Catalunha

(Foto: Josep Lago/AFP)

Carolina Lima
02/10/2017
19:58

Política e futebol nunca estiveram tão ligados. No último domingo, o Barcelona venceu o Las Palmas e segue invicto no Campeonato Espanhol, mas o Camp Nou vazio mostrou que o povo catalão tinha outras prioridades. No mesmo dia, milhares de cidadãos foram às ruas para votar num referendo que pedia a independência da região da Catalunha, mobilizando apoio de toda a Espanha.

O movimento separatista, no entanto, foi perseguido pelo governo espanhol e o que se viu nas ruas foi uma verdadeira cena de guerra. Como o referendo é considerado ilegal pelo Tribunal Constitucional da Espanha, forças policiais ocuparam toda a região da Catalunha para impedir a votação, confiscando urnas e cédulas. Em algumas zonas eleitorais, a polícia espanhola entrou em conflito com manifestantes a favor do referendo e usou da força bruta para interditar o acesso de eleitores. Mais de 700 pessoas ficaram feridas, e um homem de 70 anos chegou a infartar durante a confusão e foi hospitalizado em estado crítico.


A situação política da Catalunha não conseguiu se manter afastada do futebol. Os jogadores do Barcelona ameaçaram não entrar em campo no domingo, mas uma possível perda de pontos fez o clube recuar. Após a partida, o zagueiro Gerard Piqué, nascido em Barcelona e voz ativa do separatismo catalão, se emocionou ao falar do movimento pela independência e chorou ao mencionar a ação violenta da polícia para impedir o voto dos catalães. Entretanto, para entender melhor o que se passa na Catalunha é preciso conhecer a história da região e sua ligação com o governo central da Espanha.

Segundo o historiador Matias Pinto, da Universidade de São Paulo, a formação do Estado espanhol é a melhor maneira de explicar os movimentos separatistas que marcam o país, não só a Catalunha como também o País Basco, Andaluzia e Galícia. Territórios anexados durante o reinado de Isabel de Castela e Fernando de Aragão, as regiões floresceram de maneira distinta, cada uma com sua cultura, língua, tradições. Já na era da ditadura de Francisco Franco, entre 1938 e 1973, o país viveu sob forte centralização e perseguição do governo. Assim, a identidade espanhola tanto almejada durante o franquismo nunca foi solidificada entre a população, já que suas identidades regionais eram anteriores ao nacionalismo. E o que isso tem a ver com o futebol?

- Na era franquista, os catalães eram proibidos de falar sua língua em público e viram o campeonato regional da Catalunha ser extinto pelo governo de Madri. Na época, os catalães encontraram refúgio no antigo estádio do Barça, onde podiam conversar livremente em catalão - conta Matias Pinto. Nascia aí uma forte identificação do clube com o orgulho catalão e seu slogan de "Mais Que Um Clube".

O descontentamento da Catalunha tem uma orientação política muito forte, já que os cidadãos querem formar uma República da Catalunha em oposição à monarquia espanhola, além do direito de voto. No entanto, o fator econômico é o que mais pesa para a força do movimento separatista nos últimos anos. Segundo o historiador da USP, a sede pela independência aumenta após momentos de crises, já que o PIB da região é o maior do país e os catalães sentem que "carregam" a economia da Espanha.

O fator econômico também pode impedir uma eventual saída do Barcelona do Campeonato Espanhol. O referendo do último domingo não teve caráter legal, ou seja, a Catalunha não é independente mas, se fosse, o presidente da La Liga, Javier Tebas, afirmou que não aceitaria o clube no campeonato.

- Se de fato houver a independência, acho difícil o Barcelona abandonar a Liga Espanhola. Não é interessante para os dois lados, pesa o fator econômico. Temos outras situações na Europa de clubes que atuam em ligas melhores fora do seu país de origem, como o norte-irlandês Derry City, que opta por participar da Liga da República da Irlanda - avalia Matias Pinto.

O futuro dos jogadores catalães também foi posto à prova nas últimas semanas, questionando suas participações na Seleção da Espanha. O mais criticado foi Gerard Piqué, que chegou a ser vaiado durante o treino da equipe nesta segunda-feira e deixou o campo sob gritos de "Piqué, chorão, Espanha é a tua nação". O jogador desabafou no domingo e disse que, caso a Federação Espanhola achasse melhor, deixaria La Roja antes do Mundial de 2018.

Apesar do depoimento de Piqué, Matias Pinto não acredita que jogadores catalães serão excluídos da Seleção Espanhola, principalmente pelo fato de que nem todos compartilham da visão do companheiro Piqué. No entanto, em casos mais extremos, Matias avisa:

- Alguns jogadores catalães que já estão perto de parar com o futebol podem abreviar suas aposentadorias...