Alex Sabino -
27/06/2016
16:53
São Paulo (SP)

Jorge Messi conta que Lionel sentiu pressão dentro de campo apenas uma vez na vida. Em partida sub-9 pelo Newell's Old Boys contra o Rosario Central, a decisão foi para os pênaltis. O pequeno “enganche”, menor do que os outros da mesma idade, tinha nos pés a última cobrança para fazer seu time do coração ser campeão.

- Ele confessou depois ter sentido o peso de decidir. Era apenas uma criança… E fez o gol - revela o pai.

Na final da Copa América, diante do Chile, sentiu pela segunda vez na carreira. Tanto que, depois da partida, quando apenas conversa com jornalistas do seu país, confessou não ter mais intenção de vestir a camisa da Argentina.

Para Messi, deve ter sido muito mais difícil dizer aquilo do que para os outros jogadores da seleção. Leonardo Faccio, um dos biógrafos de Lionel, o definiu como o sujeito que “morde as palavras antes que elas saiam da sua boca”. Isso significa que o melhor jogador do mundo nos últimos 30 anos dá as piores entrevistas porque não tem a menor vontade de dizer qualquer coisa interessante.

Afirmar a aposentadoria da seleção aos 29 anos foi um sacrifício maior do que seria normalmente para qualquer um de nós, mortais. Expressar-se livremente dessa forma, publicamente, vai contra tudo o que sempre praticou. Mais um indício do nível de depressão a que ele chegou após a perda de pênalti a e a derrota para o Chile em Nova Jersey.

É difícil acreditar que não vai mudar de ideia, mas a “renúncia” dá contornos dramáticos a uma relação que sempre teve mais sacrifício do que amor. Um casamento de mais desconfiança do que lua de mel. Relacionamento deteriorado pelo fracasso.

Após o empate na Copa América de 2011 diante da Bolívia, Messi foi massacrado pela imprensa do país e inaugurou as acusações que se repetiriam no decorrer dos anos. Ele não canta o hino. Não joga tão bem pela Argentina quanto pelo Barcelona. Não é argentino, é espanhol…

- As pessoas não têm ideia dos sacrifícios que Leo fez para jogar pela Argentina. Se soubessem, não falariam tanta bobagem – completou o pai Jorge durante a Copa de 2014.

Messi poderia ter defendido a Espanha. Foi assediado várias vezes e rejeitou a ideia. Alarmado, Julio Grondona, ex-eterno presidente da AFA (Associação de Futebol Argentino), armou um amistoso insignificante, com portões fechados, apenas para que Lionel fosse convocado, jogasse e extinguisse qualquer chance de defender os europeus.

Astro internacional, Messi ainda gravita em torno dos amigos de infância de Rosário, para onde sempre volta nas férias. Sua mulher, Antonella Rocuzzo, é paixão de adolescência, de quando jogava com o primo dela, Lucas Scaglia.

Sensibilizado pelo apoio no meio de uma saraivada de críticas, ele apareceu de surpresa em uma entrevista pós-jogo após vitória sobre a Costa Rica na Copa América de 2011, para agradecer o “carinho de la gente”. Isso aconteceu apesar de não ter feito nenhum gol no Mundial de 2010.

A redenção deveria ter aparecido há dois anos, no Brasil. Messi carregou a seleção nas costas na fase de grupos. Fez quatro gols em três jogos. Mas o técnico Alejandro Sabella percebeu que atacando não chegaria ao título. Mudou jogadores, alterou o esquema e pediu para seu camisa 10 atuar ajudando na marcação, como jamais havia feito na carreira.

- Ele me disse que depois de cada partida, estava tão cansado que a perna pesava 100 quilos – disse Jorge Messi.

Messi poderia reclamar, se rebelar. Era o astro da companhia. O capitão. Aceitou a nova função e não fez mais nenhum gol no Mundial. Foi criticado após a final, perdida na prorrogação.

Milionário, adorado mundialmente e um dos maiores de todos os tempos, Messi foi tomado pela tristeza por causa da seleção. Por mais estranho que possa parecer a quem é tão fechado e “morde as palavras para que elas não saiam”, talvez Lionel queira apenas o carinho de seu povo.