Melissa Gargalis
06/08/2016
10:07
São Paulo (SP)

"Não posso parar, tenho que continuar sonhando". A frase foi dita por um jovem de 19 anos, artilheiro da última Homeless World Cup, torneio disputado no mês passado em Glasgow, na Escócia. A competição é composta por 64 seleções, que elegem jovens provenientes de zonas de risco e que tem a ideia de dar a eles a oportunidade de construir uma vida diferente, como explica Pupo Fernandes, vice-presidente da Associação Brasileira de Futebol Social e técnico da Seleção Brasileira desde 2004.

- O esporte é uma ferramenta fundamental de transformação do ser humano. Trabalhamos com jovens que precisam de ajuda, que estão em situação de risco, que moram em comunidades e sofrem com problemas como drogas, violência, que não têm quase nenhuma condição - explicou, em entrevista ao LANCE!

O termo Homeless, traduzido para o português, significa sem-teto. A tradução, no entanto, causa certo impacto.

- Nem gostamos de traduzir Homeless ao pé da letra, porque sem-teto pode soar pejorativo. Preferimos usar o termo Futebol Social, afinal, trabalhamos com diversas situações. A transformação é muito grande, mas voltando para o Brasil a realidade é nua e crua, voltam para suas realidades - disse o treinador.

João Vitor Rossi de Souza, o jovem mencionado no início desta matéria, está no último ano do ensino médio e tem a dimensão exata do que esta oportunidade representou em sua vida. Morador de uma comunidade humilde do Rio de Janeiro, ele conta emocionado sobre o sonho que viveu durante sua jornada na Escócia.

"O João que foi (para a Escócia) é um João que tem esperança, que sonha muito e agora acredita nesses sonhos e objetivos"

- Foi uma possibilidade única e riquíssima. Eu não acreditava muito nisso, mas as coisas foram ficando possíveis. Foi um sonho, tive novas experiências, disciplina, ficamos focados e motivados. O João que foi (para a Escócia) é um João que tem esperança, que sonha muito e agora acredita nesses sonhos e objetivos - contou o carioca, morador do Cantagalo, comunidade localizada entre os bairros de Copacabana e Ipanema.

O artilheiro do Brasil pela Homeless World Cup, com 25 gols marcados, também conta que se emocionou ao ouvir o hino de seu país na final diante do México. Apesar do resultado - 6 a 1 para os mexicanos -, que deu ao Brasil o vice-campeonato, João voltou para o Rio com a sensação de dever cumprido.

Para ele, que sofreu com a exclusão desde muito novo, sendo inclusive repreendido por jogar bola na escola, representar o país foi algo marcante em sua vida, e motivo de orgulho para seus pais que nunca deixaram de apoiá-lo.

- Dever cumprido. Chegamos à final, mas independente do placar, gostei de tudo. Acabei me emocionando na partida contra o México. Passou muita coisa pela minha cabeça. Pensei que eu estava representando o meu país, isso me marcou muito. Meus pais se sentiram muito orgulhosos, eles não tiveram essas oportunidades, eu tive - disse, entre longas pausas, emendando sobre seus sonhos:

- Eu pretendo terminar os estudos e correr atrás para ver se consigo uma oportunidade em algum clube. A falta de oportunidade é grande, mas temos que fazer o possível - afirmou.

Além de João, Daniel de La Vega, goleiro e capitão da seleção campeã da Homeless Cup 2016, também relata sobre sua experiência em Glasgow. Aos 26 anos, o arqueiro formado em direito pela Universidade San Carlos, ressalta as amizades que construiu ao longo da competição.

"Tem pessoas que querem fazer algo pelo nosso mundo, porque isso não significa simplesmente uma partida de futebol, compartilhamos todos do mesmo sonho"

- Isso marcou minha vida, foi a melhor experiência. Participei de algo mesmo sendo uma pessoa de origem humilde. Trago de aprendizagem da Escócia que todas as nações são irmãs, fiz muitos amigos. Tem pessoas que querem fazer algo pelo nosso mundo, porque isso não significa simplesmente uma partida de futebol, compartilhamos todos do mesmo sonho - disse o goleiro.

Daniel mora com os pais, é solteiro e tem dois irmãos, sendo uma menina a mais nova. Muito apegado à família, hoje o mexicano é motivo de orgulho, mas nem sempre foi assim.

- Hoje posso dizer que o Daniel de antes era um Daniel sem propósito, que não buscava um futuro, vivia a vida sem preocupação. Com essa experiência, conheci pessoas boas e creio que aprendi a lutar contra meus próprios problemas - contou.

Nascido na cidade mais populosa do México, a Cidade do México, ele revela com convicção que quer deixar esses momentos para trás. Agora, o goleiro conta não quer parar de estudar e seu maior objetivo é conseguir o mestrado em sua área. O sonho é um grande impulso para Daniel, que, após deixar o mundo 'obscuro', como definiu, quer ajudar outros jovens a vencerem na vida.

- Obviamente, meu maior sonho é ganhar na vida. Assim eu poderei ajudar as outras pessoas, acho que posso ser um impulso para elas. Quero seguir jogando futebol, mas também quero estender a mão aos jovens, ajudá-los a mudar suas vidas, mas mostrar que não há nada fácil, que eles precisam lutar por eles próprios. Mostrar que nem as drogas e nem o álcool são soluções para os seus problemas - disse, complementando:

- Sou uma pessoa feliz, com metas e sonhos, mas, sobretudo, sou uma pessoa do bem, que pode ajudar na mudança de muitos - finalizou o goleiro mexicano.

Um pouco mais sobre o Futebol Social e a Homeless World Cup:

Como acontece o processo de seleção dos participantes? Quais são os critérios?
Coordenamos uma rede projetos sociais (Ongs, movimentos comunitários, etc.), que atuam em comunidades carentes de diversas regiões do país. Atividades diversas são realizadas em parceria com eles e anualmente organizamos o Circuito Futebol Social. Cada entidade forma seu times dentre dezenas e centenas de participantes, levando-se em conta critérios sociais e comportamentais. Um dos resultados finais é a formação das seleções brasileiras que jogam a Homeless World Cup e outros torneios internacionais.

Após a disputa dessas competições, o que acontece com os participantes?
Seguem a vida, participando das ações das entidades que fazem parte. Seguramente muito mais motivados, experientes e fortes para enfrentar suas rotinas e buscar seus sonhos.

Há uma agenda de treinos durante o ano?
Com o Futebol Social, fazemos um período intenso de treinamentos e concentração antes dos torneios internacionais que participamos.

Qual é a idade para participar?
O mundial existe somente uma idade mínima que é de 16 anos. Aqui no Brasil, nós trabalhamos com jovens de 16 a 21 anos. Ainda, todo ano nós temos que mudar essa seleção para poder dar oportunidade para outras pessoas.

Como o Futebol Social auxilia para manter esses jovens após os torneios?
Não temos condições. O nosso sonho é conseguir parcerias com escolas, cursos técnicos, escolas de idioma para encaminhar esses jovens, que em 99,9% dos casos, sonham em se tornar atletas profissionais de futebol. No entanto, nós não formamos atletas profissionais, queremos formar cidadãos. Não indicamos ninguém, não temos contato com nenhum clube, eles têm que ir caminhando com as próprias pernas, mas já terão no currículo essa participação em um mundial.

Há casos de sucesso?
Sim, temos casos que tivemos êxitos e esses jovens conseguiram virar atletas profissionais, principalmente as meninas, que esse ano, por falta de condições, não conseguimos levar um time feminino para a Escócia (levaram um time masculino e um misto). Em Brasília, temos duas atletas que já participaram e conseguiram entrar na universidade federal. Queremos ajudar esses jovens, o caminho dos estudos é o melhor, porque isso ninguém pode tirar deles.

*Guilherme Araújo, presidente da Associação Brasileira de Futebol Social, e Pupo Fernandes, técnico da Seleção Brasileira e vice-presidente da associação, contribuíram com as respostas acima.