irão as investigações.

Como a Fifa foi afetada pelo vazamento dos ‘papers’

O vazamento de documentos da Mossack Fonseca já causou efeitos na Fifa. É que um dos citados é o uruguaio Juan Pedro Damiani. Ele renunciou ao cargo no comitê de ética da entidade depois de ter sido revelada uma conexão entre a empresa de advocacia dele e a construção de uma empresa ligada a Eugenio Figueredo, ex-presidente da Conmebol que atualmente está preso por se envolver no esquema de suborno, o “Fifagate”. Damiani também é presidente do Peñarol.

O nome do atual presidente da Fifa, Gianni Infantino, também aparece em documentos datados de 2006. Ele é um dos signatários da venda de direitos de transmissão da Uefa, cujo diretor jurídico era Infantino, para uma empresa Cruz Trading, dos empresários Hugo e Mariano Jinkis, ambos também protagonistas do esquema de suborno da Conmebol/Concacaf. O curioso é que a Cruz Trading revendeu os direitos para uma empresa equatoriana chamada Teleamazonas por cerca de três vezes mais.

Infantino já avisou que não cometeu irregularidades e não foi responsável pelo processo de negociação, atribuindo a função ao departamento de marketing da Uefa.

Com a palavra
"Causa tumulto, mas é preciso investigar
Pedro Trengrouse - Professor do curso de Direito da FGV

Como futebol passa por um momento delicado, isso causa um tumulto, ainda mais que o presidente da Fifa acabou de ser eleito e se deposita muita esperança nele. O que apareceu sobre o Infantino foi uma assinatura em contrato entre a Uefa e uma empresa sediada naquele o país. Não há, na minha opinião, irregularidade, a princípio. Agora, como as empresas offshore e os paraísos fiscais são usados para negócios “pouco ortodoxos”, é obvio que chama a atenção quando há um negócio sendo feito através de um veículo como esse. Sem dúvida, vale a pena dar uma olhada, com cautela, profundidade, mas não indicam, por si só, irregularidades. No caso dos jogadores, é natural, principalmente porque precisam estruturar a vida financeira dele. As empresas offshore são um bom veículo para isso. Mas é preciso investigação.