Cavani

Cavani é o nosso entrevistado da semana (Foto: AFP)

Mario Hansen
25/03/2016
12:38
Montevidéu (URU)

O atacante Edinson Cavani se sente em casa defendendo a seleção do Uruguai. Curte os companheiros, tem toda a confiança do treinador Óscar Tabárez e, na partida contra a Seleção Brasileira, hoje à noite, na Arena Pernambuco, vibra com o fato de finalmente ter como companheiro de ataque o goleador Suárez. Afinal, isso tira o enorme peso que carregou nos últimos dois anos – quando o craque do Barcelona ficou suspenso após a mordida no italiano Chielini durante a Copa de 2014.

Mais: Edinson Cavani poderá mostrar todo seu futebol guerreiro, marcando e chegando ao ataque, mas sem a obrigação de ser o único a fazer os gols.

Talvez por isso Cavani recebeu a reportagem do LANCE! e da revista francesa L’Équipe na concentração onde o Uruguai iniciou a preparação para o jogo com o Brasil de forma muito descontraída.

No papo, o jogador falou sobre a suspensão de Luisito, que ele considera absolutamente injusta, fez grandes elogios ao treinador, o “Maestro Tabárez”, que acaba de completar dez anos no comando da Celeste e que confia plenamente no processo de renovação da sua seleção, que acontece atualmente.

Sobre o time de Dunga, disse que há todo um respeito, pois além de jogar em casa, a Seleção Brasileira possui jogadores qualificadíssimos e que são capazes de decidirem qualquer partida.

O curinga do esquema tático do Uruguai só ficou um pouco mais sério quando falou sobre o Paris Saint-Germain, clube que defende e que está nas quartas de final da Liga dos Campeões da Europa. Primeiro, comentou que a seleção uruguaia é uma família na qual todos se ajudam. Na hora de falar do PSG, foi bem mais reticente quanto a relação de amizade com os colegas:“São culturas diferentes”, “Me preocupo com a minha vida”... e dá a entender que um acerto seu com um clube inglês (Arsenal ou Manchester United) não é mera especulação da imprensa europeia.

Leia abaixo a entrevista concedida pouco antes do embarque do Uruguai para Recife:

Cavani e Suárez
Cavani e Suárez foram o ataque do Uruguai (Foto: AFP)

Como o time uruguaio chega ao Brasil para esta partida pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo da Rússia?

"Para qualquer jogador uruguaio é uma motivação bárbara jogar contra o Brasil. E está sendo assim, mesmo com os nossos muitos desfalques, principalmente no setor defensivo, que virá totalmente mudado. O lado bom é que os companheiros que entrarão nos lugares dos titulares não são novatos, como Fucile e Victorino, que os brasileiros conhecem bem. Os demais também estiveram defendendo nosso país em outros momentos. Em resumo: estamos confiantes e nos encanta jogar este clássico e, mais do que tudo, o que passamos no Brasil em nossa história futebolística, como os Mundiais."

Do que os brasileiros precisarão se cuidar?

Brasil é Brasil. Potência. No meio de campo para o ataque tem jogadores que decidem uma partida a qualquer momento. Devemos respeitar muito o nosso rival e trabalhar mentalmente. Mas também temos nossas armas, com jogadores que estão atuando em nível muito elevado. O Brasil encontrará um adversário forte pela frente e sabe que precisará ter cuidado com a nossa seleção.

A Celeste reiniciou um processo neste caminho rumo ao Mundial de 2018, na Rússia. Já não estão mais na equipe referências do passado, como o atacante Diego Forlán e o zagueiro Diego Lugano, por exemplo. Mas a identidade da seleção do Uruguai, o estilo de guerreiros, permanece, sem dúvidas. Qual o segredo disso?

"Creio que o treinador Óscar Tabárez tem feito um trabalho exemplar nestes dez anos de comando, conseguindo formar um grupo de jogadores fantásticos e, mais do que tudo, um grupo de homens. A convivência entre os jogadores é sempre muito boa, mostramos que a nossa concentração é máxima. No fim de tudo sabemos que os resultados são os fatores mais importantes. Mas não temos como negar que foi nosso maestro Tabárez, ao manter sempre uma mesma linha de trabalho, que faz a diferença, como agora, neste momento de novo processo."

HOME - Uruguai x Chile - Eliminatórias para Copa-2018 - Cavani e Bravo (Foto: Miguel Rojo/AFP)
Atacante é uma dos astros da Celeste (Foto: AFP)

Voltando ao jogo, o goleador Luis Suárez estará em campo após uma longa suspensão – oito jogos oficiais – que o tirou também da Copa América do ano passado e das primeiras rodadas das Eliminatórias para o Mundial. Como é voltar a jogar com ele, formando a dupla de ataque?

"É indiscutível que Luis está em uma forma exuberante, mostrando toda a classe de jogador fora de série que ele é. Tudo isso é positivo para nossa seleção, pois nos enche de orgulho ter no grupo um jogador tão especial. Então, a sua volta não é somente um motivo de alegria ou algo a mais para que possamos conseguir um grande resultado em Recife contra o Brasil. É uma vitória por tudo o que aconteceu com ele, que sofreu punição muito severa e longa. Foi injusto para o nosso principal jogador. "

Poderia nos dizer porque considera que foi cometida uma injustiça com Suárez durante a Copa do Mundo no Brasil?

"Quer uma lista? Tiraram de um Mundial. Colocaram como um delinquente em um momento que o Luisito era a chave para a nossa seleção na competição mais linda do mundo. Todos nós, uruguaios, sentimos que a sua sanção não foi apenas futebolística e isso nos chocou muito. Nem a Copa América ele teve como disputar. Só está voltando agora, quase dois anos depois."

Você conhece muitos jogadores da Seleção de Dunga e alguns trabalham com você no PSG...

"Há um grupo de grandes futebolistas, jogadores de altíssimo nível em todos os setores e muitos brasileiros excepcionais."

Aliás, se tivesse que comparar o PSG com a seleção do Uruguai, qual você analisaria ser o melhor time melhor?

"É uma análise diferente – time e seleção. Comparar resultados é complicado. O que posso dizer é que são grupos diferentes. Na minha concepção, preciso conviver e viver em plenitude onde estiver, seja na minha seleção ou no PSG. Falando do dia a dia, lá na França temos jogadores de diferentes culturas. Isso é algo que se nota logo de cara. Aqui estamos numa família e isso é algo que também se nota rapidamente. Estamos sempre contentes e dispostos a ajudar os companheiros. Aqui (seleção uruguaia) tenho companheiros de longa data, de oito, dez anos juntos."

ATACANTE FALA SOBRE SEU MOMENTO NO PSG E FUTURO

Cavani - PSG x Lyon (Foto: Thomas Samson / AFP)
Cavani em ação pelo PSG (Foto: Thomas Samson / AFP)

Há uma grande especulação sobre o fato de você não ter se adaptado totalmente no PSG e que sua vontade seria deixar o clube no fim desta temporada. Qual a verdade sobre isso?

"Todos podem dizer muitas coisas. Eu tenho um contrato com o Paris e tenho de respeitá-lo até o último dia. Sou um profissional que defende com determinação a camisa de um clube e me proponho a defender qualquer equipe como se fosse um torcedor fanático daquela mesma agremiação. Tenho ainda mais dois anos de contrato, porém também sou consciente que as coisas mudam muito rapidamente no futebol. Muitas vezes as coisas dependem tão somente de uma pessoa, ou de um grupo de diretores ou de uma sociedade (de diretores) que tomam uma decisão sempre buscando o melhor para o clube e por isso algo muda rapidamente. Hoje, o que eu respondo é que podem falar que Cavani deseja sair do Paris Saint-Germain e tudo o mais, pois existe a busca pela notícia, a especulação. Porém, tenho bem claro que o meu contrato expira em 2018, mas nunca se sabe o que é conversado nos bastidores."

Como chega o PSG para a disputa das quartas de final da Liga dos Campeões contra o Manchester City?

"A equipe-base já tem mais um ano que joga junta e estamos mostrando uma solidez muito grande. Me parece que temos demonstrado para todos que estamos muito bem. Espero que o grupo continue unido e que tenhamos a consciência de que somos um conjunto, que todos dependem de todos e que se jogarmos como grupo teremos a chance de conseguir algo muito importante no fim da temporada, além do conquista do Francês, que já é nosso."

Mas não há dúvidas de que o Manchester City, embora não vá tão bem assim na Premier League Inglesa será um adversário bem difícil...

"Claro. Para todos nós no Paris Saint-Germain é um prestígio jogar contra uma equipe do porte do Manchester City. Porém, temos de pensar apenas no que podemos fazer e esquecer um pouco da força do nosso rival. Eles têm chances? Nós também. Chegamos até aqui e queremos mais."

Enfim, como é conviver com Zlatan Ibrahimovic? Dizem que é um jogador que tem um grande ego, não é fácil lidar com ele...

"A verdade é que eu não me detenho em como é cada um. Eu me preocupo como eu sou e com a minha vida. Fala-se um monte de coisa, de que o Cavani não se dá com o Zlatan, ou com outra pessoa. Isso é criado e especulado pela imprensa. Eu não tenho nada contra nenhum jogador que está lá dentro. Repetindo uma frase que falei um pouco antes. Somos diferentes porque somos de diferentes culturas. E todos respeitam isso no Paris Saint-Germain."