Vinícius Perazzini
08/03/2016
06:15
Rio de Janeiro (RJ)

Hoje, 8 de março, é dia de celebrar as mulheres, de exaltar a luta de bilhões de guerreiras. É dia também de contar a história de revolucionárias. Nos bastidores do futebol, poucas mulheres se arriscam a ser empresárias de jogadores e o setor é dominado por homens, mas a brasileira Daisy Brandino quebrou barreiras com muita determinação. A executiva, que gerencia as carreiras do volante Fernandinho, do Manchester City e da Seleção, e do atacante Junior Moraes, do Dínamo de Kiev (UCR), atualmente é respeitada por poderosos dirigentes do futebol europeu. E nós falamos com ela, em um papo de coração aberto, que detalhou todos os preconceitos superados.

Daisy negociou Fernandinho com o Manchester City em uma compra de R$ 112 milhões junto ao Shakhtar Donetsk (UCR), em junho de 2013. Foi, sem dúvidas, a consolidação de seu nome como agente. Sua empresa, a Victrix, fundada em 2010 e com escritórios em Zurique (SUI), Dubai (QAT), São Paulo e Goiânia, também cuida de nomes de fora do futebol, como o ex-piloto Emerson Fittipaldi e seu filho Emmo, de 8 anos, que está no kart. Porém, apesar da vida agitada, a executiva de 47 anos é uma mãe amorosa e uma avó coruja.

Qual é sua formação acadêmica e como você abriu sua empresa?
> No Brasil, fiz letras e psicologia. Mas sai do país jovem e encontrei algumas dificuldades quando cheguei na Suíça. Assim que cheguei, meu ginásio não foi reconhecido, então tive que repetir todo o estudo novamente. Me falaram que o Brasil era considerado um país de terceiro mundo. Foi muito difícil, mas com muita luta, consegui superar barreiras e ter sucesso no direito. Em 2010, abri a minha empresa (Victrix), voltada para finanças. Mas, em 2011, surgiu a oportunidade de ajudar uma pessoa ligada ao futebol. Como se sabe, muitos jogadores não conseguem administrar a carreira depois do futebol. Sendo assim, acabei ajudando nesse sentido também e, aos poucos tudo foi se encaminhando para o mundo da bola.

Você mora fora do Brasil? É casada? Tem filhos, netos?
> Moro na Suíça há 23 anos. Sou divorciada, tenho um filho (Rafael) que toda a mãe sonha em ter. E ele me deu de presente a menina mais linda do mundo, a Sofia, que é um presente de Deus. É um amor diferente quando você tem uma neta.

Como foi sua entrada no mundo do futebol? De onde surgiu essa vontade?
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O mundo da bola para mim é uma velha história. O meu pai era jogador profissional e meus avós amavam futebol. Isso já estava no sangue. Sempre convivi e sempre assisti. Quando fui para a Suíça, sabia que teria que trabalhar muito e sonhava com o futebol, mas ele apareceu para mim de uma forma inusitada. Eu frequentava uma igreja e fazia muito trabalho com traduções. Em uma ocasião, uma pessoa que trabalhava com futebol, me chamou para que fizesse um trabalho de traduções. Depois desse trabalho, acabaram aparecendo outros. Mas, com o tempo, via que não concordava com as situações em que os jogadores eram submetidos. Eu estava ali, no processo de tradutora, mas percebia que algumas coisas, como a forma que o jogador era tratado, não era a correta. Sendo assim, decidi ajudar eles neste sentido. O jogador era visto como um negócio e não como um ser humano. O negócio era uma coisa fria e a prioridade acabava sendo o dinheiro e não uma oportunidade de mudança de perspectiva para o jogador. Isso me deixou muito chocada.

Você já passou por algum tipo de preconceito no futebol por ser mulher?
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Sempre. Não é um preconceito pesado, mas o pessoal não leva a sério quando tem mulher trabalhando com o futebol. No esporte, de uma maneira geral, existe preconceito. O jornalismo, por exemplo, é um segmento no qual isso foi quebrado, mas no futebol ainda não. Eu me lembro bem quando negociei a saída do Fernandinho do Shakthar para o City. No começo encontrei muita resistência. A negociação chamou atenção pelos valores e o pessoal não acreditava que uma mulher estava participando disso. Hoje, graças a Deus, sou uma pessoa respeitada na Ucrânia também por causa disso.


Qual é o motivo de ter poucas mulheres atuando nos bastidores do futebol?

> Acredito que as mulheres não têm muita chance. Se tivessem, tudo seria diferente. Quando eu cheguei no mundo do futebol, fui mais aceita pois ser bem sucedida na minha área. Não dependia do futebol para sobreviver e isso me ajudava na hora de fazer os negócios.

Você acha que o mundo do futebol seria mais justo e humano se houvessem mais mulheres nos bastidores?
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Com toda certeza. Temos o lado maternal e isso conta muito. Não estou falando mal dos homens, longe disso, mas a mulher tem aquele lado de preocupação. Isso ajuda e muito.

Os jogadores agenciados por você te chamam de "Guerreira". Qual é o tamanho do seu orgulho por isso?
> Os meninos (jogadores) me chamam de "Guerreira" pela minha disposição e vontade de superar os desafios. Eu nunca desisto ou me sinto ofendida. Isso me ajuda. Eu sempre chego para os jogadores e falo que estou pronta para a guerra, mas no bom sentido. Existem negociações que duram meses e acabam se tornando um processo desgastante para todas as partes envolvidas. Os jogadores me chamam de "Guerreira" e eu também os chamo assim. Mas sou guerreira das pequenas guerras. As mães, em geral são as maiores guerreiras que conhecemos.

Em agosto do ano passado, você encabeçou uma campanha na internet para ajudar um menino de 13 anos com leucemia, buscando um doador de medula. Diversos atletas da Seleção se mobilizaram em seguida. Como está o garoto?
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O Biel (Gabriel) é uma criança linda e que ainda precisa de ajuda. Ainda estamos na busca por um doador. É mais uma guerra que estamos tentando vencer. Chegamos a encontrar um doador, mas existe uma mutação em que não foi possível dar sequência ao processo de cura. Mas, com a ajuda de todos, vamos conseguir.

Você encoraja outras mulheres a entrarem no mundo do futebol ou pensa dar algum tipo de curso para mulheres?
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Curso não, mas eu quero sim encorajar as mulheres a entrarem no futebol. Todas precisam correr em busca dos seu sonhos. Hoje me sinto realizada, já que tenho uma família maravilhosa e consegui contribuir para que os jogadores fossem vistos não só como uma mercadoria, mas como seres humanos. Isso é o mais importante. É claro que todo o empresário quer ser bem sucedido e fazer bons negócios, mas juntar isso com a satisfação plena dos jogadores é algo que não tem preço.