Daniel Bortoletto
08/02/2016
08:21
Enviado especial a Doha (QAT)

Ao sair da frente da televisão e seguir para a varanda, Muriqui dá de cara com a churrasqueira. Uma daquelas de metal, com uma grelha um pouco engordurada, parecida com a que quase todo mundo já assou uma carne com os amigos no fim de semana. Mas a do atacante tem um grande diferencial: o "papel de parede" que emoldura o equipamento é a Baía de Doha, no Qatar.

É com um visual digno de cartão postal que Muriqui mata as saudades do Brasil enquanto atua no país-sede da Copa do Mundo de 2022 pelo Al-Sadd. Já são quase seis anos longe de casa, desde que decidiu trocar o Atlético-MG, em junho de 2010, quando era vice-artilheiro do Brasileirão, para se aventurar no então pouco conhecido Guangzhou Evergrande, da China. No país que assombrou o planeta na última janela de contratações, com negociações na casa dos 200 milhões de reais por um único atleta, o carioca, agora com 29 anos, teve o prazer de saborear o sucesso, conquistar títulos (quatro campeonatos locais e uma Liga dos Campeões da Ásia) e vivenciar a megalomania dos chineses.

Em 2013, na estreia pelo campeonato continental asiático, o duelo era com Jeonbuk, da Coreia, à época o último vice-campeão. Para piorar, jogo de abertura do mata-mata, fora de casa. O dono do Guangzhou, talvez sem acreditar no potencial do time, prometeu um bicho gordo em caso de vitória na primeira partida internacional do clube. Resultado...

- Recebi 250 mil reais depois daquele jogo. Metemos 5 a 1 neles. O presidente tinha estipulado um valor e mais um outro a cada gol de diferença. Ganhamos oito milhões na moeda local (yuan) para dividir com todo o grupo - relembrou Muriqui, em entrevista ao LANCE! em Doha.

De lá para cá, o atacante passou a ver o mundo de outra forma. Casou-se, viu o filho nascer na China, recebeu sondagem para se naturalizar e defender a seleção e depois saiu consagrado do país por US$ 8 milhões (cerca de R$ 32 milhões pelo câmbio atual). No Qatar, outro mercado emergente e com fama de pagar salários milionários, virou parceiro de Xavi, um dos ícones do tiki-taka do Barcelona e da Espanha campeã mundial em 2010.

A dupla, porém, jogou junta menos do que o esperado. Muriqui passou por duas cirurgias no púbis e ficou quase oito meses sem atuar pelo Sadd. Quando o fez, mostrou ter estrela, marcando gols nas finais da Copa do Emir e da Supercopa, as duas conquistas que juntou ao currículo. O suficiente para ter com o craque, ex-Barça, uma relação que extrapola as quatro linhas.

- No sábado, eu cheguei um pouco depois no clube e ele me mandou uma mensagem, achou que eu já tinha ido embora. Ele mandou a mensagem desejando sucesso, falando que foi muito bom ter me conhecido, como pessoa. Você vê a humildade do cara, respeita todo mundo, não tem vaidade, treina como todo mundo. Todo mundo acha que o Xavi vem para cá pra ganhar dinheiro dos caras. Não, ele vem treina mais que todo mundo, cobra muito quando a gente perde. Hoje eu vejo porque ele venceu tanto na vida, se acostumou a ganhar e não gosta de perder - revela o brasileiro.

Muriqui não receberá mais os passes açucarados de Xavi no Qatar. Apesar de ter mais um ano e meio de contrato, ele foi comunicado pelo clube que está na lista de jogadores negociáveis e já teve até substituto contratado. Enquanto treina com ex-companheiros, está de olho no celular em busca de propostas para países que ainda estão com a janela de contratações abertas:

- Tenho recebido ligações. Do Brasil, principalmente, e dos mercados chinês e japonês. Hoje tudo indica que vou voltar para o Brasil. Pode ser que mude, mas a probabilidade maior é voltar para o Brasil.

E os churrascos com vista para a Baía de Doha passarão a ser apenas uma boa lembrança.