Daniel Bortoletto 
10/02/2016
12:02
Enviado especial a Doha (QAT)

Quarto G10 do bloco 42. É lá que o indiano Mohamad Kalib, de 35 anos, mora. É lá que ele descansa após oito horas diárias de trabalho nas obras de infra-estrutura e instalações esportivas em Doha para a Copa do Mundo de 2022. E lá também que ele tem um pequeno espaço para sentir-se em casa, mesmo há alguns milhares de quilômetros de distância.

Nesta quarta-feira, o Comitê Organizador do Mundial abriu a Cidade do Trabalho para a visitação para a imprensa internacional. O local começou a ser construído em 2012 e foi finalizado no ano passado, sem ter o custo revelado. São 54 blocos com milhares de apartamentos. Cada um tem 24 metros quadrados e abriga quatro pessoas. A maioria, como Kalib, é da Ásia. Segundo os cataris, atualmente são 20 mil pessoas morando no local, mas a capacidade é hospedar até 100 mil nos próximos anos.

Em cada quarto, há espaço para quatro camas, separadas por uma cortina para dar a mínima privacidade, um pequeno móvel com alguns mantimentos, e pequenos varais para pendurar poucas peças de roupa. Banheiro e refeitório são coletivos. No local existe uma clínica médica central e outros espaços menores, em cada bloco, para atendimentos menos emergenciais.

Sem exagero, é possível dizer que os operários da Copa moram em um bairro próprio, localizado 12 quilômetros distante da região mais rica da cidade. No estacionamento, filas de ônibus para levá-los para as diversas obras espalhadas pela região.

Dentro do mesmo complexo foi construído um shopping center, com lojas, restaurantes, na grande maioria de comida asiática, e salas de cinema. Um imenso gramado é usado como campo de futebol pelos fãs de Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar & Cia. Ao lado, foi erguido em estádio de críquete, esporte tradicional e popular no sul da Ásia. O local, novinho em folha, pode receber até 17 mil pessoas e é usado em competições entre operários. Quem prefere algo mais leve pode jogar tênis de mesa em uma área de lazer. A religião não foi esquecida e uma mesquita pode receber quase seis mil pessoas.


Kalib é pintor. Diz receber cerca de US$ 600 por mês, aproximadamente R$ 2.400. Os responsáveis pela administração do local se apressam para dizer que também oferecem toda a alimentação, assistência médica e sistema de transporte. Em tese, ele pode guardar todo o salário que recebe ou enviar para a família na Índia.

O indiano precisa de um tradutor árabe para entender as perguntas. Diz que está morando em Doha há dez anos, após sair de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, outro local em constante expansão no Oriente Médio. Mas sorri, com frequência. Uma imagem que tenta fazer o mundo acreditar que as condições de trabalho no Qatar não tem nada a ver com escravidão.

DIÁRIO DE VIAGEM

"A visita à Cidade do Trabalho já estava prevista desde que saí do Brasil, no sábado. Admito que estava ansioso para conhecer o local, já que a mídia internacional, principalmente a inglesa, vem publicando reportagens sobre péssimas condições de trabalho no Qatar há algum tempo.

O local é imenso, construído em alvenaria, chama a atenção pela limpeza e possui boa infra-estrutura. Nada de morar em um conteiner, comum em obras no Brasil, ou algo parecido com um barraco, como vemos em regiões mais carentes.

Mas encontrar com Mohamad não parecia estar no script da organização. Quando os cerca de 50 jornalistas entraram no local, algumas portas já estavam abertas para que visitássemos os quartos e fizéssemos imagens. A G10, onde vive o indiano, estava fechada. E com os apartamentos "disponíveis" já lotados segui andando. Então um segurança disse que era possível visitar qualquer quarto. Ele abriu a porta, comecei a olhar o local e depois passei a tirar fotos. As camas estavam escondidas pelas cortinas. Abri uma delas para fazer mais fotos. Eis que outra cortina se abre. É Mohamad. A primeira reação dele foi de espanto. O que três estranhos faziam ali? Mas ele permitiu que a visita seguisse normalmente, não fazendo inclusive qualquer restrição para as fotos. E começou a responder algumas perguntas, em inglês.


Aos poucos, mais jornalistas chegaram, já que não existiam outros Mohamads dando entrevista nos quartos. E rapidamente éramos uns oito, espremidos no apartamento. Também chegaram responsáveis pelo local, tentando entender o que se passava ali. Alguns pareciam preocupados, mas não impediram que o encontro prosseguisse. Foram uns cinco minutos ali dentro. Mas suficientes para compreender melhor o cotidiano de um operário nas obras da Copa.

Não existe qualquer luxo. É fato. Mas também está longe de ser uma tragédia humanitária como se vendia."