Jorge Castelo

Jorge Castelo é professor referência do curso de treinador da Uefa (Foto: Divulgação)

Bruno Andrade
15/01/2016
07:20
Lisboa (POR)

Treinador de origem, professor referência do curso de formação de técnico da Uefa, instrutor universitário de metodologia de treino e, antes de mais nada, um apaixonado pelo futebol. O português Jorge Castelo pode até ser um nome desconhecido no Brasil, mas tem currículo de sobra para discutir e ensinar na Europa.

Castelo é voz ativa no desenvolvimento profissional dos treinadores europeus desde 2004 – principalmente em Portugal. Também com passagens pelos cursos da Uefa na Espanha, Croácia, Noruega, Macedônia, entre outros, ele ouviu de Mano Menezes, que foi seu aluno no primeiro semestre de 2015 em Lisboa, tudo aquilo que já acompanhava há anos à distância: o amadorismo na formação de técnicos e os inúmeros problemas no futebol brasileiro. Para 2016, Castelo deixará a sala de aula para atuar, literalmente, em campo. O português será o auxiliar de Mano Menezes no Shandong Luneng, da China.

Confira a entrevista completa:

Como você enxerga a organização do futebol brasileiro, incluindo a estrutura, os clubes?
Apesar de ver tudo de longe, sou uma pessoa muita interessada. Adoro ver o futebol brasileiro, o povo português gosta muito do Brasil. Verifico agora que o futebol brasileiro está muito atrás, não evoluiu. Até evoluiu, mas evoluiu para o lado errado. Perdeu a identidade. Onde está o melhor futebol? Na Europa. É aqui que está o dinheiro, a organização, a estrutura. O futebol europeu evoluiu porque começou a estudar de fato o futebol. E não é só ter dinheiro. Uma coisa é ter dinheiro e outra coisa é saber usar o dinheiro. O Brasil tem muito dinheiro, o problema é que no Brasil o dinheiro não é bem administrado. A CBF deveria apostar naquilo que a Uefa apostou lá atrás: formação de treinador. A Uefa, no primeiro parágrafo sobre formação de treinador, diz: “Só se pode controlar a qualidade do futebol se pudermos controlar a qualidade do treinador”. O treinador é chave fundamental no desenvolvimento do futebol.

A qualidade dos treinadores no Brasil deixa a desejar?
Basta ver a formação. Até existe uma formação, mas é toda desorganizada. Não tem essência, não tem nada. A Noruega tempos atrás utilizava muito o estilo do futebol inglês dos anos 60: pancada, chutão para frente, apostar sempre na segunda bola. Agora, felizmente, o futebol norueguês mudou muito. Nos últimos dez anos, os jovens treinadores da Noruega começaram a equacionar o futebol. Eles estão qualificando os treinos para, depois, qualificarem os jogadores. O jogo de futebol é feito pelos jogadores, mas quem faz os jogadores são os treinadores. Os bons jogadores não nascem debaixo de uma pedra. É assim que pensam no Brasil, pensam que a qualquer hora vai surgir um bom jogador para esconder tudo aquilo que existe de errado.

Qual o nível do treinador brasileiro hoje?
É uma pergunta fácil de responder: basta ver quantos treinadores brasileiros estão na Europa. Onde estão os treinadores brasileiros fora do Brasil? Na China, no Japão, nos Emirados Árabes... E mesmo nesses lugares eles têm dificuldades. Os países da Europa não acreditam nos treinadores brasileiros.

Por quê?
Por causa da formação. Hoje, se você fizer a pergunta “qual a importância de ter uma formação?”, a maioria dos treinadores brasileiros responderia: eu dou um jeito, eu aprendo sozinho.

Culpa do “comodismo”?
Sim, sim... Hoje, se você olhar a liga portuguesa de futebol, quantos foram meus alunos? Uma quantidade enorme. Quantos deles passaram pelo curso da Uefa? 99%. Todos têm formação. Isso sem contar aqueles que estudaram e estão trabalhando espalhados pela Europa.

Por que a formação de treinador no Brasil é tão ruim?
Porque é deficitária, é desarticulada. Não estou colocando em xeque apenas a qualidade do aluno, estou evidenciando a desarticulação na formação. Os clubes da Europa não confiam na formação do treinador brasileiro. Por que buscar um brasileiro? Besteira...

Se a formação funciona tão bem na Uefa, por que o Brasil não copia o mesmo modelo? Qual é a dificuldade?
Pois é, culpa da mentalidade da organização do futebol brasileiro, onde acham que sabem de tudo, não precisam de ninguém. Nem mesmo o fracasso na Copa fez isso mudar.

Apesar dos problemas, você consegue enxergar qualidade no treinador brasileiro?
Sim, eles têm boas virtudes. Eles têm uma sensacional comunicação com os jogadores, são mais abertos, sabem lidar melhor com os problemas internos. O treinador europeu corta logo, não dá margem para erros.

O que fazer para o treinador brasileiro ser visto com bons olhos na Europa?
Fazer um plano de formação de treinador, reciclar todos os treinadores. Não é preciso tirar nada daquilo que já foi conquistado. Os treinadores mais experientes, aliás, deveriam ajudar na formação dos mais jovens. Em Portugal, por exemplo, o treinador da seleção todo ano é obrigado a ter uma conferência com os treinadores da liga.

Mas no Brasil o que acontece é que a classe é desunida...
Isso é engraçado, mas na Europa também não se pode dizer que a classe é muito unida. Aqui, pelo menos, existe um pouco mais de ética. Na maior parte dos países latinos, quando um treinador é convidado para falar sobre sua experiência, sobre trabalho, existe uma relutância enorme. No Norte da Europa é normal um treinador dar palestra e dizer tudo o que faz. Já na América do Sul, longe disso... Eles guardam tudo para si, e muitas vezes até dizem coisas que não fazem. Dizem: “Faço isso, faço aquilo”. Não, não fazem. Muitos dizem coisas para enganar mesmo.

Recentemente, no Brasil, a CBF reuniu vários treinadores da Série A para uma congresso. Eles discutiram, deram ideias, mas nada foi feito...
E ouvi dizer que alguns falaram até que estava tudo bem, que quase nada precisava mudar. Dizer que está tudo bem? Impressionante. Portugal, que é um país pequeno, teve recentemente o melhor treinador do mundo (Mourinho), o melhor jogador do mundo (Cristiano Ronaldo), o segundo melhor árbitro do mundo (Pedro Proença) e o melhor empresário do mundo (Jorge Mendes). Foi algum milagre? É aqui que nós trabalhamos, e trabalhamos muito bem. O Brasil, que é imensamente maior, deveria estar na ponta de tudo.

O que de fato precisa mudar na organização no Brasil?
Falta alguém interessado e com poder para dizer: é assim e pronto. Não é mandar, é comandar. É preciso ter uma estratégia para o futuro e, principalmente, mostrar credibilidade. A CBF deveria ter visão de futuro e arranjar alguém para administrar a formação de treinadores. No Brasil, por exemplo, não existe prova para formar um treinador. O treinador faz o curso, ouve tudo numa boa e vai embora. É inadmissível não ter prova. Se não passar no exame, está fora, chumba. Aqui em Portugal já teve treinador que perdeu a chance de comandar a seleção principal porque chumbou no curso de formação.

A Seleção Brasileira está preparada para ter um treinador estrangeiro?
Acho que não. A margem de erro dele seria muito curta. Se ganhar, normal. Se empatar, nem pensar. Se perder, então... Muitas pessoas no Brasil acham que ter um treinador estrangeiro na Seleção é um atestado de minoridade. Óbvio que não é.

Mourinho ou Guardiola dariam certo no Brasil? Seja na Seleção, seja num clube...
Acho que eles não dariam certo. Poderiam até dar certo num curto espaço de tempo, mas não teriam paciência com eles depois. A mentalidade europeia é mais fechada, enquanto a brasileira é mais aberta. Guardiola e Mourinho, no Brasil, teriam de diminuir suas exigências, e eles perderiam muito com isso.

Como você vê a dança de treinadores no Brasil?
É um absurdo. Sempre me disseram que, quando um clube brasileiro contrata um treinador, ele contrata sempre dois: um para assumir de imediato e outro que já está sendo preparado para ser o substituto. O presidente brasileiro diz: “Esse é o nosso treinador, esse é nosso projeto”, mas ele já tem preparado um Plano B. Infelizmente isso não vai mudar tão cedo. Da mesma forma que perguntei quantos treinadores brasileiros têm na Europa, também te pergunto: quantos treinadores da Europa estão no Brasil? Nenhum. Por que o treinador europeu não vai para o Brasil? É por falta dinheiro? Não. É por causa do clima quente? Não. Tem jogadores ruins? Não. Pelo contrário, tem bons jogadores. A resposta é simples: é que o treinador europeu sabe que, ao chegar no Brasil, ele tem enorme chance de ser demitido depois de seis ou sete jogos. Na Europa, por sua vez, isso é raríssimo. O José Peseiro (português) foi convidado pelo São Paulo, mas recusou o convite. O André Villas-Boas (também português) foi outro que recusou. O treinador estrangeiro sabe que no Brasil a promessa é da boca para fora, não existe confiança. Por que a Inglaterra desenvolveu rapidamente o futebol? Porque o futebol inglês tem treinadores sul-americanos, portugueses, espanhóis, franceses, agora chegou um alemão... Diferentes visões ajudam no desenvolvimento do futebol.