LANCE!
09/02/2017
18:33
Liverpool (ING)

Em documentário produzido pelo Liverpool, o zagueiro Dejan Lovren contou sobre o medo e os problemas da vida dos refugiados. O jogador descreveu como sua família escapou da guerra na Bósnia e pediu para que as pessoas deem uma chance a eles.

- Quando vejo o que está acontecendo hoje, só me lembro da minha vida; minha família e como as pessoas não te querem no país delas. Entendo que as pessoas querem se proteger, mas alguns não têm casas. Não é culpa deles; eles estão lutando por suas vidas apenas para salvar seus filhos. Eles querem ir embora e ter um lugar seguro para suas crianças e seu futuro. Passei por tudo e entendo o que alguns estão passando. Deem uma chance a eles. Você pode ver quem são as boas pessoas e quem não é - disse Lovren.

Lovren descreveu a rotina de mortes do conflito étnico na Yugoslavia: desde o irmão de seu tio, assassinado na frente de todos, até o pai de um amigo de escola, que morreu no combate armado. Além disso, falou sobre como precisou deixar Kraljeva Sutjeska, a vila onde cresceu na cidade de Zenica, e o que aconteceu com aqueles que foram deixados para trás.

- Zenica foi atacada porque era uma cidade maior, mas era nessas vilas menores que as piores coisas aconteciam. As pessoas eram brutalmente assassinadas. O irmão do meu tio foi morto na frente de todos com uma faca. Nunca falo sobre meu tio porque é algo difícil de comentar, mas ele perdeu seu irmão. É difícil.

Lovren - Liverpool
Lovren chegou ao Liverpool em 2014 (Foto: Adrian Dennis / AFP)

O jogador do Liverpool tinha apenas três anos de idade quando a guerra civil, que deixou mais de 100 mil mortos, aconteceu. Como a mudança para a Alemanha aconteceu de repente, seus pais não tinham os documentos que permitiam ficar no país para sempre. Ao contrário de seus avós, que tinham se mudado anos antes.

- Gostaria de poder explicar tudo, mas ninguém sabe a verdade. Apenas aconteceu. Mudou da noite para o dia - guerra entre todos, três culturas diferentes. As pessoas mudaram. Só lembro das sirenes soando. Fiquei muito assustado, porque estava pensando "bombas". Lembro de minha mãe me levanto para um porão, não sei quanto tempo ficamos lá. Depois, me recordo dela, meu tio, a mulher dele, pegamos um carro e fomos para a Alemanha. Deixamos tudo na casa, a loja de comida que tinham, eles deixaram para trás.

Lovren e Fonte - Southampton
Na Inglaterra, ele também atuou pelo Southampton (Foto: ANDREW YATES / AFP)

- Tivemos sorte, eu e minha família. Nosso avô estava trabalhando na Alemanha e, por isso, tinha os papéis. Se não fosse isso, nunca teríamos conseguido. Talvez pudesse ver eu e meus pais em baixo da terra. Não sei o que poderia acontecer. Um dos meus melhores amigos da escola - seu pai era um soldado - e eu lembro que ele chorava todos os dias. Eu me perguntava o porque e ele disse: 'Meu pai morreu'. Então, você sabe, poderia ter sido meu pai.

Ainda no documentário, que tem cerca de 22 minutos, Lovren relembra quando, após sete anos, sua família recebeu a mensagem de que precisaria deixar a Alemanha.

- Minha mãe e meu pai pediam permissão para ficar mais tempo, mas a cada seis meses era negada. As autoridades diziam: 'Quando a guerra terminar, então vocês podem voltar'. Então a cada seis meses tínhamos as malas feitas para ir embora. Era difícil - nunca tivemos um futuro lá.

Lovren e Oscar - Brasil x Croácia
Lovren disputou a Copa do Mundo de 2014 (Foto: PEDRO UGARTE / AFP)

- Então, o dia chegou e eles disseram que tínhamos dois meses para ir embora. Foi difícil para mim, porque tinha todos os meus amigos na Alemanha, minha vida começou lá. Minha mãe disse: 'A Alemanha é nossa segunda casa', e é verdade. O país nos recebeu, não sei qual lugar teria feito isso, naquele tempo, de receber os refugiados da Bósnia.

Então, sua família se mudou para a Croácia, onde lutou para ter dinheiro e passou necessidades. Além disso, ele comentou sobre as dificuldades com a língua e na adaptação. Atualmente, Lovren atua pela seleção croata.

Lovren - Dínamo de Zagreb
Dínamo Zagreb foi o primeiro clube de Lovren (Foto: HRVOJE POLAN / AFP)

- É como se a guerra tivesse acontecido ontem. É um assunto complicado para falar, então as pessoas ainda evitam ele. Minha mãe me disse (antes do documentário): 'Não conte a eles', então eu disse: 'Vou falar'. E ela chorou novamente. Ela se lembra de tudo.

- Espero que seja mais fácil para a próxima geração. Para minha filha e meu filho, talvez eles esqueçam e sigam em frente. Não sei se um dia eles vão entender minha vida e minha situação, o que eu passei, porque eles vivem em um mundo diferente. Quando minha filha quer um brinquedo, algumas vezes digo que não tenho dinheiro. É difícil entender porque estou falando isso, mas preciso que ela saiba que nada vem fácil.