Muriqui tem nove gols nesta temporada (Foto: Divulgação)

Muriqui comemorando gol pelo Al-Sadd: situação mudou e o brasileiro está fora dos planos agora (Foto: Divulgação)

Daniel Bortoletto
08/02/2016
09:10
Enviado especial em Doha (QAT)

Jogador do Al-Sadd, do Qatar, o brasileiro Muriqui recebeu a reportagem do LANCE! na última semana para uma entrevista. Revelado pelo Madureira, do tradicional bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, o atacante, de 29 anos, fez grande sucesso no Guangzhou Evergrande, da China, e também no Qatar, de onde, ao que tudo indica, está de saída.  Isso porque, na semana passada, o clube dele demonstrou interesse em negociá-lo.

Na conversa a seguir, Muriqui nos conta como está planejando o futuro, da vida confortável que leva em Doha, da possibilidade de voltar ao Brasl e da convivência com o espanhol Xavi. Confira:

1) Na semana passada, o Al-Sadd anunciou, no último dia da janela, que estava contratando um estrangeiro para o seu lugar. Como ficou sua situação?

No dia que aconteceu essa situação, fazia duas, três horas que eu havia acabado de treinar. Recebi uma ligação de um rapaz do clube querendo falar com meu empresário. Mas ele tinha acabado de sair daqui e estava no voo para o Brasil. Estranhei. O meu empresário ligou e explicaram que o clube tinha desejo de me negociar, já que estava quase fora de todas as competições do ano e tenho salário alto. Eles querem recuperar parte do investimento.

2) Você levou propostas para o Al-Sadd durante a janela?

Tinha negociação com a China para voltar. Dois clubes me procuraram: o que acabou de levar Elkeson e Conca (Shanghai SIPG) e um outro. Mas as conversas não evoluíram.

3) No Brasil, impossível um clube brasileiro, com o dólar a quatro reais, chegar perto do que investiram em você.

Esquece, sem chance.

4) Pode ser um problema para você voltar para o Brasil.

Pelo que tenho acompanhado, muitos jogadores estão fazendo o caminho inverso, estão saindo. O dólar está caro e favorece o clube do Brasil que vai vender. Está muito mais fácil vender um jogador para fora do que trazer um cara do exterior para o Brasil. Sei que não é uma negociação fácil, mas é o que eles (Al-Sadd) querem. Eles me colocaram no mercado. Vai ter que acontecer uma negociação. Não sei se amanhã...

5) Planejava a curto prazo o retorno para o futebol brasileiro?

Não. Tenho mais um ano e meio de contrato. Queria terminar essa temporada, abrir mão de um ano de salário e sair livre para arrumar outro lugar. Eles anteciparam as coisas. Situação chata para mim. Não posso jogar, tenho que treinar e esperar a boa vontade deles para aceitarem e me negociarem. Podem bater o pé e não aceitar. Paciência. Não adianta eu me desesperar. Eles também estão numa situação delicada, pois têm que me pagar e não é um salário baixo. Não adianta querer brigar com eles. Quero sair daqui pela porta da frente, não quero brigar com os caras. Me ajudaram muito, cheguei lesionado e eles foram muito corretos comigo. Normalmente isso não acontece no mundo árabe.

6) Você jogou com Xavi e Conca. O que dizer dos dois?

São características diferentes. Dois craques. O Xavi tem uma qualidade de passe grande, Conca também. Xavi vem mais de trás, tipo volante. Conca é meia, com velocidade, dribla. Você nao vê o Xavi driblando dois, três adversários. Ele passa a bola. São dois caras que dispensam comentários.

7) Xavi foi o melhor jogador com quem atuou?

Na história, sim. Mas joguei com o Romário... Romário já no fim de carreira, mas é o Romário.

8) Romário ou Xavi, então?

Romário foi mais decisivo. Ele classificou o Brasil pra Copa de 94, foi o cara daquela Copa. O Romário jogou numa Seleção não tão talentosa como a seleção do Xavi. São situações diferentes. Messi é o melhor disparado hoje, mas será que se jogasse no Real Madrid faria tanta diferença? Romário, com 38 anos (39, na verdade), foi artilheiro do Brasileiro. Acho que foi muito mais decisivo do que o Xavi. Se ele fosse um pouco mais profissional, acho que ele teria uma carreira com proporção diferente. Foi o craque da Copa de 94 e no ano seguinte voltou para o Flamengo.

9) Como era sua relação com o Romário, quando despontou no Vasco?

Eu não sou de falar muito, nem ele. Eu tinha 17 anos, ficava na minha. Ele não falava muito, só com quem tinha mais intimidade. Ele treinava pouco na época, fazia trabalho muito especifico, de finalização. Ele não podia errar. Me chamava a atenção isso, na finalização, já que não tinha mais a mesma velocidade. Tanto que ele foi o artilheiro daquele Brasileiro.

10) E com o Xavi?

O trabalho dele não é fácil aqui. Para escutar, tem que ter humildade. Imagina eu, Muriqui, com Xavi. Há seis meses, ele estava com Messi, hoje está comigo. Olha a diferença! É muito grande, temos que ser realistas. Há seis meses ele ganhou a Champions, levantou a taça. Ele é um cara que tem muita experiência e podia agregar mais do que agrega hoje. Xavi quer ajudar e passar experiência, mas aqui é complicado, a cultura... Eu não culpo nem os jogadores, culpo o clube. Se você contrata quatro estrangeiros com salário lá em cima e os locais (normalmente estudam ou possuem outro emprego) têm salários muito baixos, isso cria um ciúme, inimizade. Às vezes o cara não te passa a bola, não te dá assistência porque acha que você que vai aparecer. Se querem melhorar o futebol, tem que profissionalizar. Tem que dar um bom salário, o jogador não pode ter outro trabalho e jogar. Tem gente que vai na faculdade de manhã e não treina. Tem que partir da federação, do clube... Das pessoas que são responsáveis pelo futebol. Eu entendo os jogadores locais, eles precisam ter um incentivo.

11) Vale a pena para um Renato Augusto, um Jadson, campeões brasileiros, ir para a China?

Eles estão chegando numa situação diferente da minha. Quando saí do Atlético Mineiro, eu era vice-artilheiro do Brasileiro, mas com menos de sete jogos. Não dava para prever o que iria acontecer no decorrer da competição. Eles saíram valorizados, campeões, destaques do time. Não sei quais são as pretensões, por exemplo, do Renato Augusto. Cara novo, 27 anos, estava jogando na Seleção. Não sei o que ele pensa. Mas ele deve estar pensando muito mais na parte financeira do que na profissional. Se eu estivesse no lugar, eu poderia pensar. "Pô, tenho proposta da China e da Europa. Como estou na Seleção, prefiro a da Europa". Mas é difícil falar, pois não sei os números que ofereceram para ele. Devem ser fora do comum.

12) Qual será a principal lembrança do Qatar?

São as pessoas que eu conheci aqui. Poucos lugares eu tive um relacionamento tão bom com as pessoas como o que tive aqui. Na China, tive relação muito boa com Conca, com o Paulão, que é meu amigo. Aqui, fora de campo conheci muita gente e fiz muitos amigos. É o que eu vou levar daqui. É o mais importante. Muita gente pode falar "Você jogou com Xavi, tem bom salário, mora num lugar desse". Para mim não é o mais importante, o que vale mais é ser respeitado e ter bom relacionamento. Vivo como se fosse no Brasil, com churrasco e feijoada."Há seis meses, Xavi estava com Messi. Hoje está comigo. Olha a diferença!".