Maxwell é um dos jogadores que mais conquistou títulos pelo PSG (Foto:Franck Fife/AFP)

Maxwell é um dos jogadores que mais conquistou títulos pelo PSG (Foto:Franck Fife/AFP)

Lucas Strabko
20/11/2015
08:10
São Paulo (SP)

Na última sexta-feira, Maxwell assistia a um filme infantil ao lado das filhas quando recebeu mensagens pelo celular de que estavam ocorrendo atentados na França. No dia seguinte, o lateral do Paris Saint-Germain disputaria o "Jogo pelas Crianças", organizado pela Unicef, que reuniu grandes craques do futebol mundial no Old Trafford, o estádio do Manchester United, porém teve que adiar o compromisso e permanecer em sua casa. Apesar dos ocorridos, Maxwell garante que a vida em Paris está tranquila, apesar de resquícios do susto.

- A equipe estava de folga no sábado e no domingo, não alterou nada. Ligaram para saber se estava tudo bem, saber se tinha pessoas conhecidas, saber informações nossas. A gente tem uma vida normal, não mudamos nada. Escola das crianças continuou a funcionar normalmente, mas com mais segurança. Estamos ficando mais no clube, evitando lugares que a gente frequentava algumas vezes, lugares públicos, no centro - conta o lateral, ao LANCE!.

No próximo sábado, o PSG volta à campo para enfrentar o Lorient. E é disso que Maxwell prefere falar: futebol. Mesmo se for para comentar da possibilidade de aposentadoria e do estrelado mundo do esporte, no qual o reservado lateral tece algumas críticas. Hoje aos 34 anos, poucos jogadores possuem um currículo como o do brasileiro. Desde que chegou à Europa em 2001, vestiu "apenas" as camisas de Ajax, Inter de Milão, Barcelona e Paris Saint-Germain.

- Para mim é muito mais do que eu sempre pensei. O Ajax foi o clube que mais me diverti, cheguei novo, era um time muito jovem, me ensinou muita coisa no futebol. Na Inter, me recuperaram fisicamente, foi um clube muito familiar, me deu a oportunidade de jogar. Vivi um momento mágico no Barça. Aqui no PSG estou fazendo parte desse projeto, que é muito bacana, de mudança do clube. O PSG me fez chegar na Seleção, oportunidade de jogar a Copa do Mundo - explica Maxwell.


Momentos após a entrevista exclusiva concedida ao LANCE!, o brasileiro se reuniria com Zlatan Ibrahimovic para um almoço. Não haveria celebração especial. O brasileiro e o sueco são melhores amigos desde os tempos de Ajax. E há uma grande curiosidade na vida de ambos: eles só não jogaram juntos quando Ibra defendeu a Juventus e o Milan. De resto, os amigos não se desgrudam - principalmente quando vão pescar, a atividade preferida da dupla.

- Às vezes a gente faz amizade no futebol, vai para canto diferente e se afasta. Não tem contato diário e fica difícil manter. Vivemos muitos momentos juntos no futebol, desde jovens solteiros no Ajax até hoje com famílias que se gostam. Terei o Ibra para o resto da minha da vida. Já passamos por tanta coisa. Durante o jogo a gente comenta: "Vamos para mais uma, falta pouco, vamos até o final, tamo junto (sic)". Essa coisa de amigo. Nossa amizade é normal, honesta, simples. Ele é um cara família como eu.

E Maxwell garante que não há um Q.I. entre os dois - o famoso "Quem Indica", expressão usada para quem recomenda algum amigo para um cargo profissional.

- Não tem como rolar esse tipo de coisa. São clubes muito grandes, que tem todo um processo de contratação, feito pelos diretores, olheiros. É difícil se envolver nessas contratações.

Porém a carreira de Maxwell não tem apenas alegrias. Convocado para a Copa de 2014 por Felipão - um dos maiores orgulhos de sua carreira -, o lateral pensou em se aposentar dos gramados após a derrota brasileira no Mundial. O baque foi grande, porém os planos de parar já passavam por sua cabeça mesmo antes do torneio. Maxwell continuou jogando, mas não descarta que o fim chegue no meio de 2016, quando acaba o contrato com o PSG.

- O baque inicial foi que você desanima mesmo. A partir daqui, o que vou fazer? O choque que dá da derrota inicial. Depois, com certeza você vai refletindo, as coisas vão aparecendo. Continuei normal, triste. Foi um momento de respirar após a derrota. Eu sempre fiz um planejamento de parar quando eu fosse mais novo, com 32, 33 anos. Depois veio a Seleção, tudo o que eu vivi no PSG, vai levando para frente. Estou refletindo muito. Continuar jogando ou não, vai depender de ofertas, quem vai se interessar. A partir daqui começar outro tipo de trabalho, estou em um momento de reflexão - situa o brasileiro.

Se Maxwell decidir se aposentar mesmo, o novo membro da família Scherrer poderá não vê-lo jogar. Após ter três filhas, o lateral ganhará um menino no início de 2016, que ainda não tem o nome definido.

- Eu achava que a fábrica tinha fechado (risos). Minha esposa está grávida, é menino. Talvez ele não veja o pai jogando - afirmou, sorrindo.

Vida que segue, Maxwell.


Confira a entrevista completa com o lateral do Paris Saint Germain:

Faltou você jogar em algum clube?
Não faltou. Só tenho a agradecer. Jamais pensei passar por esses clubes, jamais pensei ganhar tudo o que ganhei, joguei com jogadores que eram ídolos. É difícil parar para pensar na carreira enquanto está vivendo.

Qual foi o melhor jogador que você atuou junto?
Tem pessoas que marcaram muito. Tem o Figo, o Messi, que não tem jogador igual, o Ibra é muito diferenciado. São três jogadores de qualidade que joguei. Messi foi aquele que é o maior. Vivi um momento na carreira dele muito bom. A gente via as coisas acontecendo todos os dias, Xavi, Iniesta, tinha uma qualidade imensa. Era fácil jogar com ele, tinha uma dinâmica de jogo tão perfeita.

Como é ter jogado somente rodeado de estrelas e ser um cara de perfil tranquilo? Atrapalhou em algum momento?
Eu acho que fui o que sou. Com certeza, de uma ou outra maneira, poderia ter ganhado outros jogos. Jamais teria a consciência tranquila que tenho hoje. Sempre fui correto, com os pés no chão. Eu fui o que sou, não me arrependo do que eu vivi. Com certeza, cometi erros que me fizeram aprender na carreira.

Quais foram os erros?
A gente comete muitos erros quando é novo. Talvez de não se preparar na maneira correta, valorizar a preleção, os trabalhos físicos. Se envolve mais no emocional em algumas situações que te fazem perder a frieza de enxergar o futebol como negócio.

Como você encara estar em um meio cercado de estrelas?
Encaro tranquilo. Hoje conheço um pouco do mundo do futebol, como as coisas acontecem, como as pessoas reagem, a maneira que cada um trabalha e vive no mundo do futebol. Hoje tento lidar de uma maneira muito profissional. Esqueço um pouco o mundo que a gente vive, respeitando todo mundo.

O que é o mundo do futebol?
É um mundo difícil, mundo em que você é exposto desde muito novo, que envolve dinheiro e fama, oferece coisas muito rápidas aos atletas. Tem julgamento todos os dias das pessoas. Às vezes não pensam que o jogador é o maior cidadão normal. As pessoas te enxergam na quarta e domingo e te julgam todos os dias por suas performances sem conhecer você pessoalmente. Toda profissão tem essa dificuldade, tem que saber viver.

Você acha que deslumbrou em algum momento?
Deslumbrado, não, jamais. Meus pais nunca me deixaram sentir diferente do meu irmão, que é dentista. 

Você terá um almoço com o Ibrahimovic após a entrevista. Tem algum motivo?
Especial não é nunca. Como ele chegou de seleção e faz tempo que a gente não se vê, vamos ficar batendo uma resenha, aproveitar que depois a gente vai treinar.

Mas você terá que levar algum prato nesse almoço?
Quando precisa, sim, mas ele não pede nada. Quando vai de barriga vazia, come e vai embora. Quando precisa juntar, a gente se junta. Quando tem que juntar panela, a gente junta. Tem vezes que convida e só vou com a boca disposta para comer (risos).

Por que você decidiu se aposentar da Seleção Brasileira?
Não decidi me aposentar da Seleção, acho que eu sou um cara muito consciente. Cheguei numa idade após a Copa que a Seleção procuraria outros jogadores até chegar na Copa da Rússia. Eu não poderia me aposentar do que tinha acabado de começar. Eu jamais me permitiria.

Você sente que não é reconhecido no Brasil?
Eu acho que tem uma questão muito forte que eu saí muito cedo do Brasil. De maneira alguma eu lido com isso como frustração. Muitos jogadores jovens saem do Brasil. Faz parte da minha carreira, nada que diminua o sentimento que tenho. Jamais olho como coisa negativa.

Você pretende jogar no Brasil ainda?
Eu não fecho portas, vai depender se alguém tem interesse. Só recebi uma proposta do Brasil, de um treinador que gosto muito.

O que achou de ter jogado só a disputa de terceiro lugar na Copa?
Acho que ninguém tinha cabeça naquele jogo, ninguém queria jogar terceiro e quarto. Eu, particularmente, sou muito agradecido ao Felipão. Sempre olho de maneira positiva, ele quis fazer que eu participasse, mesmo sabendo que era um jogo chato de se jogar. Pelo menos pude mostrar às minhas filhas que eu estava participado. Naquele grupo, todo mundo jogou. Para mim, lidei de uma maneira positiva em agradecimento ao Felipão, comissão técnica. O grupo estava sem cabeça para jogar. Não foi uma derrota que valeu muito.

Como você ficou contra a Alemanha?
Fiquei chocado. Visão de que ninguém entendia o que estava acontecendo. Aconteceu muito rápido, time não soube reagir. A gente no banco não tinha reação.

O que você acha que deu errado na Copa?
Uma coisa que eu pensei muito do que aconteceu é que se envolveu muito emocionalmente com tudo o que acontecia no Brasil. A gente teve um apoio fantástico da família, dos amigos. Não teve nenhum jogador que não se envolveria como a gente se envolveu. Faltou pensar o futebol friamente, fazer friamente dentro de campo. Talvez tenha sido o maior erro nosso.